O QUE É UM INTELECTUAL?

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Crônicas, Redação sem Máscara        

Nei Duclós

Intelectual é quem produz pensamento. O intelectual orgânico, para aproveitar uma definição de Gramsci, é quem coloca a produção do pensamento a favor de um projeto de poder. Digo com minhas palavras, pois a verdadeira citação é de memória, para evitar que qualquer texto se transforme num amontoado de tijolinhos conceituais devassados pelo uso e sem nenhum sinal de elaboração, nem mesmo a reprodução de uma idéia com palavras próprias.

No original, o orgânico é quem, “em sintonia com a emergência de uma classe social determinante no modo de produção econômico, procura dar coesão e consciência a essa classe, também nos planos político e social”. E o tradicional é “aquele que se conserva relativamente autônomo”. Prefiro usar do meu jeito, substituindo a palavra “classe” por projeto ou sistema de poder e eliminando a palavra “tradicional”. Adapto os conceitos em função da objetividade da argumentação. Isso também é produção de pensamento.

Intelectual é o Francisco de Oliveira , da USP, quando defende e divulga a tese do ornitorrinco, definição do Brasil como um cruzamento de miséria com agribusiness forte, entre outros paradoxos. Intelectual orgânico é o mesmo Francisco de Oliveira quando rompe com Lula ou quando apóia Lula no segundo turno. Ou seja, um intelectual pode migrar nas suas funções conforme sua atuação, sua prática, ou, para usar uma palavra que esteve na moda, sua práxis.

Intelectual é o Roberto Schwarz, citado um milhão e vezes aqui no Diário da Fonte quando define o vício do deslocamento entre realidade econômica e cultura hegemônica, esta sempre atrasada para viabilizar o papel subalterno que o país desempenha no mundo. Intelectual orgânico é o Roberto Schwarz quando se omite de um debate mais explícito sobre os projetos de poder, deixando à deriva sua teoria, para usufruto geral. Um intelectual precisa não apenas produzir pensamento, mas ordenar sua práxis em favor de um sistema voltado para a sobrevivência, no caso, na falta de um exemplo melhor, uma nação. E ainda mais específico, a nação brasileira.

Temos um intelectual voltado para a militância, como é o caso de Gilberto Vasconcellos, brilhante no seu diagnóstico sobre o enterro do trabalhismo como solução para a entrega da soberania do Brasil. Mas sua praxis erra quando luta por um vetor da gestão Ernesto Geisel dos anos 70, trazendo à tona Bautista Vidal e seus projetos de petroquímica e biocombustível. Tirar energia da biomassa foi no fim encampado pelo Bush e o Lula e significa exaurir o território nacional de seus recursos de terra arável, desviar um espaço estratégico para necessidades externas. O biocombustível entrou em descenso, pelo menos como exposição na mídia, depois da descoberta do pré-sal. Significa que a luta de Vasconcellos se esvaziou duplamente, quando foi encampada e quando foi deixada de lado, apesar de seu diagnóstico se manter atual.

Para um intelectual existir, é preciso sistemas de ensino eficientes, gratuitos e voltados para a pesquisa científica, não a pesquisa orientada para necessidades prementes do mercado, pois isso a iniciativa privada tem obrigação de prover. Você não pode transformar a faculdade de Economia da USP num balcão de negócios. Pega mal, ainda mais quando a crise estoura e o que era mercado é batizado de bolha. Você não pode atrelar quadros formados graças aos investimentos do dinheiro público a papéis secundários de pesquisas estrangeiras. Não podemos ser serviçais científicos.

Ultimamente se fala muito em aumento da massa crítica da produção de pensamento e resultados nos institutos brasileiro de pesquisa. Gostaria de saber o que há de vantagem para o Brasil nisso. Se todo esse material serve apenas para viver em torno de núcleos de produção de pensamento imperiais, das potências do Exterior, então valem pouco. Um intelectual precisa ser orgânico, não tem saída. Ele se põe a serviço de um projeto, que deve ser nacional, mesmo que tenha contribuição estrangeira. Outra coisa que acontece é que os quadros formados aqui acabam sendo exportados. Os pesquisadores estão certos. Quando não são valorizados, devem imigrar. Mudar essa situação deve ser projeto de políticas públicas.

