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NOIR

Soubeste do Nick, é, o Nicolau, aquele, lá da Dona Netti, assim com dois tês. Sabe que a Dona Netti se chamava Ambrosia? Quem deu o apelido, que pegou, foi o Nick. Ele era apaixonado por filme noir. Dizia que todos eram obras-primas. Vivia futucando arquivo morto para ver se encontrava alguma obra viva, que desse para projetar. É que ele tinha visto praticamente sozinho os filmes lá na adolescência dele. Como era um cara desse tamanho, fajutou uma carteira de estudante e entrava em sessão proibida para di menor. Sabia que ele queria fazer um festival desses filmes, quando tudo já tinha virado sucata? Ninguém sabia onde estavam. Nick achava que os filmes favoritos dele não cabiam em DVD. Tinha que ser no celulóide. Vê se pode.

Published: Oct 11, 2008 - 08:10 AM
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A ESSÊNCIA DO TRABALHISMO DE OPOSIÇÃO

Depois de Leonel Brizola (Caros Amigos Editora, 76 pgs., R$ 12,90), o novo livro de Gilberto Felisberto Vasconcellos, está sintonizado, de maneira ainda mais ampla e fecunda, com o que, durante anos, publiquei aqui na militância trabalhista não partidária do Diário da Fonte. Trata-se de alta produção de pensamento. Vasconcellos é um teórico sério, contundente, certeiro, que se dá o luxo, proporcionado pela criatividade do trabalhismo, de usar todas as nuances da linguagem, sem se engessar no paga-pau colonizado dos jargões acadêmicos. De maneira clara, coloca os fundamentos do trabalhismo, sua importância histórica, sua função libertária e, portanto, sua atualidade depois da morte do líder.

Published: Oct 11, 2008 - 08:07 AM
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DÊ O CRÉDITO, GEORGE LUCAS

George Lucas é, com justa razão, tratado com a maior deferência pela imprensa e o mundo cinematográfico. Fez coisas incríveis e virou milionário graças ao seu talento e a noção que tem de mercado, ou seja, não se deixa levar por idéias prontas e com sua criatividade atrai milhões de pessoas em todo mundo, por décadas. Mas Lucas tem um defeito grave: não dá crédito para suas melhores sacadas. Em Star Wars, a essência é totalmente fundada nos livros de Carlos Castaneda. O Yoda como Don Juan, a Força como o nagual, o jedi como o guerreiro impecável, tudo conflui para Castaneda. Em Indiana Jones 4, a mesma coisa: o roteirista Lucas (a direção é de Steven Spielberg) tirou o principal de Erick Van Daniken, do best-seller Eram os Deus Astronautas. Alguém citou Daniken? Nem George Lucas.

Published: Oct 11, 2008 - 08:05 AM
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QUAL DEMOCRACIA?

Fala-se tanto em voto de cabresto como se fosse algo pertencente ao passado. Mas o voto útil, por exemplo, mais explícito no segundo turno, é o mesmo velho hábito das eleições antigas, só que atualizado por meio de argumentos, digamos, científicos. O engessamento da opinião, que existe a partir de conglomerados de pensamentos prontos para o uso (mas embalados num charme pseudofilosofante), é a grande tragédia do atual estágio político brasileiro. Reflete a imposição de proibições, mascaradas sob a ótica dos nichos.

Foot notes: Crônica publicada no dia 7 de outubro de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

Published: Oct 11, 2008 - 08:00 AM
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NOSSO DINHEIRO

Recurso público não é propriedade de indivíduos ou empreendimentos. O dinheiro pertence ao Estado e a mais ninguém. Não é mais seu, meu ou nosso. Senão, qualquer um poderia retirar do cofre coletivo o que bem lhe aprouvesse. Pode-se argumentar: sim, mas esse montante pertencia à sociedade, que foi injustamente aliviada do que é seu e agora está à disposição da corrupção oficial. Pertenciam. Esse é o ponto. A sociedade outorga ao Estado a função de dispor do caixa.

Foot notes: Crônica publicada no dia 30 de setembro de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

Published: Sep 30, 2008 - 08:59 AM
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FONTES DA BOSSA

Não é que Caetano queira imitar João, Caetano é João, sem deixar de ser Caetano. É emocionante compartilhar a grandeza desse artista que nos brinda com a madura longevidade do seu talento inimitável. A seriedade, a competência e a inteligência como canta é uma questão cultural. Caetano é a ruptura que resgatou muita coisa da tradição, sem abrir mão da ruptura. É vanguarda o tempo todo, até mesmo quando escande as sílabas para homenagear a banda, os músicos, tornando sua voz um instrumento significativo, mas coadjuvante. Em Caetano, é o arranjo, a harmonia, a melodia que contam.

