Ele soube aplacar a linha ultraconservadora dando-lhe o que mais
gosta e precisa, poder, e reprimindo os excessos da teologia da
libertação (filha direta da igreja transformada nos anos 60). E definiu
o perfil de uma Igreja flexível e atuante, corajosa, que foi a campo
para enfrentar a própria crise (encontrou saídas no rebanho disperso,
no planeta indefeso, nas terras devolutas do mundo em transformação).
Essa dupla natureza que soube ser uma só criatura, encarnada no próprio
Papa, é a herança principal do Cardeal Woytila, o homem que assumiu as
contradições do seu tempo e agiu dialeticamente.
Nei Duclós
João Paulo é um nome que vem de dois papas, o revolucionário João
23 e o conservador Paulo VI. João Paulo I teve a idéia de encarnar essa
contradição, mas não durou um mês no trono. Seu sorriso permanente era
a máscara de uma impossibilidade, o de unir duas tendências
incompatíveis. João Paulo II teve um longo papado e encarnou a
fertilidade dessa dialética. Fortaleceu os frouxos laços do
conservadorismo, que tinha sido abalado, primeiro, pela crise da fé que
originou a radicalidade de João 23 e, depois, pelo Vaticano II, o
Concílio que mudou tudo.
"Levaremos 40 anos para desfazer o que ele fez em quatro", disse
uma vez um cardeal da igreja. Ao mesmo tempo, Woytila disseminou a
idéia de uma igreja atuante, sintonizado com as mudanças do tempo,
criativa nos métodos de abordagem (a peregrinação permanente) e
tolerante em relação às outras religiões. Conseguiu assim alinhar-se às
principais propostas do concílio revolucionário: os rituais continuaram
modificados, não houve um retrocesso para a missa em latim e a igreja
aprofundou-se no ecumenismo, aproximando-se dos ortodoxos gregos e
reconhecendo em Alá o mesmo Deus dos cristãos.
FUTURO - Ele soube aplacar a linha ultraconservadora dando-lhe o
que mais gosta e precisa, poder, e reprimindo os excessos da teologia
da libertação (filha direta da igreja transformada nos anos 60). E
definiu o perfil de uma Igreja flexível e atuante, corajosa, que foi a
campo para enfrentar a própria crise (encontrou saídas no rebanho
disperso, no planeta indefeso, nas terras devolutas do mundo em
transformação). Essa dupla natureza que soube ser uma só criatura,
encarnada no próprio Papa, é a herança principal do Cardeal Woytila, o
homem que assumiu as contradições do seu tempo e agiu dialeticamente.
A contradição entre o estadista e a santidade resolvem-se em João
Paulo II de maneira polêmica. Os conservadores adoram colocá-lo como o
homem que acabou com o comunismo, mas o comunismo não acabou, o que
implodiu foi a ditadura soviética, implantada pelo stalinismo. Nesse
trabalho o Papa teve sua contribuição, mas nenhuma análise séria pode
colocar exclusivamente nos seus ombros uma tarefa que depende, como nos
ensina a História, de inúmeras confluências.
Mais importante que o Papa foi o próprio Gorbatchev, um estadista
radicalmente inovador. Com Gorbatchev tivemos a primeira oportunidade
real de um mundo transfigurado pela transformação coletiva. Mas os
americanos colocaram tudo a perder e retrocederam aos tempos anteriores
à guerra fria, intensificando o ódio entre nações e o domínio dos
outros povos. Eles acharam que a História tinha acabado, com a vitória
dos Estados Unidos. Sonharam com uma Pax Americana idêntica à imaginada
pelo Terceiro Reich, que queria o domínio do nazismo por mil anos. Até
hoje acham que vão conseguir.
CHANCE - Por um tempo, com Gorby e Woytila, tivemos a chance de
sonhar com uma outra vida, mas essa oportunidade se foi. A História não
brinca em serviço. Por colocar-se no miolo de todos os conflitos, e
nele manter sua integridade e a força do que representava, João Paulo
II atingiu a santidade. Tivemos sorte.
Vimos como se comporta alguém para tornar-se um verdadeiro santo: o
homem que interrompeu uma missa para ouvir o chamado dos fiéis de uma
mesquita; que calçou tênis, que beijou o planeta, que ouviu o coro do
Exército Vermelho, em plena ditadura soviética, cantar ave Maria; que
veio ao Brasil falar de reforma agrária e de crianças assassinadas; que
riu sinceramente dos palhaços que se apresentavam para ele; que chamou
Alá de Deus; que falou em medo e coragem; que perdoou o assassino que
atentou contra sua vida; que viu e foi visto por todos os habitantes da
terra.
