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DUAS VEZES LINA BO BARDI

Das celebridades que conheci, ou pelo menos com quem tive a oportunidade de conversar na minha longa vida dedicada às palavras, algumas eram muito inteligentes, mas havia uma só que era gênio. O nome dela é Lina Bo Bardi.

Published: Mar 27, 2007 - 08:10 PM
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LABIRINTO EM DESTERRO

Talvez seja eu o fantasma que procura algo que não consegue mais achar. Visito um lugar que nem no passado mais se encontra, mas existe nessa realidade simultânea, nesse momento único de que é feito o universo de todas as eras. Sou levado pela minha providencial falta de orientação e de memória urbana. Sou o visitante sem rosto diante da identidade perdida de antigos e novos moradores. Sou o migrante com a percepção avariada que se defronta com o enigma da cidade que se recusa a desaparecer totalmente.

Published: Mar 08, 2007 - 04:35 PM
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EM TORNO DE VÉSPER

Onde está Vésper depois que anoitece? Na corte da lua cheia, sem dúvida, onde divide posições de semeaduras. De lá ela providencia marés e chuvas, e talvez, glória suprema, mais um dia perfeito desenhado na prancha grávida de futuros. Ela fecha o ciclo do dia onde encontramos paz e promete a manhã seguinte com seu carimbo de sonhos.

Published: Feb 07, 2007 - 02:21 PM
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O ACASO NÃO FAZ UM ANJO

O sol, antes de despertar totalmente, conversa com um anjo e as aves escutam. Estavam assim todos - céu, nuvem, sol, plumas - ao redor dos segredos trocados em miúdos, pelo gigante antes de lançar-se ao alto, e o anjo, especialista em amanhecer. Há demora na interlocução que começara quando eu ainda imaginava ser infinita a noite, naqueles minutos que antecederam o milagre.

Published: Jan 27, 2007 - 09:54 PM
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A CEIA DE TIA SARINHA

Tia Sarinha apresentava-se solitária, com a aura dos espíritos independentes. Sua vida pessoal era um segredo bem guardado para nós, sobrinhos menores que não compartilhávamos jamais qualquer detalhe do mundo adulto. Nunca soube quase nada dela. Foi casada, separou-se ou enviuvou, depois morava só ou com amigas fiéis. Reservada, tinha um relacionamento distante, quase frio, com a criançada que via de vez em quando. Mas toda essa carapuça caía por terra quando, depois do vinho, da cerveja e até mesmo do uísque, ela se punha a matraquear a fala recorrente nas ceias de Natal.

Published: Jan 07, 2007 - 01:17 PM
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UM CORREDOR DE BRINQUEDOS

Os brinquedos só eram distribuídos na madrugada, quando estávamos dormindo. Não havia essa facilidade de ser presenteado ainda na véspera. O importante era esperar o dia 25 que, se fosse domingo, era totalmente perfeito. Levantávamos com o coração na mão e víamos os pacotes embaixo da imensa árvore enfeitada.

Published: Dec 13, 2006 - 05:12 PM
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A INFÂNCIA É UMA CATEDRAL

O espírito humano é dialético e aspira à grandeza. A mediocridade, a idiotia, a bizarrice, a idéia fixa, são o Mal que nos persegue. Mas temos um estandarte e um coração de ouro. De mãos postas, com uma fita enorme no braço, toda com apliques dourados, carregando uma imensa vela, pé ante pé chegamos ao sacrário. É quando tocamos a veste dos anjos.

Published: Nov 24, 2006 - 09:30 AM
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UM ESTRANHO BATIZADO

O que fazer quando o padrinho está proibido de levar o garoto para a pia batismal? Lá na fronteira, o impasse foi prontamente solucionado. A pessoa convidada para ser meu padrinho, ao receber o convite bem na frente do galpão que existe até hoje atrás da casa da esquina que era nossa, concordou com tudo. E jamais foi me batizar, apesar de, a partir dali, se tornar um dos compadres do meu pai. Ele nunca iria desobedecer o amigo, nem recusar o convite. Assim é a têmpera dos homens da fronteira: palavra dada, palavra cumprida.

Published: Nov 08, 2006 - 05:10 PM
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O BARCO SOBRE A MONTANHA

Se a base iluminada imitava o barco, que não se decidia se lambia as ondas ou não, o resto da esfera se mostrava impassível, satisfeita talvez com seu aspecto de breu contornado por leve fio de seda brilhante, que fazia uma perfeita bainha curva em forma de coroa. Era, essa parte escura, como a vela do barco a desprezar o vento, já que se mantinha pela majestade do que imaginava ser.

