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AINDA TEMOS A TERRA
É fim de verão e o outono, velho tio encapotado que visita a família
sempre que pode, já envia telegramas pelos pássaros ariscos, desses
modernos, que não confiam mais em quintais. Perdemos o principal neste
longo tempo duro, que é o de ficar confinado em paredes de um domicílio
mutante, mas sempre o mesmo, que nos afasta do que temos de melhor.
Sorte de quem vive cercado pela abóbada que faz um estádio de luz azul
sobre seu teto e pode pisar a grama ainda molhada de orvalho, o sangue
tardio da noite que se foi.
Published: Mar 25, 2006 - 10:19 PM
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OMBROS DIURNOS DA LUA
A Lua flutua na manhã com sua túnica transparente caindo pelos ombros.
É uma roupa formada pela neblina que o excesso de luz bordou ao redor,
talvez para cobri-la diante do escândalo de aparecer assim, quando as
estrelas já se despediram e o forro de veludo da noite sumiu de vista.
Ela está acordada por algum motivo e pousa no algodão do ar com o rosto
quase impassível. Noto que está transfigurada no céu sem nuvens. (Crônica publicada no caderno Dona DC, do Diário Catarinense, no dia 26/02/2006)
Published: Feb 26, 2006 - 08:30 AM
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QUANDO FALTA LUZ
A cidade fica toda escura e a casa é invadida por mãos cegas em
busca de fósforos. onde coloquei a vela? é a pergunta mais comum. Custa
um pouco colocar ordem no mundo desconhecido que se instala com a
escuridão completa que chega até o horizonte. Longe, atrás do monte, um
clarão se vislumbra; mas para lá não fica o mar, o pampa? De onde vem a
luminosidade? Será a esperança que se recolhe numa distância prudente,
esperando que nós, os eternos pessimistas, possamos recuperar o que
perdemos subitamente?
Published: Feb 24, 2006 - 09:50 AM
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SENTINELAS DO REINO
O Verão cumpriu todas as promessas. Torrou de azul o dia interminável.
Lavou o corpo seco jogado fora pelo longo Inverno. Bordou de rendas a
água clara das manhãs e a tintura anil do entardecer tranqüilo. A lua
cheia compareceu para iluminar o noturno pio dos nossos sonhos. Quem
poderá queixar-se desta temporada que chegou ao esplendor? (Crônica publicada no caderno Donna DC, do Diário Catarinense, no dia 29/01/2006).
Published: Jan 30, 2006 - 09:58 AM
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BUMBA MEU BOI DE MAMÃO
Estávamos perdidos, meu boi. Estávamos certos de que nada mais poderia nos atingir. Fomos testemunhas de ondas gigantes, massacres de todos os tipos, crueldades sem fim. Olhávamos o mundo já sem emoção, a não ser aquela preparada pelos narradores emplumados, investidos de bezerros de ouro. Mas eis que você morre e ressuscita na minha frente e desata essas figuras que deveriam já estar enterradas. Mas elas estão mais vivas do que em qualquer outro final de ano. (Crônica publicada dia 31/12/2005 no caderno Donna DC, do Diário Catarinense).
Published: Jan 01, 2006 - 02:16 PM
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O PUXÃO DA PRIMAVERA
Fico em frente ao passo do pássaro praiano. Ele tem aquele movimento
que parece ser monitorado por flashes, com as pernas andando para todos
os lados enquanto o bico enxerga o que jamais veremos. A cabeça gira e
seus olhos não se importam comigo. O que chama a atenção da criatura é
uma sombra, vizinha ao sol que tenta grudar na praia, mas é empurrado
pelo vento. O brilho intenso na areia é a manifestação de um deus
desconhecido.
