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ROLAND BARTHES, ESSE É O CARA
Published: Jul 28, 2007 - 09:27 AM
Nei Duclós
Roland Barthes merece que dediquemos as ele não apenas a
leitura atenta e encantada, mas o reconhecimento do quanto contribui
para entendermos melhor a nossa época, que ele decifrou como ninguém.
Estou me referindo, claro, ao seu clássico Mitologias, escrito entre
1954/1956 e publicado em 1957. Não me aprofundei ainda em seus outros
escritos, mas só esse livro já me alimenta por uma década. Posso
assegurar que os melhores momentos do Diário da Fonte são puro Roland
Barthes, ou o que aprendi com ele.
No momento em
que ele escreveu que as “franjas obstinadas” nas testas dos personagens
do filme Julio César, de Joseph Mankiewicks, eram a “ostentação da
romanidade” inventada por Hollywood, abriu-se um clarão e uma estrada
infinita de insights sobre filmes, livros, reportagens, imagens etc. Se
Barthes, o gênio que foi convidado para ser professor da Escola dos
Altos Estudos da França pela sua obra radical e profunda, tem a ousadia
de enxergar uma evidência dessas, é porque toda a manipulação a que
estamos submetidos pode ser lida de uma outra maneira.
Foi
assim que descobri que em “De olhos bem fechados”, Stanley Kubrick
mostra como a alta burguesia impede que as outras classes sociais a
enxerguem, para melhor dominá-las. Ou que, no cinema, não existe
reconstituição de época, mas apenas composição de cenários em função da
narrativa, como escrevi no ensaio sobre o filme “As horas”. Quando
Barthes mostra o filé com fritas como expressão da “francidade”, do
perfil nacional da França, ou o cinema sobre lugares exóticos como uma
das muitas armadilhas da exclusão de uma cultura de classes (texto que
sintonizei com meus posts sobre documentários que distorciam o mundo
animal e o colocavam sob as patas da hegemonia humana) Barthes está
abrindo nossos olhos para o poder da mistificação que nos esvazia.
Ler
o mito, para reconciliar “o real e os homens, a descrição e a
explicação, o objeto e o saber” é, para Barthes, revelar a função
essencial dos mitos. O importante é não deixar-se levar pela
iconoclastia, a relação sarcástica com o tema, pois essa é uma
armadilha do próprio mito, que a tudo impregna. O leitor de mitos, com
o qual Barthes se identifica, é diferente do mitólogo, o decifrador de
mitos, que acaba se separando da comunidade a qual se dirige, pois
acredita pairar acima dos mortais quando acha estar demolindo as
certezas. Vimos como os mitólogos proliferaram nas mídias,
principalmente na Internet, onde todos são Paulos Francis a sapatear
sobre todos os assuntos. Produzir ou consumir mitos é tão alienante
quanto ser um sarcástico demolidor de mitos.
O
importante é ler com os olhos livres, para entender o mecanismo da
alienação promovido por essa cultura que transforma História em
Natureza, no dizer de Barthes. Ou seja, essa cultura que encara as
coisas como eternas, imutáveis, e esconde as transformações que
sofremos ao longo do tempo e das ações. Esconder que somos seres
mutantes, transformar o ideal da classe dominante em ideal humano, é a
função da vasta gama de mitos que nos cercam por todos os lados.
Vemos
isso diariamente, na imprensa e na televisão. Os eventos são
apresentados de forma mitificada, para manter essa situação de arrocho
econômico e político. O imobilismo nos governa. Vejam como nada muda,
por mais que mudem os governantes. É que a imposição dos mitos é tão
vasta e profunda, que tudo conspira para que continuemos nesse ambiente
sinistro em que as coisas são assim “desde que mundo é mundo”, como
costumam dizer.
Barthes é uma ferramenta
poderosa para nos desvencilharmos dessa arapuca. É por isso que, toda
vez que leio Mitologias, me transformo. Esse cara, Roland Barthes, ao
abraçar o “incontornável Marx” (como agora estão se dando conta) se
debruça sobre o poder de manipulação da indústria moderna de fabricação
de mitos. Melhor para nós, que podemos carregá-lo como um passaporte
para as realidades encobertas pela dominação.
No
posfácio da edição da Difel de Mitologias, escrito em 1970, Barthes diz
que sua análise é datada e tema se tornou mais complexo. Sem
compartilhar do mesmo rigor do autor sobre a própria obra, prefiro
encarar o livro como uma senda generosa (e ao mesmo tempo rigorosa) de
inspirações e idéias. A partir desses ensaios, é possível trilhar novos
caminhos na leitura das inúmeras camisas-de-força que nos amarram.

