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REDUTOS DA LUCIDEZ ESCANCARADA
Published: Feb 21, 2007 - 08:33 PM
Nei Duclós
A indiferença funciona
como um vírus. Se espalha pelo país continente como pandemia. Mas ao
contrário de outras doenças, não encarna o Mal com todas as formas da
feiúra. Vaidosa, jogo o xadrez das exclusões, iludindo, pela aparência,
de que não há motivo de pânico. Na literatura, funciona assim: meia
dúzia de autores citáveis ocupam todo o espaço das atenções do país
oficial. O resto fica restrito ao limbo. É para provar que não existem,
ou se existem, não têm nenhuma importância. O Brasil não consegue
suportar a própria diversidade, por isso encarcera seus talentos numa
redoma de chumbo. Finge que não vê. E quando não há remédio, quando
alguém oculto explode em luz, se assenhora da evidência colocando-a no
jugo do dèja vu. Ou então, deixa o tempo passar para tudo voltar ao
normal.
Dentro desse ambiente de horrores, medram a
frustração e o delírio megalômano. É difícil focar, na multidão de
criadores pouco vistos e lembrados, os que resistem e mantêm intacta a
missão a que se destinam. Eles também se rebelam, se desesperam, mas
conseguem cultivar, nos redutos a que foram empurrados, a fonte
escancarada de uma lucidez sem trégua. Jamais perdem seu perfil de
guerreiros sem sombra. Lá eles lutam, aguardam, sonham, e continuam
publicando, mesmo que isso reforce o veredicto de que não devam
aparecer muito. Eles desmoralizam o cânone e desvelam, para os leitores
ermos de literatura de verdade, aquilo que mais nos faz falta: o
espírito livre, o ofício em estado de arte e a denúncia maior, a de que
a vida, breve, é uma espécie de loucura engendrada pela morte.
É o que nos diz Emanuel Medeiros Vieira,
com 16 livros publicados, em "Os Hippies Envelhecidos" (UFSC, 100
páginas), de 2002, onde encontra o lugar sagrado do equilíbrio entre
memória e literatura, entre invenção e resgate. Nesse cruzamento das
evidências mais nobres da existência humana, ele se coloca no foco
crepuscular de uma abordagem irada e poética. Seu cuidado é não cair no
vazio, no artificialismo, na tautologia. Por isso mói a narrativa de
todas as formas, libertando-a dos vícios por meio de exemplar domínio
do seu ofício. Os contos dessa pequena amostra de seu vasto talento
jorram de um improvável (e revelador) Diário de Outono, que é, ao mesmo
tempo, a reflexão do escritor sobre o que narra e a carne que oferece à
leitura. Os contos fazem de Emanuel esse feixe de luz que cruza a
tempestade como um arco de esperança e susto e revela o que o Brasil
guarda no estoque. Seu brilho já pertence, há tempos (desde 1972, com a
estréia em "A expiação de Jeruza") à literatura reconhecida, mas sua
obra ainda não obteve a amplidão necessária da visibilidade. Por isso,
seu trabalho funciona como denúncia, e é nessa embarcação que navegamos.
Um dos contos é “O Cabalista Tardio”, onde as
lições de Franz Kafka assumem o espectro de um conselheiro, um
acompanhante em praças públicas. Lá está o sopro do desespero contido
que se apresenta no tom clássico e enxuto da linguagem. Lá está a ética
de escrever por necessidade, jamais para fazer carreira. Lá está o
personagem diante da morte, que se socorre no seu ancestral literário,
iluminador de uma liberdade fecunda e dolorosa. Em “Quando Fulgêncio
foi Papai Noel”, temos a reconstrução da identidade perdida da
infância, da comunidade destruída mais pela incúria da burocracia do
que pelo tempo. Esse resgate é feito com a plena consciência de que
inventamos a infância, mas que, se não fizermos isso, estaremos
condenados à pior das mortes, ao esquecimento de nós próprios. É para
reencontrar-se que o autor experimenta a epifania de sua gênese. Esta,
não surge do acaso ou do nada, mas da vivência, com suas ruas antigas,
a família quebrada e amorosa, a fantasia que medra em folhas breves e
caules firmes.
E na obra-prima que é “Obsessivos-compulsivos”,
Emanuel faz a ponte entre a tragédia pessoal de um ser agônico, com a
vida que não se conforma com o aniquilamento. Luta vã, essa de
palavras, dirão, mas isso é só mais uma ilusão, talvez a pior a qual
podemos nos submeter. O velho que se apaixona pela loira da joalheria e
a segue como um maníaco enquanto imagina explodir tudo é a
representação dessa pena perpétua duplamente qualificada, tanto por
parte do destino, quanto por parte dos contemporâneos. É para alertar
os vivos sobre a verdadeira morte (a indiferença, pura e simples) que
Emanuel assesta suas baterias de insurgência. Não que essa batalha nos
conforte com sua inutilidade, mas exatamente porque a luta reacende o
que nos disseram estar morto.
Em “O grande amor da sua vida”, que fecha o
volume, Emanuel reata os fios soltos desse crime a que chamamos
existência. A paixão da juventude volta no momento terminal para dar
seu recado: enquanto estivermos vivos (e é bom lembrar que somos, sim,
eternos) precisamos não nos conformar com qualquer forma de condenação.
Para obter alguma resultado, é preciso fazer como Emanuel: desenvolver
até a insanidade os recursos de uma literatura que se liberta, tanto
pela violência de estar vivo, quanto pelo amor (virado ao avesso) ao
semelhante. E, principalmente, pela dureza dos espíritos que não fazem
concessões na hora de escrever, aqueles que ficam misturados às salas
de espera, mas são os verdadeiros talentos que permanecem.
Mistério e graça suprema: para isso foram feitos e de sua têmpera se abastece o mundo onde podemos enfim viver.