Published: Nov 17, 2005 - 10:56 PM
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O VENDEDOR DE MORANGOS
Nossa colega estava surtada porque não conseguira explicar direito o
objetivo do seu projeto. Sabíamos só que o troço agregava valor. Ou
tinha algo a ver com qualidade de vida e meio ambiente. Parece que o
importante era a transparência e não sei mais o quê. Concordávamos com
ela, apesar de não entendermos patavina, só pelo alívio que poderia
gerar nosso assentimento diante do seu nervosismo. (Crônica pubicada dia 6/11/2005 no caderno Donna, do Diário Catarinense)
Published: Nov 07, 2005 - 08:59 PM
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LUA, VÉSPERA DE PRAIA
Não há crédito, há nação de menos, há medo demais. Desfilamos diante do
nada como cidadãos sem rosto. Mas há poesia quando a criança se
deslumbra com o vôo das gaivotas. Há o poema, que vem em socorro do que
perdemos. Há livros que chegam, companheiros de uma viagem absurda.
Algumas mensagens, sinais de vida longa, que jamais se cumpre. Quem
somos nós, criaturas que Deus acolhe em seu regaço e atende súplicas e
preces para continuar o caminho?
Published: Oct 24, 2005 - 09:23 PM
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VENTOS DEMAIS
Somos agora retirantes desse sopro que nos acossa por todos os lados. Migramos da surpresa para a fuga e enquanto corremos vemos voando, ao nosso lado, tudo o que estava quieto e sereno. Os peixes se atiram sobre as planícies. As montanhas descem suas lavas de detritos. As cidades viram monturos. A vaidade humana descobre que os ventos, aliados das descobertas, voltaram enlouquecidos por um pânico ainda indecifrável. Talvez eles tenham cansado de nos mimar com seus balanços. E agora nos atormentam para que enfim possamos acordar. (Crônica publicada domingo, dia 11/9/2005 no caderno Donna, do Diário Catarinense).
Published: Sep 11, 2005 - 07:10 AM
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O SEGUNDO INVERNO
O Inverno voltou e me trouxe o início de um resgate: o hábito de conviver com o frio que chega com vento, o gelo que acumula casacos nas paradas de ônibus, as mãos que se esfregam, os rostos vermelhos, as frestas escondidas, as manhãs e noites geladas. Ainda é só o começo, mas agradeço que desta vez ele tenha chegado na hora datada, pois no ano passado o frio deu as caras em maio e só saiu lá por dezembro. (Crônica publicada dia 17/julho/2005 no caderno Donna, do Diário Catarinense).
Published: Jul 18, 2005 - 02:52 PM
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O COTOVELO DE VIDRO
A casa era pequena, mas bem planejada por um oficial da Marinha. Os
ventos podiam fazer escândalo na vizinhança, mas nossas portas não
batiam. Copa e cozinha eram a mesma peça, e a sala um cotovelo todo
ajanelado que dava para a praia de São José, cidade grudada a
Florianópolis. Lá mergulhei mais uma vez na literatura.A revelação
maior foi deixar que cada personagem mostrasse a integridade específica
de vidas diferentes da minha.
Published: Jun 12, 2005 - 02:42 PM
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ANDAR É SER OBSERVADO
Atrair a atenção alheia é fazer a criatura andar. O passo do terror é
conhecido: pé ante pé, pesado, fazendo o tronco acompanhar o esforço de
maneira tacanha. O passo do medo costuma ser obviamente trêmulo, ou
trôpego. A comédia usa o andar para compor o riso na cabeça da platéia.
Buster Keaton é duro, com pernas e quadris em movimento burocrático.
Chaplin usa o excesso dos sapatos para inventar o andar do palhaço
distorcido pelas luzes do circo.
Published: Jun 03, 2005 - 11:27 PM
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VISITA AO PLANETA TERRA
Traços de nuvens um pouco roxas, montanhas verdes, mar calmo apesar do
frio, ar por onde entra a memória, de tão puro. Quando foi que
perdemos a pista daquele território que o caos urbano engoliu? (Crônica publicada no caderno Donna, do Diário Catarinense, no dia 14/08/05). do Di�rio Catarinense, no dia 14/08/05).
Published: Jun 03, 2005 - 09:33 AM
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GARRAFA NO CONVÉS
Tirei a máscara e descobri quem eu era: o capitão Woods, que tomou
conta de mim retorcendo a boca (que era minha, mas era dele) e
acendendo com fúria um charuto barato comprado em algum cais pirata e
que iluminava meu rosto toda a vez que eu tragava como se estivesse me
afogando.(Texto publicado em 22 de agosto de 2004).