O Papa sempre nos emocionou por ser o que sempre foi, mas
principalmente porque vivemos numa época em que as pessoas admiráveis
pertencem ao passado. Quem você admira hoje? Muito poucos. João Paulo
II era uma das minhas predileções, não por eu ser católico desde o
nascimento, já que sempre desgostei de Pio XII e achava o Paulo VI algo
sem vida. Gosto sinceramente do cardeal Woytila. Ele se foi e é nosso
privilégio invocá-lo em nossas orações, pedir que interceda diretamente
ao Altíssimo para que tenhamos a mesma coragem de cumprir nosso destino.
BASE - Precisamos lembrar rapidamente o significado e o sentido de
dialética, que, como explica Leandro Konder em O que é dialética
(Brasiliense, 1986) é "o modo de compreendermos a realidade como
essencialmente contraditória e em permanente transformação". O livro
básico é A Ideologia Alemã, de Marx e Engels (Hucitec, 1986).
A dialética veio de longe, dos gregos, de Zenon de Eléa e Sócrates,
fundadores, que a definiam, segundo Konder, como arte do diálogo, ou a
arte de, no diálogo, demonstrar uma tese por meio de uma argumentação
capaz de definir e distinguir claramente os conceitos envolvidos na
discussão. A dialética de origem marxista aportou na esquerda para
engessar-se num fundamentalismo sem igual. Em compensação, o conceito
filosófico de mais de dois mil anos, grego ou transformado pelo
pensamento filosófico dos séculos 19 e 20, migrou para Igreja, que,
como toda instituição humana (para os fiéis, de origem divina), não
pode impedir que seja vista sob esta ótica. João Paulo II encarnou a
dialética como ninguém.
CONFLITO - Francisco Antônio de Andrade Filho explica : "Para
Heráclito de Éfeso, a realidade é um constante devir, tudo existe em
constante mudança - que o conflito é o pai e o rei de todas as coisas -
luta dos opostos: frio-calor, vida-morte, bem-mal, saúde-doença etc. Um
se transformando no outro". Conflito é a palavra chave que define
Woytila, o homem que soube assumir seu cargo de estadista e, por ter-se
colocado no conflito de maneira surpreendentemente vitoriosa, nele
atingiu a santidade.
É bom que o pensamento progressista acolha urgentemente ao conceito
de santidade em Woytila para que ele não fique confinado ao
conservadorismo e à direita. Parece bobagem, mas não é (como assim, a
esquerda reconhecer a santidade? perguntará o sabichão que reside em
nós). Pois submetam-se, faz bem à saúde. Senão estaremos à mercê do
marxismo de galinheiro de gente como Tariq Ali, tido como historiador,
ensaista e romancista, que numa entrevista na Folha para a jornalista
Sylvia Colombo disse que "movimento que ele promoveu nos rumos da
Igreja Católica funciona como um espelho da atual situação mundial,
refletindo exatamente o que aconteceu nos últimos anos na esfera
político-econômica".
A dialética não funciona assim, como se a Igreja espelhasse o
Consenso de Washington. Isso é de uma pobreza mental sem limites. O
Papa rompeu o bloqueio a Cuba, visitando Fidel Castro (que, como
lembrou o Papa, estudou em colégio jesuíta), na mais bela transmissão
(boicotada pela TV brasileira) audiovisual do nosso tempo. Foi contra a
guerra do Iraque, pediu perdão pelos pecados da Igreja ( a condenação
de Galileu, a Inquisição, entre outros), lançou pontes sólidas para
todas as igrejas. Seu ecumenismo (bandeira maior do Concílio Vaticano
II, de João 23) é antológico e profundo.
Diz Tariq: "Foi um papa autoritário que deixou abandonados
religiosos que, no Terceiro Mundo, travavam uma luta pelos direitos
humanos". Mandou o Leonardo Boff e o Ernesto Cardenal (que levou um
pito em público) calarem a boca. A arrogância de certas pessoas, que se
arvoram a gerar teologia por conta própria! Arrostem então a própria
teologia, mas a Igreja nada tem a ver com isso. Aqui no Brasil, o Papa
cobrou a reforma agrária e denunciou o assassinato das crianças.
MÍDIA - Há uma chuva de análises sobre o poder midiático do Papa.
Queriam que o Papa saísse de aldeia em aldeia com seu cajado anunciando
bulas por meio de papiros. A Rede Globo pode, o Papa não. Por favor,
dêem licença. Woytila tinha noção da majestade do cargo e comportou-se
à altura.
Foot notes: Síntese de textos publicados no Diário da Fonte em abril, maio e junho de 2005.