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O DRAMA DE MARCOS
Por ter sido um jogo intenso, em que a relação dramática entre
expectativa e bola chegou ao seu ponto máximo de tensão, é que
aconteceu a tragédia. Pois quando a percepção coletiva foca demais num
ponto, quando a cabeças, machucadas ou não, se voltam para aquela
comunhão entre golpe de vista e chute no ângulo, fica de fora o
improvável. É desprezada a surpresa que pode acontecer quando o lance
escolhe o hiato entre a certeza de cada um e os caprichos geométricos
do futebol.
Published: Nov 10, 2008 - 01:23 PM
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FALTA COM BARREIRA, A CIÊNCIA INEXATA
É complicado. A barreira serve para tirar a visão da bola, para quem
defende, e do gol, para quem bate. Como não é possível enxergar o
objetivo, tudo depende de cálculo, talento e imaginação. Rogério, do
São Paulo, por estar escolado nos dois lados da barreira, sabe o que um
goleiro pensa quando ouve o baque surdo da chuteira.
Foot notes: Texto publicado no Diário da Fonte a 10 de março de 2005.
Published: Nov 12, 2007 - 03:02 PM
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DE REPENTE, O GÊNIO
Um pé passa para o outro, fazendo com que o equatoriano enfrente dois
Robinhos de uma só cabeça. Ele já está batido e o gênio, em curva e
diagonal, se livra da sua marcação para chutar lá onde a coruja pia.
Caprichosa, orgulhosa do momento, a bola fez justiça e sobrou nos pés
de Elano, que saiu de braços abertos para ninguém. Todos caíram em cima
de Robinho, que tinha chegado ao detalhe supremo da sua obra,
arduamente construída em anos e anos de exercício.
Published: Oct 18, 2007 - 04:19 PM
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O MESTRE PARTE PARA ETERNIDADE
O Morumbi lotado levantava os braços e entoava o cântico dos cânticos:
"Olê olê olê olê Telê Telê". Era a milionésima vez que o Mestre decidia
um título. Ele então se levanta, de maneira não muito confortável pois
não está acostumado a esse tipo de demonstração, anda um pouco para
dentro do gramado e faz sua saudação, com uma só mão para cima
acompanhando o ritmo da cantoria. Era a homenagem em vida ao homem que
deu tantas alegrias aos seus torcedores e que destacou-se como um
brasileiro maior, nesta galeria cada vez mais escassa, no país que
perdeu sua soberania.
Published: Apr 25, 2006 - 08:12 PM
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O POVO EM SUA MAJESTADE
Pelé é o povo que chegou à majestade. É uma criatura dialética, vinda
de longe, parte de uma geração que invadiu a cidadela adversária pela
primeira vez. O reino já estava posto quando vieram os outros a seguir.
Mas ficou a originalidade do gesto que inventou o sonho. Não há,
portanto, armadilha quando se fala de Pelé. Ele é o povo que provou ter
a capacidade de gerar o mito. Por isso, por onde passa, as pessoas
procuram tocá-lo. O Rei é a carne que se fez Verbo, numa inversão do
ato divino da criação. Ele não é um deus, é a pessoa que, para sempre,
estará de pé, suado, olhando para onde ninguém vê.
Published: Feb 24, 2006 - 09:53 AM
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GOLS DO MÁGICO MANDRAKE
É incrível esse milissegundo em que o goleiro, paralisado, ordena seu
corpo em direção à bola, que já saía do chão para alçar vôo novamente
rumo à trave de cima. O comando que movimentou o arqueiro chegou um
século atrasado. Era o que o corpo queria fazer antes do desenlace, mas
emperrou na certeza obscura de que a bola iria se perder para sempre. É
de arrepiar ver o goleiro totalmente imóvel olhando para cima (só o
olho acompanha a velocidade do chute) e a bola batendo, despencando
para o solo, voltando para cima, para quicar e entrar, enquanto o
goleiro tenta investir contra o irreparável.
Published: Oct 10, 2005 - 04:34 PM
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FOUCAULT NOS PÉS DE ROBINHO
A intenção é o segredo de Robinho. Ele pedala em cima da
bola para ocultar seus verdadeiros propósitos, mascarar a vontade que
direciona a jogada, impedir que o adversário decifre o que vai fazer.
