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O DESTINO É COMO AS DUNAS
O destino é como as dunas: define a paisagem humana, mas pode mudar de
lugar. Composto de areia e vento, ele migra e nessa viagem, às vezes,
aproveita a chance de desaparecer. O tenente inglês T. E. Lawrence
tinha o destino marcado: era filho bastardo de um nobre e por isso não
estava em condições de subir na pirâmide social . Era também um
intelectual franzino, não tinha como se impor na carreira militar,
ainda mais em época de guerra. Mas ele guardava um trunfo: era inglês,
portanto fazia parte desse tipo de gente que saía para torrar ao sol do
meio-dia, junto com os cachorros loucos, como definiu Noel Coward em
inesquecível canção que virou hino patriótico. David Lean, o mestre que
foi formado na equipe do compositor, dramaturgo, poeta e cineasta
Coward, interessou-se por esse perfil do tenentinho marginal que
enfrentou o destino. O resultado é Lawrence da Arábia, o melhor e maior filme de todos os tempos, a obra magistral até hoje não foi superada por nada nem ninguém.
Published: Jul 15, 2005 - 11:12 AM
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OS OMBROS EM DENIS HOPPER
Denis Hopper é um transgressor que não mexe os ombros. Ele vive com os braços colados ao corpo, imobilizados por hábito, charme, mania, doença congênita ou simplesmente cordas. Com os ombros duros e braços caídos, Hopper assume a fala que brota de um rosto de pedra. O assustador Veludo Azul nos dá o modelo: aquela caratonha facinorosa do traficante torturador é mais do que uma interpretação, é uma vocação, que envolve Hopper mesmo à sua revelia.
Published: Jul 05, 2005 - 11:06 AM
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A COMPAIXÃO EM ANSELMO DUARTE
A cena que vai levar Anselmo Duarte para o céu do cinema é a da
procissão, em que há identificação entre os rostos da imagem de Santa
Bárbara/Iansã e do Zé do Burro/Leonardo Villar. O movimento nos degraus
é a cidadania desamparada que ascende pela espiritualidade, única porta
de acesso à justiça. Essa subida, feita ao sabor das ondas do andar, e
que ajusta a sintonia entre as duas expressões, é o momento supremo
deste filme maior que é O Pagador de Promessas.
Published: Jul 05, 2005 - 11:01 AM
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WIM WENDERS, O VÔO DO FLÂNEUR
Os anjos de Wim Wenders, testemunhas da pequenez e da imensidão das
criaturas que contemplam, expressam-se, como Baudelaire, pelo poético
(a nostalgia da linguagem antes da demolição mercantil do discurso) e
mapeiam as situações que envolvem os seres que estão sob os seus
cuidados. Mas se o flâneur histórico (inaugurador da modernidade) é
ruptura diante do capitalismo nascente, e uma tentativa de resgate da
harmonia perdida, os anjos da pós-modernidade são o sofrido olhar
diante da decadência urbana, desse desmaio abissal que é Berlim
reconduzida à unidade depois da guerra que a cortou ao meio.
Published: Jun 16, 2005 - 08:27 PM
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KUROSAWA, VIVER NO APOCALIPSE
Akira Kurosawa não precisou imaginar o fim do mundo. Foi testemunha da
tragédia quando, levado pelo irmão, viu no que se transformou Hiroxima
depois da bomba. O Apocalipse não é, portanto, uma profecia que vai se
cumprir, mas o território que ele precisou palmilhar e enxergou de
perto, não só como o Outro que vê, mas como o próprio que é calcinado
junto com seus semelhantes. Kurosawa é a solidão do cinema diante da
maldição. Nós, os espectadores, somos os improváveis sobreviventes da
catástrofe que ele revela. Foi assim que morremos, nos diz ele, e foi
assim que enxerguei a vida enquanto o mundo se despedia.
Published: Jun 14, 2005 - 08:28 PM
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AL PACINO, A ENCARNAÇÃO DO PODER SEM ROSTO
O maior ator do mundo, entre os vivos, encarna sempre algum poder oculto. O relações públicas que inventa eventos e carreiras, o produtor do programa de TV 60 Minutos que peita a poderosa indústria do tabaco, o mafioso que quer lavar sua fortuna, o migrante que pela violência tenta impor-se dentro do império, o advogado de porta de cadeia que enfrenta a corrupção dos juízes etc. Há uma coerência nessa carreira mais do que brilhante, nessa iluminação que nos seduz pelo carisma, o talento, a técnica, a performance ou simplesmente pela presença na tela.