Published: Sep 30, 2006 - 11:56 AM
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ETERNO PRESENTE

Quando não há amanhã, o agora substitui toda espécie de vivência. Isso é incentivado pela literatura de auto-ajuda, religiosa e corporativa. Como a mulher de Lot, você está proibido de olhar para o passado sob pena de se imobilizar para sempre no gesto catatônico que fez sua ruína. Quando a educação é substituída pelo sistema mal assimilado dos Estados Unidos, em que o pragmatismo vence a formação humanista (expulsão do inglês, francês e latim obrigatórios no ginásio, que também sumiu), e o rigor do ensino é vencido pelo falso protecionismo, então temos essa preciosidade confundida com linguagem popular que é o já clássico "nós vai". (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, em 15 de setembro de 2006).

Published: Sep 15, 2006 - 09:11 AM
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LÁ NO FUNDO

O último assento é escolhido por uma questão de estratégia. De lá é possível ter visão completa do recinto, seja sala de aula ou ônibus. É possível monitorar o movimento de todos, que estão de costas, portanto não enxergam o que se passa atrás. É uma espécie de anonimato que dá uma série de vantagens, como atingir nucas com projéteis variados, saber o que fazem quando acham que ninguém está olhando e até dormir sem que desconfiem de nada. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, em 14 de setembro de 2006).

Published: Sep 15, 2006 - 09:09 AM
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LIVRO CÚMPLICE

O livro é cúmplice quando revela o que ninguém sabe. A narrativa nos empolga porque, acreditamos, somos testemunhas de segredos só a nós revelados. É como um tesouro escondido, do qual possuímos a exclusividade do mapa. O autor dormia em seu anonimato de papel antigo até que fôssemos lá abrir uma fresta na sua solidão e degredo. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, em 13 de stembro de 2006)

Published: Sep 15, 2006 - 09:07 AM
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CASTELO DE VIDRO

Bastou entrar para não enxergar mais a portaria que me franqueara a invasão. O labirinto tinha sido feito de propósito. Uma vez aceito no ambiente climatizado, pontuado por seguranças, voltar para a rua vira uma idéia absurda. A não ser que houvesse uma insurreição, a quebra de alguns vidros ou todo mundo se atirasse do quinto andar, que é o segundo do estacionamento, ou do quarto andar, que é o primeiro. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, em 12 de setembro de 2006).

Published: Sep 15, 2006 - 09:05 AM
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NATUREZA SOLENE

A relação com a natureza deve ser solene, longe dos sentimentos descartáveis, do uso fundado em superficialidades, dos gestos vazios, dos olhares cômicos. Toda paisagem é ancestral e nos remete a verdades como a eternidade ou a morte. Por estarmos num planeta que vaga pelo céu, por força de muitos mistérios, ficamos amedrontados com o que nos dizem as estações, as catástrofes, os eclipses, as estrelas, o mar, a montanha. (Crônica publicada no caderno Variedades de hoje do Diário Catarinense, em 11 de Setembro de 2006).

Published: Sep 15, 2006 - 09:03 AM
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VIAGEM NO BARRO

A paciência do capitão da jornada se esgotava cada vez que vislumbrava minha falta de atenção a coisas básicas como amarrar um pneu com argolas de ferro para que o barro cedesse ao acelerador. Mas finalmente o sol levantou-se quando cruzamos a fronteira com Santa Catarina, na única vez em que passei pelo oeste do Estado, que me apareceu encantador, principalmente depois de toda aquela chuva. Mas o clima se vingou ao chegarmos no Paraná. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, em 9 de Setembro de 2006).

Published: Sep 15, 2006 - 09:01 AM
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SOPA DE INVERNO

Por algum motivo, nasci sem resistência para o Inverno, o que contrariava a linhagem familiar devotada à caça e à pesca em paisagens geladas. Houve até algum esforço do meu pai em me colocar de frente com os rigores de julho, para me fazer ver que eu poderia resistir a qualquer catástrofe do clima. Ensinava que o acampamento precisava estar bem fornido de lãs e que os sapatos deveriam ficar embaixo de tudo, para que o sereno tenebroso não os encharcasse. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, em 8 de Setembro de 2006).

Published: Sep 15, 2006 - 08:58 AM
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LER COM PRAZER

Quando chega a hora do recreio, se a aula foi lúdica, o que o aluno deverá fazer? As novas gerações, como todas as outras, têm fome de sobriedade, de seriedade, de responsabilidade. Não se deve tirar de quem aprende o privilégio de percorrer um caminho difícil até o conhecimento. Partir para a brincadeira, achando que isso vai resolver, é desistir da luta. (Crônica publicada dia 6 de setembro de 2006 no caderno Variedades, do Diário Catarinense).