Published: Sep 30, 2008 - 08:56 AM
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O ADEUS DO INDOMÁVEL

Em Cool Hand Luke (Rebeldia Indomável, 1967), no papel de um presidiário que se insurge contra a cadeia, Paul Newman conseguiu seu passaporte para a eternidade. Agora que não fará mais filmes, e está sendo lembrado pelo seus papéis mais afetados, como o jogador de sinuca de A cor do dinheiro, o gigolô de Gata em teto de zinco quente, o soldado de Exodus ou o bandoleiro simpático de Butch Cassidy, é melhor regular a transmissão para esta obra prima de Stuart Rosenberg, com George Kennedy como coadjuvante, fazendo papel do veterano que protege o garoto recém chegado, Newman, capaz de comer 50 ovos! De condenado a anos de prisão por ter desmontado, bêbado, alguns parquímetros na calçada, ele vira o mito rebelde que busca a liberdade de qualquer jeito e que deixa o sistema carcerário num beco sem saída: ou mata o indomável ou sucumbe com ele.

Published: Sep 30, 2008 - 08:54 AM
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BILAC

Nepotismo, prostituição infantil, violência urbana: nada escapa ao cronista Olavo Bilac na carioca Gazeta de Notícias. Na virada do século 19 para o 20, ele denuncia os exploradores sexuais de crianças de sete e oito anos, ironiza os oligarcas que empregam as famílias nas bocas do Senado e da Câmara, se insurge contra as quadrilhas em ação na Revolta da Vacina. Bilac tem o dom da palavra clara, sem esse azedume que tomou conta da literatura brasileira nos últimos tempos, fruto da desconfiança dos autores em relação aos leitores.

Foot notes: Crônica publicada no dia 23 de setembro de 2008, no caderno Variedades do Diário Catarinense.

Published: Sep 30, 2008 - 08:48 AM
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ACROSS THE UNIVERSE: CHEGUE JUNTO

Nada mais é inesquecível, tudo está na mão. A memória era um lugar, hoje é lugar nenhum. Faz parte do consumo. A cena esquecida do filme perdido está no You tube. E o resgate do passado, feito agora, acaba sendo tratado como pão adormecido. É o caso do impressionante Across the Universe, o musical que nasce clássico, lançado em 2007. É tratado como um amontoado de clipes, como diluição das músicas dos Beatles, como "mais do mesmo" dos anos 60, quando não é nada disso. É uma bela obra. Mas ficar impactado com o filme não pega bem. A moda é negligenciar a obra alheia.

Published: Sep 30, 2008 - 08:45 AM
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O CINEMA EM BUSCA DAS ORIGENS

Todo filme é sobre cinema. "Um longo caminho" (2005), dirigido por Yimou Zhang e com Ken Takakura e um elenco de atores amadores, não foge à regra. A morte, nessa obra, é representada pela ausência da indústria audiovisual na vida dos personagens. O velho, que depois de perder a mulher se recolhe a uma aldeia de pescadores, não tem sequer televisão. Sua tela, a natureza, que atrai sua atenção durante horas, é a extrema solidão de um mundo sem cinema. Ele só existe porque está sendo filmado por Yimou, cineasta deslumbrante de vários sucessos.

Published: Sep 20, 2008 - 06:05 PM
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A PROFECIA DA VIDA MANSA

Quando falam que tens futuro, e apontam caminhos para chegar lá, é porque querem conduzir teu destino. Qual é o futuro dos dois jovens de classe média baixa londrina (Colin Farrel e Ian McGregor) no filme de Woody Allen, O sonho de Cassandra (2007)? É o tio milionário Howard (Tom Wilkinson), ídolo da irmã, mãe dos rapazes, que não cansa de usá-lo como modelo contra o marido perdedor, enfartado e dono de restaurante. Na mitologia grega, Cassandra é a a belíssima troiana amaldiçoada por Apolo, que não conseguiu faturá-la e por isso determinou que suas profecias jamais teriam credibilidade.


Published: Sep 20, 2008 - 06:03 PM
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LOURENÇO DIAFÉRIA: A CRÔNICA EM BRANCO

Lourenço Diaféria, que morreu de infarto no dia 16 de setembro de 2008,  é um cronista clássico. Faz parte de uma linhagem criada por escritores como ele, que não vieram do romance ou da poesia, como Machado de Assis ou Olavo Bilac, mas que se dedicaram apenas a esse gênero literário essencialmente brasileiro, nascido no jornalismo pátrio, e que é um reduto tradicional da liberdade de pensamento. Numa reportagem, editorial, cobertura, entrevista, o jornalista sofre muito mais limitações do que o livre-pensar da crônica. Diaféria é da mesma espécie de Rubem Braga, que não precisou voar para outras paragens e fez da crônica seu ganha-pão e sua transcendência. Mas, ironia total, ele foi marcado exatamente por uma crônica em branco, que não existiu, mas foi publicada.