Published: Jun 04, 2005 - 05:02 PM
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TENSÃO NARRATIVA NO ABISMO
De que trata o roteiro de Cliffhanger (ou Risco Total), de Renny
Harlin, roteiro de Michael France, de 1993, com Sylvester Stallone,
John Lithgow, Michael Rooker e Janine Turner? Da segunda chance, o tema
recorrente do cinema americano e favorito de Stallone (basta ver as
séries Rambo e Rocky). O cenário são um microcosmo da América hostil,
as Montanhas Rochosas geladas e sob intensa tempestade.
Published: Jun 01, 2005 - 09:05 PM
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A PRINCESA PEDE SOCORRO
The Biographer: The Secret Life of Princess Diana, é um filme da
TV americana sobre o ofício do escritor e não apenas mais uma baboseira
sobre a família real. O drama, lançado em 2002, gira em torno da
relação entre o biógrafo Andrew Morton e a prisioneira que em vão
tentou escapar da armadilha.
Published: Jun 01, 2005 - 08:55 PM
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MONSTROS E CAVALEIROS
Há dois tipos de atores. Os monstros, como Othon Bastos, Marlon Brando
e Miguel Ramos, que se transformam em criaturas assustadoras, como,
respectivamente, Corisco, o Coronel Kurz ou o vilão correntino do novo
filme de Beto Souza, Cerro do Jarau (interpretação
premiada recentemente em Recife) . E os cavaleiros, os que jamais
deixam de ser o que são, mas nos convencem ao montar em personagens
inesquecíveis.
Published: May 31, 2005 - 10:27 AM
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O SERÃO DE BRÁS CUBAS
O filme de André Klotzel baseado em Machado de Assis transforma as
memórias póstumas do anti-herói numa sessão de slides, num álbum de
fotografias, narrado por um anfitrião brechtiano, que desdramatiza a
própria vida pela técnica do distanciamento, usada de maneira
igualmente magistral em outro clássico do cinema brasileiro, Os Inconfidentes, de Joaquim Pedro de Andrade.
Published: May 30, 2005 - 09:55 PM
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TOM HANKS E O MITO FUNDADOR
Náufrago, filme de Robert Zemeckis, com Tom Hanks no papel
principal, revisita um texto fundador da literatura de língua inglesa,
"A vida e as estranhas e supreendentes aventuras de Robison Crusoe".
Publicado por Daniel Dafoe em 1719, o livro teve ainda duas
continuações e é baseado nas experiências de Alexander Selkirk, que em
1704 fugiu e foi parar numa ilha deserta, de onde foi resgatado cinco
anos depois.
Published: May 30, 2005 - 09:50 PM
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OTHON BASTOS, A GANA QUE ATIRA
Ele tornou-se insuperável e sua gana é a metralhadora que gira na
nossa cabeça durante e depois de cada filme. Seu trabalho parece ser
apenas talento, mas no fundo é missão e destino.
Published: May 30, 2005 - 09:28 PM
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O JURAMENTO
O título do terceiro filme de Sean Penn foi traduzido para A Promessa, mas o mais adequado é O Juramento.
O detetive interpretado por Jack Nicholson jura pela salvação da sua
alma que vai encontrar o assassino de uma menina. A mãe o obriga a isso
colocando nos seus olhos a cruz feita pela vítima. O juramento é a
garantia de que uma possibilidade, a justa punição, seja concretizada.
Published: May 30, 2005 - 09:16 PM
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HATARI, A NARRATIVA DE CRISTAL
A captura de animais selvagens na África é uma frase que nada diz sobre Hatari!,
de Howard Hawks. É algo diverso. É a composição musical de uma saga, em
que o alvo (o animal que precisa ser agarrado para o zoológico) impõe o
ritmo e o perfil da narrativa.
Published: May 27, 2005 - 07:36 PM
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CAPRA, AS REVELAÇÕES DO REMORSO
Não há, no cinema americano, seqüência mais sinistra do que a visita
que Stewart faz à sua não-vida, às conseqüências da sua vontade de
jamais ter nascido. É muito semelhante à história de Dickens, em que o
velho avarento é levado por um espírito para visitar momentos
importantes da sua vida, em que ele vê o Mal que encarnou em sucessivas
manifestações de egoísmo e crueldade (roteiro filmado mil vezes).
Published: May 26, 2005 - 10:05 AM
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QUANDO A COMÉDIA CEDE AO DRAMA
Comédia é uma situação em que o excluído tenta fazer parte dela e, como
não consegue, acaba destruindo o cenário. O que era para ser uma
celebração, uma festa de aniversário ou casamento, vira guerra de bolos
e tortas, graças à intervenção de um desastrado, de um outsider. No
fundo é drama: quem está por fora sofre para ser visto como um membro
do clube, mas sempre será o estranho, o freak, o bobo.