Published: Jun 02, 2005 - 09:37 PM
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AQUELE CINEMA OCULTO
A arte da luz entra no buraco negro do tempo. Aos cinco anos, me levam
para um lugar escuro, onde apareciam rostos gigantescos, que tomavam
conta de uma parede. Fui informado antes: “vais te assustar!” Cumpri a
advertência e tiveram que me tirar no meio da sessão.
Published: May 30, 2005 - 10:03 PM
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NA CASA DO POETA MAIOR
Quem é J. A. Pio de Almeida, esse poeta estupendo que hoje está
recolhido, quieto, "oculto entre as colunas altas do Silêncio", como
diz, no bairro do Espírito Santo, em Porto Alegre? Sua poesia pertence
ao mais alto patamar da literatura brasileira. Leiam esses versos: ""Há
um tapa de jaguar vencido em meu silêncio/ um taciturno fim de época
rebelde/ um não-sei-quê de sombra e glória no que eu penso..."
Published: May 29, 2005 - 04:40 PM
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DUAS VIAGENS E UMA CARTA
Lembrei de ti, mãe, quando vi Diários de Motocicleta, de Walter
Salles. Tu que me protegeste quando cruzei o inverno da minha vida na
fronteira com a Argentina, sofrendo ataques cíclicos de asma. Na mesma
época em que eu delirava sem poder respirar alguém tinha cruzado o
Amazonas a nado para impor-se aos limites da doença e tornar-se o Che.
Published: May 29, 2005 - 09:25 AM
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O DRAGÃO DE JADE
Um mergulhador desenterrou do fundo do mar uma jóia mágica, o Dragão de
Jade. Tem o tamanho de um punho fechado e é todo esculpido na gema
preciosa. O dragão está sobre um pedestal e no espaço entre essa base e
a barriga cabe os dedos de uma pessoa. Foi um puxão bem nesse vão que
arrancou o objeto de onde estava, cravado numa rocha, mas que, não se
sabe bem o motivo, se soltou facilmente . O resultado foi o terremoto
que jogou o mar contra a Ásia.
Published: May 27, 2005 - 07:42 PM
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O VIGIA DO MAR
A realidade do pescador é a brusca mudança, o rochedo que aflora, o
sumidouro, o roçar de um monstro, a mistura do vento, o peixe maior do
que os braços. Ele vive diante da oportunidade perdida, da história
afundada no tempo, na curva da onda batizada de Iemanjá, na tentação
sonora em forma de sereia. O pescador perde a forma para adaptar-se às
imposições mutantes da paisagem.
Published: May 26, 2005 - 10:11 AM
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LEITURA DE ELEVADOR
Quando o calor começa a aumentar, os livros não são mais escondidos
debaixo de grossos casacos. As roupas são leves, portanto o material
fica bem guardado num daqueles compartimentos que existem no elevador.
Mais precisamente onde se guarda o telefone de emergência.
Published: May 22, 2005 - 05:28 PM
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O HORIZONTE ACERTA O PASSO
Cidade é presença e memória, é geografia humana e paisagem. Uma cidade
existe a partir do esquecimento: quem vive nela precisa dos visitantes
para lembrar-se da imponência do concreto, da identificação das ruas,
do rendilhado da serra, ou do mar aberto para a invasão do
desconhecido.
Published: May 21, 2005 - 06:53 PM
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O COLECIONADOR DE IDENTIDADES
Preciso cruzar mais de cinquenta quilômetros de imensas propriedades
coroadas de lagoas, montanhas cobertas de mato e algumas de tetos
nevados, vales e praias, antes de chegar ao núcleo do refúgio deste
território oculto, onde mora Herr Holderbaum num castelo tão imponente
quanto simples, um paradoxo que define a vida deste ermitão,
colecionador de identidades que guarda em inúmeros aposentos, que vai
me mostrando aos poucos, conforme se desenrola nossa conversa ao pé de
uma lareira, onde as brasas esquentam um pedaço de pedra lisa. Lá
tornam-se digeríveis pizzas e pinhões.(Crônica publicada no caderno Donna, do Diário Catarinense, em 9/outubro/2005)
Published: May 21, 2005 - 06:31 PM
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