Published: Sep 20, 2008 - 05:57 PM
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A EXPERIÊNCIA

Ele entrou com um gravador na mão e foi logo instalando em cima da minha mesa. Tentei ser gentil, mas o seu jeito de andar, se abaixar e pegar os fios era terrível. Na hora em que alcancei a mão no telefone ele fez um movimento tão brusco para me impedir que acabou caindo em cima do lixo. Não riu, só fez uma careta. Levantou-se, puxou o paletó, sempre com aquela expressão torcida. Estava tentando sorrir, lá da maneira dele, só que eu não pude adivinhar, na hora, o que era. Imediatamente começou a me mostrar.

Foot notes: Conto publicado no final dos anos 70 no jornal Movimento e, em setembro de 2008, no espaço Literário do Comunique-se. Faz parte do meu livro de contos "Mágico deserto", ainda inédito.

Published: Sep 20, 2008 - 05:55 PM
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PEDRA NO REGATO

Pedra lisa, quase transparente, brilha no fundo de um regato, aquela porção de água pura que desce a montanha tecendo a aventura. Mais preciosa que ametista, mais vistosa que pepita, mais valiosa que diamante bruto. Perdida entre tantas, se deposita sem esperança de ser colhida. Tem apenas a beleza exposta no barulho da pequena correnteza, mudando de lugar conforme a chuva, ameaçando despencar na primeira cascata e que se encolhe ao toque quando a descobrimos quase sem querer, numa curva tomada pelo pedregulho.

Foot notes: Crônica publicada no dia 14 de setembro de 2008, na revista Donna DC, do Diário Catarinense.

Published: Sep 14, 2008 - 09:39 AM
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FALSO PACIFISMO

A ascensão do candidato democrata Barak Obama na campanha eleitoral americana coincide, no cinema, com uma série de filmes que pretendem enterrar a era Bush, a tirania gerada a partir do atentado de 11 de setembro de 2001. Existem filmes que se dedicam aos bastidores da mídia e da política, como "Leões e Cordeiros", do militante Robert Redford, uma denúncia do oportunismo alimentando os conflitos fora das fronteiras. Ou "War, Inc.", de Joshua Seftel e roteiro de John Cusack, baseado no livro sobre economia de choque da jornalista canadense Naomi Klein, um escracho contra a manipulação corporativa da guerra do Iraque. Mas o tema mais recorrente é a volta dos bravos rapazes de um front duvidoso para a América arrasada economicamente.

Foot notes: Crônica publicada no dia 9 de setembro de 2008 no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

Published: Sep 09, 2008 - 08:07 PM
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DUELO EM CAMPO ABERTO

A síndrome do atraso empurrou o Brasil para a destruição sistemática dos próprios vestígios. Memória é considerada perda de tempo. É exatamente o contrário: é o tempo gasto, mas com vocação de eternidade. Não significa apenas lembrar, mas reconstituir, resgatar, recompor, revisitar. Jamais reproduzir, já que toda memória obedece à época em que é gerada.

Foot notes: Crônica publicada no dia 2 de setembro de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense

Published: Sep 05, 2008 - 03:49 PM
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EM NOME DO TEMPO

Deveria haver um mandamento para não tomar o nome do tempo em vão. Evitaria um massacre, gerado por vícios como achar que existem pessoas à frente do seu tempo, como se o passado sofresse de um pecado original que não o habilita para o gênio. Ou dizer que o tempo atual é definido pelas celebridades, como se o interesse excessivo por elas passasse um atestado de idiotia ao presente. Ou sustentar que não sobreviveremos a este século, por força do aquecimento global, ou da nova era glacial, dependendo da moda, o que é uma forma de enterrar o futuro, que ficaria assim excluído da esperança, sua velha moeda corrente.

Foot notes: Crônica publicada no dia 19 de agosto de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

Published: Aug 22, 2008 - 09:07 AM
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ESSE ESTRANHO AMOR

O amor à Pátria é o primeiro a ser negado quando nosso representante, no lugar de evitar o gol do adversário, contribui com ele por omissão ou soberba. Quando a reiteração dos crimes compõe a identidade do país que deveríamos amar. Basta o galo cantar uma só vez para trairmos a devoção cívica que deveria nos nortear. No varejo, nos dias que se sucedem sem nenhuma graça, vemos o amor à Pátria escoando pelo ralo. É o Brasil, dizemos, e damos o assunto por encerrado.

