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SOLDADOS DE SALAMINA
Published: Nov 05, 2007 - 03:09 PM
Nei Duclós
Soldados de Salamina (2001) , a premiada e bem sucedida novela de
Javier Cercas, é sobre a reconciliação nacional na Espanha depois da
queda do franquismo, quando era necessário revisitar as feridas abertas
da Guerra Civil de 1936 a 1939. Foi sucesso por vários motivos.
Primeiro, pela súbita notoriedade que adquiriu quando foi descoberta
por Mario Vargas Llosa, o que colocou o livro no circuito da leitura
obrigatória. Segundo, porque aborda a relação contemporânea da Espanha
com o passado, como notou o cineasta David Trueba ao levar a história
para o cinema em 2002, filme que vi ontem e que é absolutamente
magnífico.
E terceiro, exatamente porque tocou no ponto principal do país
dividido: a necessidade de reconquistar a união nacional, por meio não
do perdão puro e simples, mas do entendimento de que a vida precisa ser
hegemônica sobre a celebração da morte. Mantenha-se a diversidade, mas
um ponto comum é preciso ser acertado, o da convivência por meio do
resgate franco e aberto dos fatos que ensagüentaram o país.
Não é uma tarefa simples nem tranqüila. O livro virou alvo de
críticas contundentes, sendo acusado de promover a recostura da cultura
patriarcal e excludente, já que se trata do resgate de um episódio
obscuro, o motivo que fez um líder fascista espanhol ser poupado por um
soldado que deveria fuzilá-lo. Cercas enfrentou seu touro a unha e
saiu-se bem. Abordou os dois lados da tragédia, por meio de um momento
único, o olhar entre o carrasco e a vítima, ambos envolvidos num
conflito que dizia respeito a suas ideologias, mas jamais à humanidade
de cada um.
Trueba, jovem diretor eficiente e sensível, tem o cuidado de criar
uma obra cinematográfica que não se rende à emoção. É enxuta o tempo
todo ao seguir os passos de um Dedalus feminino, que usa o fio da
investigação dentro do labirinto para encontrar a essência da sua
história. "Esquecemos de filmar a emoção", diz ele, debochando, no
making of, depois de fazer uma cena. Ele não filma a emoção, mas faz um
filme emocionante. Consegue porque usou o livro como fundamento, graças
ao entendimento que teve com Cercas num longo convívio que chegou a
cruzar as festas de fim de ano na virada de 2002.
Trueba muda o sexo do protagonista, que no livro é homem, o próprio
Cercas, ou melhor, um personagem totalmente colado no autor. No filme é
a mulher que vai em busca da própria salvação, pois o que procura é
exatamente voltar ao seu ofício perdido, o de escritora. Conta para
isso com o apoio de quem lhe quer bem, a amiga das cartas de Tarot e os
personagens que entrevista, todos eles gratificados por serem alvo da
sua atenção.
O encontro final, com o principal personagem, exatamente o soldado
que poupou o líder fascista, é de arrebentar. Mais não conto para não
tirar a graça. Leitores e espectadores merecem ter sua própria
percepção desse trabalho maravilhoso que os espanhóis nos legaram.
Precisamos nos mirar nesse exemplo: nos reconciliar, olhar com absoluta
serenidade o Outro no momento extremo, quando nos defrontamos para nos
eliminar. Deixar que a vida resolva a situação, e que a alegria
transpareça e nos trespasse como um flecha excêntrica de Cupido, o deus
travesso.

