O TEXTO REVOLUCIONÁRIO NA AMÉRICA LATINA

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Trabalhos Acadêmicos        

Subcomandante Marcos e a linhagem do texto revolucionário

Nei Duclós

Por uma feliz disposição cronológica dos textos selecionados para o curso, os documentos do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) acabam se revelando como o estuário, a atualização e o apogeu de uma linhagem do texto revolucionário latino-americano. Pela voz do Subcomandante Marcos, estão presentes alguns elementos importantes de Bolívar, Marti, Madero, Zapata, Sandino, vetores que se entrelaçam e se transmutam, enriquecendo e dando consistência a uma revelação renovada. Isso resgata uma tradição que povoou o imaginário do continente no século 20 e que, com o final da Guerra Fria, parecia condenada ao passado.

Mas essa congregação de valores históricos não configura uma síntese ou uma mistura, já que Marcos tem sua especificidade como proposta e sua originalidade como autor. É mais uma herança assumida, um referencial que reforça a convocação para a luta. Para identificar esses pontos de contato entre Marcos e seus ascendentes, é importante mergulhar nos documentos e comunicados do EZLN, que se estruturam ao redor de um personagem-símbolo. Seu nome de batismo é: Nosotros.

Vamos seguir essa pista. Nosotros são os pequenos, os esquecidos, os despojados, os sem rosto e sem nome. Nos primeiros textos, Nosotros não chega a ser o povo, mas aquela parte dos oprimidos que resolveu lutar contra um governo ilegítimo, o revolucionário messiânico, herdeiro da história, de uma luta de 500 anos e que encerra suas principais lições pelo exemplo dos heróis mortos.

“Queremos saudar a memória dos nossos mortos, que sob essa mesma terra nos cuidam e nos guiam”, diz o Subcomandante Marcos. O messianismo inspirado no espírito dos heróis tem a força do cristianismo primitivo, de revelação herdada: “Vimos nosotros que es buena Ia palabra de nuestros muertos, vimos que hay verdade y dignidad em su consejo. ” Trata-se de reviver os mortos que lutaram, reencarnar seu heroísmo. “Mandar obedecendo, para viver morremos e para nosotros, nada” são os lemas desse cristianismo primitivo sem Cristo, despojado, autêntico, fundado na herança dos mortos. Como nota John Womack Júnior, Zapata, fonte inspiradora do ELZN, também buscava nos líderes do passado os precedentes e a inspiração. Para ele, o Plano de Ayala era uma outra declaração a mais na defesa dos povos.

Com o tempo, a verdadeira identidade do personagem-símbolo se revela. “Nosotros somos indígenas mexicanos”. Ou, como diz claramente a declaração do EZLN ao povo mexicano por ocasião do 502 aniversário do descobrimento da América: “Nosotros, índios mexicanos. Nosotros, olvidados. Nosotros, humillados. Nosotros, enganados. Nosotros, maltratados. Nosotros, muertos. Nosotros, rebeldes. Nosotros, dignos. Nosotros, verdaderos. Nosotros, muertos vivos. Nosotros no nos rendimos.”

O povo não representado agora fala e tem sua força na luta pela democracia, a liberdade e a justiça. De armas na mão – que são guiadas pela razão – as bases do EZLN, indígenas em sua maioria, precisam da sociedade consciente para poder ganhar a luta contra o capitalismo. Contra as trevas do dinheiro, o EZLN é a estrela de um povo em armas, que brilha na noite da opressão e da miséria. ‘Tor suicídio o flisilamiento, Ia muerte dei actual sistema político mexicano es condicion necesaria aunque no suficiente, dei transito de Ia democracia en nuestro país. Chiapas no tendrá solución si no se soluciona ei México.”

Segundo os textos do EZLN, os inimigos que estão no poder, exercido ilegitimamente pelo presidente Salinas e pelo PRI, são os mesmos que se opuseram a Hidalgo e Morelos. A revolução inacabada do México precisa concretizar-se, opondo-se a um líder (Salinas) que mente, usurpa o poder, que gera dor, raiva, humilhação e lamentos entre os oprimidos. “Nosotros queremos ser simplesmente Ia antesala dei mundo nuevo. Un mundo nuevo com una nueva forma de hacer política, un nuevo tipo de política de gente dei gobierno, de hombre s y mujeres que mandam obedeciendo.”

Os pontos em comum entre os textos do ELZN e dos seus antecessores são: a afirmação de uma identidade revolucionária, a ilegitimidade do poder estabelecido, a argumentação emocional – o coração convoca para a luta, a revolta é desencadeada pela indignação, mais do que pela razão -, a clássica referência à revolução mexicana, a legitimidade da posse do território latino-americano pelos seus habitantes, o espírito de sacrifício etc.

A emoção é um insumo revolucionário na América Latina. Nota Maria Ligia Coelho Prado que “o circuito da mulher ou o campo em que se movia era o das emoções.” As mulheres combatentes estavam dispostas a sofrer pelo bem da pátria. Na América Latina, vemos pelos textos, isso não era exclusivo das mulheres. Os guerreiros de Chiapas, os de “noturno passo, os que montanha somos” também se guiam pela emoção e o sacrifício -”para nosotros, nada”.