Na imprensa, temos a miséria da filosofia. Os jornalistas, principalmente os mais notórios, não estão à altura dos atuais tempos bicudos, em que as exigências se intensificaram. Não estou falando em MBAs ou cursinhos rápidos no Exterior. Isso é conselho de consultoria, serve para dar status, não produção intelectual pesada, em universidade. Só assim é possível dizer alguma coisa sem cair no lugar comum. Os leitores também produzem pensamento e têm agora condições de veicular sem a ajuda nem de instituições de pesquisa e ensino nem de empresas de comunicação (mais envolvidas com grandes produtores de pensamento, como o colunista fixo da Folha há muitos anos, o atual presidente do Senado!). Faça um blog sobre ciência e pronto, tua palavra está lá, intacta.

Cabe a nós destacar as conquistas principalmente de intelectuais não notórios e que não estejam envolvidos nos esquemas mesquinhos de ascensão social, como aconteceu debaixo das minhas vistas quando motoristas de velhos calhambeques surgiram em palácios republicanos de luxo vestidos como príncipes. Devemos ficar em oposição à idiotice reinante, por mais notória e poderosa que seja. A falta de presença maciça de intelectuais responsáveis na superfície das mídias e da indústria cultural faz com que todos regridam à idade da pedra.

É como dizia o José Lewgoy no Pasquim quando comentava filmes de Mizogushi e Kurosawa: “É preciso ver esses filmes senão todos vão achar que Harold and Maude (um filmeco inglês sobre a relação platônica entre um guri e uma velha, muito famoso na época) é filme de arte”. Entrar nessa roda viva implica também o desmascaramento dos pseudo intelectuais, os que se comparam a Goethe e posam de estátua. Devemos agir para erradicar a distorção que a palavra intelectual atingiu entre nós. Como muitos intelectuais entraram na disputa pelo butim, ou se omitiram, ou apenas ficaram ostentando status e cargos, deixando a nação à mercê da bandidagem, a palavra intelectual virou nome feio, xingamento entre nós. Isso tem de mudar.

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20 comments
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  1. eu adoreii me ajudouu muiito ta

  2. eu adoreii muiito me ajudouu muiito

  3. Fabuloso, este texto. Ha muito, venho “brigando” no setor academico, de midia televisiva e nos “bares da vida”, na busca de um retorno digno, necessário e merecedor da palavra e INTELECTUAL. Frustrante, horrivel, absurdo este lugar ridículo que jogaram a palavra e os verdadeiros INTELECTUAIS. Se não cuidarmos com a maxima urgencia, dentro de pouco tempo jogador de futebol será chamado de intelectual. Calma, não estou desmerecendo o futebol mas, convenhamos, qual a construção de um pensamento científico que aqueles profissionais desenvolvem? O mesmo pergunto sobre os nossos políticos e, especialmente o Sarney.
    O Brasil, não tem um time de pensadores mas sim um time de fomentadores do raciocínio “esperto”. Portanto, não nos assustemos se, amanhã, nossa sociedade, explodir como uma bolha recheada de bens materiais mas jogando no ar um cheiro de podridão. E, assim, como sempre, ficará relegado ao grupo dos emergentes servidores dos blocos ricos e intelectualizados.
    Estou com voce e aqueles que lutam por uma sociedade melhor. VAMOS PENSAR JUNTOS!!!

  4. Muito bom, Renato, obrigado por seu comentário. Essa é a luta, que devemos desenvolver todas as horas do dia, em todos os espaços, para que possamos abrir caminho e deixar uma herança séria de revelações.

  5. MEU PAI ERA ANALFABETO DEPRESSIVO, ME HUMILHOU A VIDA TODA DIZIA PARA TODOS, QUE TINHA VERGONHA DO FILHO BURRO, EEU ERA SUPER DOTADO. HOJE SOU ESCRITOR E MUITISSIMO NARCISISTA, SOU UM NARCISISTA INTELECTUAL, E SOFRO MUITO COM ISSO, VIVO IMPLORANDO ELOGIOS, QUERO QUE ME DIGAM QUE SOU INTELIGENTE, JA FUI APROVADO COMO,FILOSOFO, MAS NADA ME SATISFAZ…………….NUNCA CRITIQUE SEUS FILHO, SE VOCE NAO TEM CULTURA, ELOGIE OS RASCUNHOS D0 FILHO.
    ATENCIOSAMENTE, SERCEL

  6. Um professor de gramática edita um livro ou cem igualzinho a todos os já escritos anteriormente. nada acrescentando….eleé um intelectual?
    Um agricultor analfabeto cria um sistema de conservação do solo, aumentando muito a produção e melhorando a condição de vida do núcleo que habita…ele é um intelecual?
    A condição sine qua para ser considerado um intelectual é a inovasção, a criação ou não.

