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UM CONTISTA NO LIMITE
Published: May 19, 2007 - 10:16 AM
Nei DuclósRicardo Peró Job
apresenta seus personagens em várias situações limite: o velho que
recebe uma indenização ao ser dispensado das suas funções na fazenda
onde dedicou toda a vida; o produtor rural arruinado que encontra seu
desfecho trágico num quarto sujo de hotel; o travesti apaixonado que se
mata por desilusão amorosa; o guerreiro que poupa o inimigo porque este
tinha a idade do seu filho, e acaba sendo vítima de sua própria
decisão; entre outras situações, todas voltadas para o momento terminal
de vidas endurecidas por uma lei oculta, que o autor não tenta
decifrar, pois prefere reportá-la com a segurança dos escritores
maduros.
Seu livro, A sereia do luminoso,
ainda inédito, é um inventário dessa vida que reproduz, no espaço
doméstico ou profissional, as grandes tragédias nacionais. É um livro
trágico, que não abre mão da frieza do relato. A narrativa não lamenta
a procissão funerária de elementos postos à margem do que é considerado
normal. Prefere construir uma estante de fatos dolorosos, representados
não só pelo perfil de existências jogadas no lixo, mas também pela
disposição dos móveis, a descrição dos ambientes na cidade e no campo,
as fachadas decadentes. As pessoas se defrontam com o Mal provocado em
suas vidas e o impasse se reflete no abajur, no luminoso do cabaré, na
festa corporativa. Tudo compõe uma não-sociedade, que não avança porque
está travada em suas funções fundamentais, especialmente a de cumprir
destinos.
Sem iludir-se com o buraco onde estamos metidos,
Ricardo prefere a lucidez pautada pela parcimônia. Nada explode em seus
contos. Mesmo quando há suicídio ou despedida, as palavras que usa
discorrem com solidez. É como se estivéssemos escutando um narrador
veterano a contar causos que viu ou ouviu falar. Silenciamos, e
deveríamos aguardar a água que sacia nosso vício, o final feliz. Mas
parece que a roda prefere mesmo esse fluir de misérias, para justificar
o próprio sofrimento. Saber que a dor impera na vida alheia é uma
espécie de conforto mórbido, que nos mantém grudados na leitura.
Mas não parece ser esse o objetivo do autor. O que
ele consegue é revelar uma porção do Brasil profundo, numa área
determinada, a fronteira ( representação do limite), que nada tem a ver
com a relação com estrangeiros, mas com esse cruzar permanente de
umbrais cada vez mais assustadores. O cabaré, a guerra, a casa da
infância, a relação complicada entre várias preferências sexuais são o
mural humano que Ricardo Peró Job mostra com a segurança de quem
escolheu um rumo para seu ofício e nele se aprofundou como quem planta
para o futuro.
Pois, se os seus contos podem ser comparados a uma
horta muito bem cuidada, a verdade é que Ricardo aspira ao latifúndio
produtivo. Ele tem o manejo do produtor atento ao detalhe,
mas aposta alto na sua vasta semeadura. É uma literatura ambiciosa,
disfarçada por trás de um capão do mato. Lá se esconde um atirador
primoroso, que mira o leitor desde a primeira frase. Não sabemos o que
nos espera. Mas fatalmente será o estampido seco de uma tocaia, a do
autor ainda submerso, que se manifesta pelo tiro quando tudo sugeria
mansidão e quietude. A bala atinge o alvo: seu clarão de tempestade
mostra o ermo de um país envolto na penumbra. Ela é capaz de resgatar a
narrativa num galpão silencioso, criada na véspera de uma guerra.