Basta ver que toda a argumentação de Bolívar contra a Espanha é fundada na emoção. Vamos pegar algumas palavras da Carta de Jamaica. Para descrever os espanhóis, os termos são “tormentos, destruidores, barbaridades, atos horrorosos, nocivos, império da dominação, Espanha madrasta”. Para falar dos revolucionários, os termos são “Novo Mundo comovido e armado, a luta purificou o território, os indômitos e livre araucanos, morigerados e bravos moradores do interior”. A luta legitima-se assim contra a ambição, a vingança e a cobiça da Espanha, endurecida e insensível. Trata-se de uma justificação que é emocional e histórica, base de uma sustentação ideologicamente correta e legitima. Esse enfoque romântico da revolução está fortemente enraizado no espírito e na formação de Bolívar, um homem do século 19 que recebeu educação européia.

A linguagem emocional também está presente nos textos de Madero . ” A virilidade do patriota resolvido a sacrificar-se, se for preciso, pra conquistar a liberdade e ajudar o povo a livrar-se da odiosa tirania que o oprime”, escreveu ele.

O texto poético – comum a Bolívar, Marti, Marcos e Sandino – é construtor de mitos. Falando da Virgem de Guadalupe e a importância para a revolução mexicana, Bolivar diz que ” o entusiasmo político mesclou-se com a religião, produzindo um veemente fervor pela sagrada causa da liberdade.” Em Marti, a revolução cubana é mitificada, idealizada:

“E lindo ver a atuação unida do Partido Revolucionário Cubano, pela dignidade, jamais gerida por intrigas.” Sandino, ao batizar com seu nome uma cidade conquistada, também participa dessa construção de mitos no fragor da luta.

A Nuestra America de Marti precisa de líderes autênticos, criativos, que conhecem os problemas reais da terra e do povo, que governa abrindo os braços para a diversidade do povo. Assim, a América Latina precisa agir com uma só alma, uma só mentalidade, dando-se a conhecer para evitar que a ignorância e a prepotência dos Estados Unidos sejam seus algozes. A unidade na diversidade na luta contra o capitalismo – eis algo de Marti que o ELZN assume inteiramente nos seus documentos.

O programa do APRA – Aliança Popular Revolucionaria Americana identificava-se com a Bolívar, ao pregar a unidade política da América Latina, com Marti ao falar do perigo que ameaça a “nuestra America” (também batizada de Indoamerica), com a revolução mexicana, ao propor a nacionalização das terras, e com o ELZN, ao reivindicar a realização da Justiça e a aliança com as classes médias.

A solidão do guerreiro latino-americano diante da opressão interna e externa – que identifica Sandino e Marcos – é a solidão do homem que se sente injustiçado e traído. Como antídoto – e resultado – o texto poético serve como arma, para convocar, unir, lutar. As palavras – herdadas e criadas – formam uma revelação sempre renovada, que alimenta os mitos, reconstroi a religiosidade em novos termos e prepara os espíritos para uma definitiva salvação. Essa é a utopia latino-americana que a revolução, aliada à História e à poesia, procura instaurar, apesar das derrotas sucessivas.

Nosotros é filho de Nuestra America. É o rosto da revolução sem rosto, a identidade secreta, anônima e autêntica de uma idéia que reivindica terra para adquirir consistência histórica, justiça para recobrar a dignidade e liberdade para ocupar um lugar no futuro.

Indicações bibliográficas:

El Pensamiento Vivo de Sandino. Colección Rueda dei tièmpo.
Bolívar – Textos. Org. de Manoel Leio Belloto e Anna Maria Martinez Corrêa. SP, Atica.
EZLN – Documentos y Comunicados. Ediciones Era.
Haya de Ia Torre – El Antimperialismo y ei Apra.
Herzog, Jesus Silva – Breve Historia de ia Revolución Mexicana. Fondo de Coltora
Econômica, México.
José Marti – Nossa América – Antologia. Huicitec, SP, 1991.
Prado, Maria Ligia Coelho – Em Busca da Participação das Mulheres nas Lutas pela Independência Política na América Latina. In Política e Cultura, Marco Zero/Anpuh.
Womack Jr., John. – Zapata y Ia Revolución Mexicana. Siglo Veiteuno.

One comment
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  1. “A praça é do povo como o céu é do condor”. É dessa forma que o texto revolucionário fixa o céu como apogeu da emoção exalada e terra como ponto de sustentação das raízes revolucionárias. Ao mesmo tempo em que se manifesta entreabrindo sentimentos conclamadores da indignação em virtude das condições humilhantes por que passam “nosotros”, abre também a perspectiva de firmar os pés no chão para que a vitória sobrevenha.
    Do equilíbrio pode nascer a flor, do mito nasce o desejo de mudança, e da realidade a força para atuar.
    Texto muito bem construído e constituído de conhecimentos que o tornam ainda mais singular e criativo. Parabéns.

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