QUANDO MEU PAI MUDOU O DESTINO

maio 22nd, 2005 | Por | Categoria: Memórias        

Nei Duclós

Ele sabia se vestir. Ou melhor, sabia que seu terno, seu cabelo bem puxado para trás, seu bigode fino, seu sapato de verniz, seu corpo magro e firme tinham aquela postura que agradava às mulheres. Recém saído da Brigada Militar, de o­nde se retirou depois de sofrer uma injustiça (não foi condecorado por bravura na guerra de 1932, quando prendeu um oficial inimigo), ele abraçou a carreira de inspetor sanitarista, naquela época em que havia investimentos nessa área no Brasil. Lá conheceu a moça magra e também elegante, de passo miúdo e sorriso sedutor, com olhinhos puxados de índia, cabelo preto e pele morena. Vinda de uma família de proprietários de terra que perderam as posses com a morte do pai, ela tinha formação: fora professora primária e além disso passara uma temporada de estudos na capital. Muito religiosa, entrou em acordo antes de casar com aquele moço bonito, ateu, charmoso e um apaixonado pela caça e a pesca. Poderia freqüentar a igreja e encaminhar os filhos para a religião, que ele não colocaria nenhum obstáculo. Ele seguiu à risca seu acordo, mas surpreendeu em outros itens. Decidiu, por exemplo, um belo dia, que não queria mais a carreira pública. Havia muito conflito por pouco dinheiro. Além disso, era uma rotina muito monótona. O que fazer, se já tinham três crianças em casa? Resolveu então juntar os cacarecos, colocar mulher e filhos na casa de um parente e partir para uma longa pescaria.

BRILHO – Lá no meio do mato ele achava a si mesmo, o homem perdido na cidade. Sentia-se aliviado e tornava-se humano, fora da carcaça que precisou inventar para sobreviver. Pertenceu também a uma família órfã de pai. O velho, tenor de circo, daqueles que cantavam árias no final dos espetáculos mambembes das periferias, abandonou mulher com oito filhos e saiu pelo mundo para nunca mais voltar. Seu ímpeto, talvez, fosse fazer o mesmo, mas ele não repetiria o erro. Era um homem de palavra. Mas primeiro deixou-se levar, dias e dias pescando, vivendo do peixe, que ele fritava com a maior tranqüilidade na beira de um arroio farto e generoso, em terras pertencentes a um estancieiro amigo seu. Tivera uma infância pobre e lutou bravamente todos os dias. Com nove anos de idade, de pé no chão, vendia pastel . Um dia levou um relhaço de um carroceiro, que o atingiu por pura maldade. Não teve dúvida: jogou uma pedrada nas costas do agressor. Na escola, fizera tão bem o primeiro ano primário, que passou imediatamente para o terceiro. Espírito livre, caiu no erro de espreguiçar-se, uma vez só, em aula. Levou uma reguada da professora naquela época da palmatória. Levantou-se, pegou seu boné e não voltou mais. Tornou-se um devorador de livros, jornais e revistas. Lia tudo, até classificados. Queria que os filhos fossem longe, fizessem faculdade e doutorado, e tivessem a iniciativa de adiantar-se aos professores. Não poderia, portanto, voltar atrás. Levantou-se na beira do arroio, viu as bóias do seu espinhel, sentou-se no seu banco e decidiu: vou montar um negócio, sair dessa vida precária. Tinham já se passado 15 dias. Voltou sujo, barbudo, mas com um estranho brilho no olhar ardosiado.

NEGÓCIOS – Montou então uma lenheira, depois um armazém, depois uma loja de brinquedos com uma barbearia ao fundo e prosperou. Tonou-se o único rico entre os irmãos. Um deles era pescador, dois aposentados, uma irmã viúva, numa sucessão de pessoas que costumavam passar o verão naquela esquina generosa, o­nde a todos acolhia com seu charme de anfitrião. Dizia-se feliz, pois um belo dia mudara o destino. Gostava de iniciativas, de pessoas se virando, de sucesso. Mas jamais fez amizade na elite, com algumas exceções, pessoas que o admiravam e aceitavam como era: um homem franco, independente e que às vezes poderia ser confundido com uma pessoa hostil. Era sócio de todos os clubes, os dos ricos e os da classe média. Não freqüentava nenhum. Por um tempo, gostou de jogar. Sentia-se seguro, com sorte. Mas nem sempre teve sorte. Caiu, mas levantou-se. Montou numa garagem na saída da ponte internacional uma pequena casa de casa e pesca que se transformou num comércio de variedades, desde garrafa térmica até cadeira desmontável. Nessa casa estreei minha primeira ocupação profissional.

EXEMPLO – Quinto filho daquele casal, eu vivia no mundo da lua. Nada sabia da história que os dois criavam ao redor de si. Sem enxergar, eu fazia parte daquele enredo. E dali saí para o mundo, equipado com o que tinha de melhor: o rompante do meu pai voluntarioso e livre, a concentração e a verve da minha mãe. Minha literatura tem essa origem: o pai que enfrentava a correnteza, a mãe que abençoava a partida. E a possibilidade, pelo exemplo, de um belo dia mudar o destino.

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