  7. O professor que se repete ou copia não é um intelectual. O agricultor analfabeto que cria também não. Este é um inovador, um inventor. Intelectual é quem produz pensamento. Quem inova é um inventor, não obrigatoriamente um intelectual. Pode ser, se produzir pensamento sobre o que faz ou sobre qualquer outro assunto.

  8. O que mais me incomoda com todo o esquema degradante citado no texto, e que, ao meu ver é real, consiste na eterna busca do “nada”. Levo em conta para tal citação o potencial e aliado à qualidade do homem quando se determina a pensar com senso coletivo e livre de interesses escusos(caracterísitica nossa). Como estamos sendo programados para pensar de acordo com o sistema, dizemos dia após dia adeus aos questionamentos e às descobertas frutos do amadurecimento da alma. Isto é sério e grava!
    Belo texto. Obrigado por publicar e dar acesso à muitos.
    Grande abraço.

  9. Heldon: o espírito livre precisa se impor, desmascarar o discurso aparelhado, contrapor-se aos intereesses mascarados de produção de pensamento e partir para cima, para a militância,ou seja, a vida intelectual pautada pela ética de verdade precisa se desenvovler e crescer entre nós. Senão tudo ficará comprometido. A obrigação nossa é colocar na roda o que sentimos de fato, sem ter medo das conseqüências (deboche, indiferença).O que vale é a repercussão obtida junto a outros espíritos livres, como o seu. Abs. e obrigado.

  10. INTELECTUAL. Título próprio das elites. Machado de Assis tinha só o primário, mas “produziu” pensamentos destacando a aristocracia carioca. Não produziu nada. Graciliano Ramos nos deu Vidas Secas. A pobreza não tem intelectuais, estão desapercebidos das ferramentas. O Poder não os deseja assim. O sistema não os quer produtores de pensamentos que o ponham em risco. E ser intelectual a favor de um projeto de poder que ao ser humano despreza não é ser intelectual, é ser finamente bajulador. O behaviorismo ensina que a cada pensamento surge um comportamente respectivo. Produzir pensamento que nunca muda o que é ruim para o que pode ser melhor é só empilhar ideias numa prateleira fadada ao convívio com o bolor. Sarney é só um diamante na lapela da elite. Jamais chegará aos pés de Émile Zola e seu Germinal, porque cambaleia bêbado nas ruelas infinitas de seu império de empresas e latifúndios. Está tão longe dos brasileiros assariados que se faz indigno de ser chamado de intelectual. É um bosta. Olavo de Carvalho fuma muito, mas em sua fumaça suicida estão seus sonhos de intelectual, de mudança de um país ridículo para o que poderia ser “o celeiro do mundo”, expressão utópica e ingênua. O intelectual no país de colonizadores eternos é um sonhador. O poder é a causa de todas as vidas. Só ele respira, para que todos ofeguem. É um assassino. O intelectual é nada. Logo que se encaixa num projeto de pesquisa ou de produção de ideia perde sua autonomia. Ter autonomia relativa é seguir carpindo no enterro do que se achou um dia um intelectual. R.I.P.
    Intelectual é nada. Ou produz pra mudar ou serve a elite. (GRANDE ABRAÇO).