Published: Aug 17, 2008 - 09:27 AM
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PESADELO AUTOMOTIVO

Peça de automóvel é como célula: já vem programada para pifar, depende do modelo e da marca. Se os artífices das montadoras são capazes até de inocular cheiros específicos nos estofamentos, para aumentar o poder de sedução na hora da compra, se pesquisam até o barulho da porta quando se fecha para sugerir poder, ou simplesmente carícia para quem ouve, como não iriam decidir o mais importante? Ou seja, o momento exato em que você terá de livrar do seu pé de borracha favorito e desembolsar mais dinheiro, se quiser manter seu status de feliz proprietário de um zero.

Foot notes: Crônica publicada no dia 17 de agosto de 2008, na revista Donna DC, do Diário Catarinense.

Published: Aug 17, 2008 - 09:25 AM
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VIOLÊNCIA PLANEJADA

Qual seria a verdadeira revolução? A paz, que só se consegue com algumas providências. Primeiro: o monopólio do exercício legal da violência por parte das instituições nacionais, sob a guarda da correção e a ética. Segundo: o fim do capitalismo de desastre e a volta da luta em favor do equilíbrio social. E terceiro: a língua comum afiada na criatividade, no conhecimento e na experiência.

Foot notes: Crônica publicada no dia 12 de agosto de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

Published: Aug 15, 2008 - 11:24 PM
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CENAS DE UMA TRILOGIA

Quem lê Máximo Gorki, não precisa ler mais nada. Algumas cenas nos deslumbram pela contundência, pela precisão dos detalhes, pelo fragor da narrativa, pela atualidade. Fellini deve ter lido, pois a literatura de Gorki revela que estamos cercados pelo surrealismo, que a realidade é hiper-real, que os seres humanos são um mural de exceções, o que chamariam hoje de diversidade.

Foot notes: Resenha publicada no dia 9 de agosto de 2008, nas páginas centrais do caderno Cultura, do Diário Catarinense.

Published: Aug 10, 2008 - 04:17 PM
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DOMINÓ DE ASSOMBROS

É mansa essa passagem entre dois eixos, o firme estanho do sol e a morna geléia que anuncia a noite. Ainda é cedo, mas a coruja antevê o sereno. Monstros abrem o olho. Estrelas invisíveis fervem no cinza azulado e aguardam o breu para tocaiar o sonho. Tudo está atento como na véspera do Juízo. Ninguém dorme a sesta de escombros. Há um despertar de açoites, corações incertos, algas que se soltam da cabeça. O acordo era andar, mas há uma pré-estréia de sonâmbulos. Câmaras de silêncios, cavernas de molejos, êxodo de mântras.

Foot notes: Crônica publicada no dia 29 de julho de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

Published: Jul 29, 2008 - 10:47 AM
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DITADURA INFORMAL

Assim como existe uma economia informal, há também um regime político por baixo do pano. Os dois sistemas se parecem, e se alimentam mutuamente. São realidades que colocam em fila, como nos pesadelos da série Matrix, toda a população conectada diretamente aos sanguessugas, enquanto vivemos um mundo de aparências, formatado pelo bombardeio pesado da nossa percepção. Isso parece uma excrescência conceitual e teórica, pois é difícil acreditar que todo o aparato legal, tão reiterado pela correção e a ética, seja apenas a fachada de um esquema perverso, que permanece oculto e ao mesmo tempo presente.

Foot notes: Crônica publicada no dia 22 de julho de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

Published: Jul 29, 2008 - 10:45 AM
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NOS BRAÇOS DO PAI

Nada se pode dizer diante do heroísmo do filho, o amor e a determinação do pai, a grandeza da briga por se manter vivo, a dor incomensurável da perda, a falta de recursos num lugar que deveria sobrar em tudo. Nada se pode dizer diante da mãe que viu seu filho sumir para sempre e testemunhar a insistência do marido, que jamais perdoou o destino e nunca se deu por vencido. Não se conformou e isso quase salvou a vida do seu filho. Foi por pouco, Edílson, foi por pouco, Socorro, foi por pouco, Jonathan.

Foot notes: Crônica publicada no dia 20 de julho de 2008 no caderno Donna DC, do Diário Catarinense.

Published: Jul 20, 2008 - 08:59 AM
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DIAMANTES DO ACASO

O que ficava no fundo, veio à tona. O que era oculto, foi decifrado. Quem estava escondido, deixou de ser tímido. Quem guardava um tesouro, embriagou-se. Quem estocava palavras, desandou. Não há mais segredos, embora persistam os mistérios. O mundo é um enorme divã, mas a angústia permanece. A pobreza de espírito implantada impede que se formem feixes de luz, ambientes habitáveis, grandezas. Há um espalhar de ruínas. Os ventos sopram, invariavelmente, restos de uma estranha ferocidade.  

Published: Jul 18, 2008 - 09:38 PM
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