Published: May 26, 2005 - 09:58 AM
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OS ESPAÇOS FATIADOS
O ator move a cabeça lateralmente em ângulos bem determinados. Assim ele pode fatiar o espaço em vários pedaços de percepção. O que pretensamente enxerga em cada movimento é um compartimento à parte, que pode sugerir espanto, dúvida, entendimento.
Published: May 25, 2005 - 05:24 PM
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O SUFOCO DO OLHAR
Sofia Coppola, em Encontros e desencontros (Lost in translation), mostra como o loteamento do olhar (em Tóquio, onde ela filmou, todos os espaços da percepção estão tomados) pode significar o momento de impasse na vida dos personagens envolvidos. A maldição do olhar viciado nas imagens comercializadas é reproduzir eternamente o imaginário do Mesmo. O truque é carregar nas cores, nos movimentos de luz, nas trucagens, para dar a falsa impressão de diversidade.
Published: May 25, 2005 - 03:04 PM
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PAULO JOSÉ DIANTE DO ALVO
Paulo José está desesperado na obra-prima Todas as Mulheres do Mundo,
de Domingos de Oliveira. É solteiro e entra em parafuso com o excesso
de oferta de uma civilização que optou pelo lazer, o Rio de Janeiro dos
anos 60. Onde é a festa sábado? grita, bêbado, no bar cheio de
mulheres e falsos amigos. Até que de repente...
Published: May 23, 2005 - 10:49 PM
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O FILME PERFEITO
"Chuvas de Verão" (1977), de Cacá Diegues, continua sendo uma
obra-prima do cinema nacional. Em cada cena de clássico acabamento,
numa trama de grande complexidade e transparência, vemos neste filme
maravilhoso quem realmente somos e aprendemos a admirar nossa
capacidade de alcançar o mais alto nível da criação cultural. Com essa
revelação, resgatamos o país mergulhado dentro de nós.
Published: May 23, 2005 - 10:42 PM
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A DESPEDIDA EM CASABLANCA
A última cena de Casablanca não é um desfile de chapéus de um melodrama
barato, como querem as imitações, as clonagens e as homenagens feitas
depois que o filme tornou-se um clássico.
Published: May 22, 2005 - 05:36 PM
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BUÑUEL, A CULPA SOB TORTURA
Buñuel é o presídio da culpa, onde o prisioneiro cumpre pena perpétua.
Como não há esperança de libertação, o encarcerado decide virar
torturador. Quem sabe ocupando o lugar do algoz haverá uma chance de
escapar? O truque é fazer com que a culpa sob tortura enfim revele sua
insignificância, e negue sua justificativa de existir.
Published: May 22, 2005 - 05:31 PM
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VIDAS SECAS: O HUMANO COMO ÚLTIMA GOTA
Não há país em Vidas Secas, há o inferno. O clima e a geografia
aliam-se à opressão econômica para expulsar a família que busca a
sobrevivência na fuga. O último degrau a que desce o grupo humano é
representado pelo sacrifício dos animais domésticos. Nada mais existe
abaixo das pessoas. Elas são a última gota do deserto que não leva a
nada.
Published: May 22, 2005 - 05:18 PM
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OS RASTREADORES, DE JOHN FORD
Não escrevo sobre cinema, escrevo sobre o que cinema faz comigo. No centro do colar de obras-primas, alguns filmes compõem uma espécie de Capela Sistina. Os Rastreadores (The Searchers, ou Rastros de Ódio), de John Ford, é um deles. O plano mais copiado de toda a história é a de Ethan (John Wayne) saindo pelo deserto afora, trôpego, com os pés para dentro, com aquele caminhar que ele construiu, mas em ruínas, afastando-se da câmara, que o filma de costas, emoldurado por duas tarjas pretas laterais. Essa dupla escuridão funciona como guardas para a luminosidade dolorosa que se descortina ao fundo.
Published: May 22, 2005 - 05:07 PM
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O CÍRCULO DE GIZ DA AMÉRICA
O cinema é a prisão do imaginário americano. Melhor: é o reflexo, ou
subproduto, da percepção fechada sobre a própria fronteira mental, que
é muito mais sólida e perene do que a fronteira física pois, ao
contrário desta, trabalha com a inclusão para que tudo permaneça
inalterado.
Published: May 22, 2005 - 01:52 PM
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