  11. INTELECTUAL. Título próprio das elites. Machado de Assis tinha só o primário, mas “produziu” pensamentos destacando a aristocracia carioca. Não produziu nada. Graciliano Ramos nos deu Vidas Secas. A pobreza não tem intelectuais, estão desapercebidos das ferramentas. O Poder não os deseja assim. O sistema não os quer produtores de pensamentos que o ponham em risco. E ser intelectual a favor de um projeto de poder que ao ser humano despreza não é ser intelectual, é ser finamente bajulador. O behaviorismo ensina que a cada pensamento surge um comportamente respectivo. Produzir pensamento que nunca muda o que é ruim para o que pode ser melhor é só empilhar ideias numa prateleira fadada ao convívio com o bolor. Sarney é só um diamante na lapela da elite. Jamais chegará aos pés de Émile Zola e seu Germinal, porque cambaleia bêbado nas ruelas infinitas de seu império de empresas e latifúndios. Está tão longe dos brasileiros assariados que se faz indigno de ser chamado de intelectual. É um bosta. Olavo de Carvalho fuma muito, mas em sua fumaça suicida estão seus sonhos de intelectual, de mudança de um país ridículo para o que poderia ser “o celeiro do mundo”, expressão utópica e ingênua. O intelectual no país de colonizadores eternos é um sonhador. O poder é a causa de todas as vidas. Só ele respira, para que todos ofeguem. É um assassino. O intelectual é nada. Logo que se encaixa num projeto de pesquisa ou de produção de ideia perde sua autonomia. Ter autonomia relativa é seguir carpindo no enterro do que se achou um dia um intelectual. .
    Intelectual é nada. R.I.P. Ou produz pra mudar ou serve a elite. (GRANDE ABRAÇO).

  12. Desculpe o texto duplo, cliquei em ‘Evniar comentário’ duas vezes, inadvertidamente. Desculpe.

  13. Muito bom, Oliveira, nada a desculpar. É um comentário denso, assim lemos duas vezes para poder navegar nele melhor. Muito obrigado.

  14. muito interessante a forma de como você fala clara de como é ser um intelectual.é certo que para termos excelentes intelectuais precisamos de bons ensinos de qualidades e que fosse acessível a todos.gosto de argumentar sobre tudo que acontece no mundo sei que estou longe de ser uma intelectual mas terei maior prazer em se envolver de forma critica e participativa com as causas sociais .

  15. Edinalva, o importante é ter pensamento próprio a partir de bases sólidas, de formação pesada. Não tem outra saída. isso leva tempo, mas é caminho certo. O exercício do trabalho intelectual vai sendo aprimorado ao longo de toda a vida. É a missão principal, essa de elaborar o conhecidmento adquirido e deixar uma herança para que a vida (a produção de pensamento e suas consequências) continue. Obrigado pelo seu comentário.

  16. Vejo que não só a mim como também a maioria de nós brasileiros estamos necessitando do aprendizado de forma geral, percebo que no nosso cotidiano falta as grandes discussões em rodas de colegas, amigos, atividades profissionais, educacionais relacionados com o que vem ocorrendo em nosso País e que vejo no seio das academias de nossos professores a ditadura de pensamentos e que saímos destas acadêmias como apenas como papagaios, emitimos apenas sons sem nenhum nexo para nós e nos profissionalizamos e continuamos a ser meros repassadores de idéais que nos são impostas dentro de nossos conselhos, instituições, sindicatos que levantam bandeira e que não lhe permitem pensamentos e atitudes questionadoras de outros. Gostaria de ressalta a minha dificuldade de expor o que penso, o medo presente a todo momento em reprimida, mesmo agora ao comentário aqui. Infelizmente somos frutos de uma ditadura e que ainda é Continua Silenciosamente em que criam formas de conter, reprimir em surgir e fortalecer PENSADORES que possam contribuir para uma mundança, uma transformação do se diz cidadão brasileiro. Preciso aprender e apreendre muito com Vocês pensadores.

  17. O que emociona é a verdade, Mirian, essa verdade que colocas de maneira tão forte e explícita aqui. Obrigado!!!

  18. eu achei muito bom esse saite,pra falar a verdade eu não sabia oque era intelectual mais depois que entrei nesse saite tirei todas minhas duvidas.

  19. RESUMINDO INTELECTUAIS SÃO OS PENSADORES OS FILOSOFOS.

  20. Gostei das definições e dos comentários sobre o assunto. Precisamos de intelectuais para melhor nortear as ideias da juventude que busca afirmações naquilo que diz. Ideias sem realizações são meras palavras citadas. Precisamos pensar e fazer valer esse pensamento como base objetiva.

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