Published: Sep 08, 2006 - 10:24 PM
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LUGAR PARA MORAR

Ter um canto nem sempre significa teto, cama, criado-mudo, escrivaninha, TV. Pode ser que morar seja um verbo mais amplo e se refira à atual fase da oferta excessiva de informações, onde nos sentimos desprotegidos e procuramos um lugar onde descansar as retinas. (Crônica publicada dia 5 de setembro de 2006 no caderno Variedades do Diário Catarinense).

Published: Sep 08, 2006 - 10:21 PM
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TEMPOS INFALÍVEIS

A verdade é que somos criaturas zeradas a cada geração. Não nascemos com a teoria da relatividade fazendo estrepolias no nosso cérebro de nenéns. Temos que aprender a comer, falar, andar. O cálculo infinitesimal é uma conquista árdua, assim como a noção mais ou menos exata de como funciona um computador. Não recebemos de bandeja o que os antepassados, pobres figuras, levaram mais de uma vida para criar. Precisamos percorrer o mesmo caminho, já que toda geração parte do nada até chegar ao seu esplendor. (Crônica publicada dia 4 de setembro de 2006 no caderno Variedades, do Diário Catarinense).

Published: Sep 04, 2006 - 08:11 PM
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TESOURO PESSOAL

Na identidade pessoal, formatada pela experiência e as leituras, reside o que há de mais importante nesta época de informação de massa, de cultura manipulada, de leituras apressadas, de excesso de exposição, de total interferência nos territórios de sobrevivência nacionais por parte de forças explícitas, armadas ou imaginárias. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, no dia 2 de setembro de 2006).

Published: Sep 04, 2006 - 08:09 PM
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A VOLTA DA FÁBULA

Sob a capa científica, os documentários costumam nos apresentar os animais engessados em comportamentos já conhecidos. Neles, os bichos jamais brincam, eles estão apenas treinando para a vida adulta. Se fazem algum exibicionismo com suas penas e bicos, é para perpetuar a espécie. Toda manifestação de inteligência é forçosamente colocada no território lúgubre do instinto. (Crônica publicada dia 1º de setembro de 2006, no caderno Variedades do Diário Catarinense).

Published: Sep 01, 2006 - 07:14 PM
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REALIDADE ENCANTADA

Uma das minhas alegrias no longo período em que vivi em São Paulo era visitar os sebos perto das Arcadas, a Faculdade de Direito, no centro da cidade. Livrarias antigas com vários andares de obras perdidas faziam a festa da minha curiosidade. Aos poucos, fui perseguindo aqueles livros de uma só edição que deixaram de ter importância e que estavam à mercê das traças. As preciosidades forneciam a cola onde grudava acontecimentos conhecidos, que na superfície não faziam muito sentido, mas lá no fundo da estante ou da gaveta guardavam a chave de muitos enigmas. (Este texto foi publicado dia 31/agosto/2006 no caderno Variedades, do Diário Catarinense).

Published: Aug 31, 2006 - 05:37 PM
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LUZ DE INVERNO

Seria uma injustiça ao Inverno depositar nele toda nossa dor. Por isso lembro as manhãs de nevoeiro e geada, quando, à espera do sol, resgatamos o amor que salva, o sonho que jamais nos abandona e a força que carregamos não como um fardo, mas como sopro sobre a vela desta viagem que é pura convocação da divindade. Talvez, calados, aguardemos um milagre. Mas não será a palavra, habitada e livre, que irá nos redimir antes que seja tarde? (Crônica publicada no caderno Donna DC, do Diário Catarinense, em 13/agosto/2006).

Published: Aug 16, 2006 - 09:01 AM
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PASSO MIÚDO

Febrônio mantinha-se bem vestido dentro de casa e aguardava a chaleira chiar para fazer seu café. Depois, sentava no banco favorito a esperar as aves. O barulhão dos motores na avenida próxima, os gritos dos adolescentes armados, a serra elétrica em alguma construção próxima, tudo o rodeava nesse final de tarde, quando suspirava por uma boa conversa. Sim, ele estava velho. Sim, queria conversar sobre a morte. Não, não queria se iludir com a melhor idade.

Published: Jul 13, 2006 - 09:28 AM
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ÍRIO E OS ANIMAIS

Ela deu um passo para frente e abordou Írio, que já estava há uns vinte minutos esperando a condução para levá-lo a uma unidade do Juizado dos Menores. Era seu dia de plantão. Não costumava chamar a atenção de ninguém, pois tinha o um tipo comum daquelas bandas:alto, curvado, magro, com um loiro de trigo bem clarinho no cabelo cortado, sempre despenteado. Exibia um topete que era mais efeito do vento do que do espelho. Estranhou, por ser invisível, a aproximação da mulher, que o cumprimentou com cerimônia e batendo duro com o salto alto do sapato preto.
- O senhor é o Írio, que trabalha com os menores, não é?

Published: Jul 06, 2006 - 10:18 PM
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