Isso evita que o outro leia e entenda a sua linguagem (se encararmos o
futebol como um acordo de signos articulados). Em As palavras e as coisas
, o texto de Michel Foucault apresenta a palavra proposição (e não
intenção) como o motor da criação da linguagem, que faz dela uma
representação (ordenada pela gramática) da representação (os sinais que
surgem pela ação da natureza e do corpo humano).
Published: Jun 07, 2005 - 12:33 PM
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O QUE A MARATONA NOS ENSINA
Nosso maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima não era para estar lá,
naquela posição, liderando a mais importante prova das Olimpíadas de
Atenas. O jornalismo brasileiro não o tinha escolhido, portanto não
merecia contrariar a pauta. O terrorista que impediu sua vitória
(usando vestidinho plissé magenta) apenas completou o serviço da
exclusão e o colocou à força no terceiro lugar.O jornalismo só pode
fazer História quando fizer realmente jornalismo, e não quando
pretender ser testemunha ocular da História. A História não se revela a
olho nu, não é algo que caia nas redes de televisão.
Published: Jun 02, 2005 - 09:29 PM
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A GEOMETRIA DO JOGO
O conflito principal no futebol é a oposição entre a esfera e o
retângulo, entre a curva e a linha reta e não a que existe entre times
adversários. Tanto é que os atletas costumam trocar de camisa, conforme
as conveniências da profissão ou da cartolagem, e muitos acabam juntos
na seleção (há também o caso de torcedores que escolhem mais de um time
de coração). Este jogo é uma arte de encaixes, sejam quais forem as
cores defendidas ou as pessoas envolvidas nele.
Published: May 28, 2005 - 09:26 PM
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O PASSO A MAIS DA PÁSSARA
O impulso foi tão grande, tão ansioso por se mostrar, que no final
deste um passo para frente para reequipar teu equilíbrio. Para quem tem
vocação para o vôo, para que servem linhas retas delimitando espaços, a
não ser para eliminar a surpresa?
Published: May 28, 2005 - 08:55 PM
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GOL DO BRASILEIRO FRANÇA
A bola veio do canto do campo, numa altura mínima, como se fosse a roda
de um trem que rola sobre trilhos supercondutores, aquele que não faz
fricção quando anda. França acompanhou a trajetória da bola como um
menino que aposta corrida com um carro. Lembrei dos pneus velhos da
minha infância, usados para colocar alguém dentro, todo enrodilhado.
Published: May 28, 2005 - 07:30 AM
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O ÚLTIMO DUELO
O gol a gol é um duelo ao entardecer, quando todos estão exaustos e só
sobra fôlego para quem é goleiro. Esse é o momento do desempate, do
desenlace do dia inteiro dedicado ao futebol, ou seja, à arte
improvável de combinar retas com curvas e encaixar esferas em
retângulos.
Published: May 28, 2005 - 07:15 AM
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ONDE NÃO HÁ ESPAÇO, HÁ ROMÁRIO
Não importa o tamanho do país. Importa quanto espaço existe nele para
se viver. A posse folgada do território por parte do privilégio confina
a maior parte do povo aos limites impostos ao menino Romário. Nessa
escassez o grande craque inventou sua arte.
Published: May 23, 2005 - 10:27 AM
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O GOL EXTREMO DE ALEX
Futebol é ficção. Isso não quer dizer que seja irreal. Pelé, por
exemplo, é um personagem, e nada mais real do que o Rei. Sempre
relembro, a meu modo, e com minhas imagens e conclusões, o que os
outros descreveram com suas certezas.
Published: May 17, 2005 - 12:10 AM
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Eclipse na Grande área
A bola branca rolava por trás dos morros quando voltei ontem para
casa. Era uma dama que se olhava no espelho pálido do entardecer.
Depois, tornou-se um balão de gás subindo na noite limpa.O evento
começaria aí pela hora do jogo.
Published: May 16, 2005 - 11:57 PM
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A mutação dos espaços
O impressionante clássico (tudo aquilo que merece ser estudado em
classe) de quarta-feira, 22, entre Santos e Flamengo, foi tão intenso e
cheio de eventos que a pressa em escrever cai na tentação de deixar de
lado suas principais revelações.
Published: May 16, 2005 - 11:55 PM
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