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SHALAKO: SEM TRADIÇÃO NÃO HÁ RUPTURA
Published: Jan 15, 2008 - 10:46 PM
Nei Duclós
Vi Shalako, o filme de 1968 do canadense Edward Dmytryk, baseado em
livro de aventuras de Louis L´Amour, com Sean Connery e Brigitte
Basrdot, além de Jack Hawkins e Stephen Boyd. É o que chamávamos de
filmaço. Um take: os invasores da reserva têm até o amanhecer para
deixar o forte, mas eles não obedecem; pois pinta o primeiro raio de
sol que incide diretamente no punhal do indígena que inaugura o ataque.
Uma seqüência: a apresentação do personagem, que começa com o
protagonista misturado à pedra; e a sua despedida, em que ele está
confundido com o deserto. Os filmes que consideramos tradicionais são
fruto de poderosa síntese, de algo anterior a eles. Para romper com
essa tradição, é preciso levar em consideração o modelo. Você não rompe
nada por si só, você quebra em relação a alguma coisa. Os cineastas
americanos foram cultuados pelos teóricos e vanguardistas franceses,
mas essa lição jamais é aprendida. Achei Shalako demais. A poderosa
narrativa é uma lição de cinema e merece ser analisada.
FERAS - A primeira cena mostra um bando de feras, os seguranças de
um safári de artistocratas, encurralando um puma com gritos e barulho
de pedra na panela (lembra Sam Peckimpah em Wild Bunch, em que meninos
colocam um escorpião no formigueiro). Uma vez Orlando Villas Boas me
contou uma história, repetida por ele em várias outras entrevistas, de
que os mateiros imobilizavam a onça que rondava o acampamento fazendo
barulho de pedra na panela.
O filme mostra o conflito em várias situações. Essa, a dos cowboys
que acompanham a jornada e que estão de olho nas riquezas e nas
mulheres dos nobres que passeiam pela reserva indígena; a dos índios
contra os intrusos; a de Shalako, o herói que tenta evitar o confronto
e acaba se opondo aos líderes dos ricaços; os casais que não se
entendem; as nações, representados pelas várias línguas (inglês
americano, inglês da Inglaterra, língua nativa, espanhol); os que estão
a cavalo e os que se movem a pé; a perseguição e o cerco; o esconderijo
no alto do platô e o ataque vindo de baixo; entre muitos outros. Há
conflito o tempo todo conduzindo a história para a morte, o sufoco, a
frustração, a dor e o impasse (o acordo que não vinga entre duas
civilizações que não se reconhecem). É muita coisa para o que deveria
ser um simples faroeste.
PRIMOR - A escolha e direção dos atores é primorosa. O vilão,
Stephen Boyd (excelente), com o olhar de águia e sorriso maroto; o
mocinho, Sean Connery, o cavaleiro solitário que atrai com seu charme a
condessa vazia e enojada; Brigitte Bardot, maquiada até o osso,
exatamente para se contrapor à paisagem rude (ela começa vestida e
acaba sem roupa, numa cena de nu famosa e sem nenhuma apelação, o que
deveria ser uma lição para os cineasnos que dominam o cinema hoje);
Jack Hawkins, perfeito como sempre como o nobre desesperado por não ser
amado pela mulher que adora; Alexander Knox, o senador bêbado e
ridículo que tenta demonstrar a força que não tem; e Peter van Eyck, o
Barão prepotente que aprende uma lição no lugar que despreza.
O uso recorrente do contra-plongée (aquela tomada de baixo para cima
que contrapõe o personagem e, neste caso, o céu azul) serve para expor
a soma de conflitos em cada um dos principais envolvidos na trama. É
muito para um filme comercial, que dá de dez em muito filme dito de
arte.
BÁSICO - É na narrativa que os filmes de arte, em sua maioria,
falham e expulsam as pessoas do cinema. Vejo Shalako como um filme de
vanguarda, de ruptura com esquemas tradicioanais. Pois os índios têm
voz e razão, apesar de os conflitos básicos entre raças continuarem
intactos (não mantê-los seria mentir). Feito em 1968, o ano chave da
nossa cultura (ano que acabou, por certo), é mais uma demonstração de
força dos anos 60, esse mito do tempo que não deixou descendentes.
Mas Shalako tem vários elementos do cinema clássico: o foco no
personagem principal (tudo agora em redor dele, sem que a obra fique
prejudicada), que fisga a identificação com o espectador, pois estamos
sós nesta vida, do nascimento à morte; os conflitos que prendem a
atenção (se não há conflito bem amarrado, perdemos o interesse); o
humano visto em sua diversidade (o barão nem sempre perde; ganha quando
decide subir a montanha e levar o grupo consigo); a crueldade (a cena
dos índios fazendo rodízio com a mulher é impressionante) costurando as
cenas; e muitas outras coisas.
É possível gerar ruptura a partir do que a tradição nos ensina.
Shalako, imperdível, é uma vitrina de possibilidades. Deveria ser visto
com cuidado por cineastas brasileiros, que costumam afrouxar a
narrativa em favor de intenções que ficam ocultas. Bons sentimentos não
garantem um filme. É preciso saber fazer.

