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TOLSTOI NO BRASILZÃO CZARISTA
Published: Aug 14, 2007 - 01:40 PM
Nei Duclós
A sociedade radiografada pelo gênio de Tolstoi em A morte de Ivan Ilitch e Senhores e servos (do livro As obras primas de Leon Tolstoi,
Ediouro, tradução Marques Rabelo e Boris Schnaiderman) é a que mais se
parece com a do Brasil velho de guerra. O primeiro conto, ou novela,
considerado obra-prima absoluta da literatura universal, aborda a
classe média ascendendo por meio da carreira nos órgãos públicos. Esse
alpinismo em direção ao Estamento se faz com ambição e mediocridade,
com falsidade e tenacidade, com a reprodução, por gerações, dos mesmos
papéis sociais passados de pai para filho, pela sociedade de classes
onde se insere a casta privilegiada de juízes e promotores. A disputa
pelo butim, o arrivismo na troca de governos, a prepotência do mando e
das assinaturas diante de uma população desarmada e pobre, tudo está
lá, de maneira límpida e absolutamente cruel.
A
fase terminal do protagonista abre seus olhos para a indiferença dos
contemporâneos, a falta de solidariedade da família (o barulho de fru
fru da saia chic da filha em noite de gala no momento em que o pai se
esvaía em dor e morte é de arrepiar), a brutalidade nas relações
humanas, o vazio e a infelicidade de uma trajetória dedicada ao nada e
a coisa nenhuma, sob a capa de uma vida respeitável e honesta. É tudo
mentira, claro. Mas só a presença da morte pode deixar explícita toda a
trama de horrores de que é feita uma sociedade de classes.
Tolstoi
sabia do que estava falando. Abandonou faculdades e empregos,
insurgiu-se contra os desmandos no Exército, abandonou bens e família
já em avançada idade: ele não queria para si o destino de Ivan Ilitch,
o juiz que enxergou tarde demais. Um insight que ele economiza para as
gerações que o sucederam, e que assim mesmo não aprenderam a lição, já
que reproduzem o mesmo quadro indefinidamente. O que vemos hoje? A
falsidade imperante, as carreiras profissionais fundadas no fingimento,
na mentira e no marketing pessoal, a violência dos mercados, do
trabalho, das pessoas e dos produtos.
Pense,
como Ivan Ilicht, nos momentos felizes da vida profissional e adulta.
Ivan teve que ir buscar na infância algumas migalhas de felicidade, já
que depois não encontrou mais nada. É assim a vida que vivemos. Por
mais amizades que tenhamos feito, por mais vitórias acumuladas, um
balanço sincero de quem queima os navios para viver uma vida diferente
poderá revelar o que fica oculto: o de que estamos submissos a essa
gana pela sobrevivência, que nada respeita na sua carruagem de fogo.
Radical demais? Tolstoi, com seu talento insuperável e maestria, prova
que não.
No segundo conto, são os mandões que
enriquecem explorando tudo e todos e colocando a canga em cima das
necessidades alheias. O protagonista arrisca a vida e a do seu servo
para fechar um negócio inspirado pelo seu medo de perder dinheiro. Ele
precisa enfrentar a tempestade para poder passar a perna em quem vai
vender e nos seus concorrentes, que querem comprar a mesma floresta.
Sua intenção é devastar o lugar para conseguir o máximo de lucro.
Quanta coincidência, não?
Esse personagem
descobre, quando fica preso no meio da neve e do vento, que é mais
importante viver do que conseguir mais riqueza. Mas também é tarde
demais. Ele ainda consegue recuperar parte da sua humanidade ao salvar
o servo do congelamento, mas sua morte prova que esse gesto foi o único
de sua vida estéril. É assim que acontece: vamos adiando a verdade até
que não podemos mais abraçá-la, a não ser na hora final. Por que não
queimar etapas e hoje mesmo começar a mudar? Por que é difícil, porque
significa arriscar a sobrevivência. Precisamos fingir, mentir, para
continuarmos vivos, ou não?
Ou tudo não passa de
uma armadilha da sociedade de classes, do poder monopolizado de
inúmeros czares que definem nossas vidas enquanto gargalham? Pelo
menos, ler Tolstoi nos resgata para muitas verdades e para o entusiasmo
de mergulhar num texto realmente primoroso e eterno.

