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UM CORREDOR DE BRINQUEDOS
Published: Dec 13, 2006 - 05:12 PM
Nei Duclós
Lembro de cenas quando ainda estava no colo, no cercadinho e no
berço. Lembro de diálogos inteiros e ainda nem sabia falar. Acredito
que o primeiro ano de vida tem dessas coisas: já estamos prontos, só
falta o treinamento para falar e andar. Tudo o que existe e acontece
não escapa ao olho clínico dos que ainda estão engatinhando. As
recordações do berço são as mais mágicas. Meu irmão Luiz, Carlos, com
apenas 13 meses a mais do que eu, me acordou para ver os brinquedos.
Era um corredor, que ligava o quarto dos pais, onde eu dormia, e a
sala. Lá estava aquele antigo pião que soltava um silvo quando
rodopiava e era movido a pressão. Feito de metal, bastava socar o pino
várias vezes para ele funcionar. Havia a bola de futebol, os pequenos
caminhões e automóveis e mais coisas que não lembro. A criançada era
imensa na minha casa, especialmente nessa época, em que os parentes
vinham de Porto Alegre nos visitar e viravam nossa rotina para ar. Os
quartos eram reservados para os casais que chegavam com malas e filhos,
enquanto nos amontoávamos em todas as partes em colchões no chão. Toda
minha infância foi assim. Mas o grande momento era a ceia na véspera de
Natal, quando comíamos salada de fruta com guaraná e minha tia Sarinha
tomava um pilequinho tradicional.
MANHÃ - Os brinquedos só eram distribuídos na madrugada, quando
estávamos dormindo. Não havia essa facilidade de ser presenteado ainda
na véspera. O importante era esperar o dia 25 que, se fosse domingo,
era totalmente perfeito. Levantávamos com o coração na mão e víamos os
pacotes embaixo da imensa árvore enfeitada. Entre os brinquedos
inesquecíveis, um tanque de guerra movido a pilha que mostrava todas as
luzes enquanto corria pelo piso de parquê, virando o canhão para os
dois lados. Quando batia em algum obstáculo, voltava automaticamente.
Luiz Carlos ganhou um trator, que fazia com que o motorista mexesse os
braços quando havia alguma manobra.
GUERRA- Eu ainda vibrei com meu tanque por muitos anos, mas outros
armamentos também me emocionaram, como arcos com flechas com borracha
na ponta, que grudavam no alvo (e nas paredes, em qualquer lugar onde
eu apontava). Especialmente a dupla de gigantescos revólveres que
soltavam balas de plástico. Era acompanhados por portentoso cinturão,
que me fazia me sentir como o próprio Roy Rogers, o mocinho de faroeste
que aparecia em seu cavalo Trigger atrás de uma pedra branca exatamente
no momento em que a diligência (com a mocinha dentro) era atacada pelos
bandidos. Muita guerra na infância? Essa era a nossa brincadeira
favorita. Nascemos perto demais da II Grande Guerra, da Guerra da
Coréia, e os filmes só mostravam isso. Montávamos em cavalos
imaginários e perseguíamos ladrões. Depois, quando vi High Noon, de
Fred Z innemann, The searchers, de John Ford e toda a sangüinolenta
obra de Sam Peckimpah, passando pelo exagero do faroeste italiano, vi
que a imaginação incendiada da infância tinha se transformado em algo
adulto, maior.
AVÓS - O Natal, data de felicidade e paz, era pautada pelo encontro
da família dispersa por inúmeros tios, primas e sobrinhos. Não conheci
meus avós, de nenhum lado da minha ascendência. Pouco se falava sobre
eles. Meus pais, órfãos de pai muito cedo, encontraram, talvez, um no
outro, o mesmo desamparo de uma infância complicada. Mas nos passaram
um tempo de extrema alegria, com seus hábitos, seu espírito de
anfitriões perfeitos, dedicados sempre à celebração nas datas
importantes. O Ano Novo era uma algazarra só. Tinham, como as noites de
São João, São Pedro e São Paulo, muita fogueira e buscapé e trovões de
pólvora. Até hoje essas festas me fazem lembrar o que tivemos naquela
época longínqua, espaço agora mítico em que vivíamos crianças num mundo
dominado pelos adultos. Aos cinco anos, me contaram a verdade: Papai
Noel não existia. Fiquei chocado, como todo mundo, mas me acostumei.
Aguardava os presentes sabendo que eram eles, os pais, que nos
presenteavam. Ficou a magia, a expectativa, a alegria na manhã
maravilhosa.
MÚSICA - A memória é seletiva e devemos esquecer o que realmente nos
incomodou. Especialmente as frustrações diante de presentes magros em
época de penúria, brigas em noites de Natal, raras, mas existiram. O
que fica são as intermináveis noites de verão na calçada, em que cada
um de nós possuía a sua cadeira preguiçosa. Ficávamos vendo as
estrelas, fixas ou cadentes, contando os satélites, grãos de luz que
passavam céleres. O grande colégio Marista em frente estava vazio ,
pois os internos iam para suas casas, espalhadas por todo o Rio Grande,
e os professores também escasseavam, pois a maioria era de outras
cidades. Da esquina onde ficava nossa casa, víamos o entardecer,
absolutamente maravilhoso e que só Anderson Petroceli hoje é capaz de
não perder, com seu olho enfeitiçado. Depois, víamos a grande de lua
verão subir pela Rua Bento Martins, primeiro toda laranja, depois
subindo vestida de prata. Escutávamos música de todos os tipos. O piano
popular de Liberace, que destrinchava peças clássicas; a pungência de
Miguel Aceves Mejia; o baião de Luiz Gonzaga. Quando cheguei na bossa
nova, já estava adulto. Já tinha me mudado para outra casa, longe dali.
PAZ - Chega de saudade, dizia a bossa nova. E lá fomos nós para o
mundo, carregando a grandeza daqueles Natais que permanecem na memória
como o presságio de que nesta vida é possível a felicidade, mesmo que
nosso corpo não atingisse o parapeito da janela e nossos cabelos
engomadinhos provocasse risos nas gurias moças. Éramos azougues, guris
da fronteira, pessoas da cidade, que gostavam de cinema e automóvel e
que, como eu, jamais montou em cavalo, a não ser uma vez. No fundo,
ninguém sabe disso, mas eu fui Roy Rogeres. Pena que jamais aprendi a
cantar direito. Mas quando atiro, as balas ricocheteiam nas pedras.
Entreguem os bandidos para o xerife, que a cidade precisa de paz na
diferença.

