
Nei Duclós
Miami é o excesso da América e precisa de uma
intervenção cirúrgica. Vamos definir esse excesso e essa cirurgia,
conforme nos narra o filme Miami Vice, de Michael Mann. A América,
terra de migrantes e de oportunidades, paga o preço por ser aberta e
democrática e torna-se em Miami uma aberração, uma doença provocada
pela distorção quantificada ao infinito das suas qualidades. A riqueza
ali é sintoma dessa fraqueza moral que define o vício de Miami. É a
culpa localizada como enfermidade do Império que se arvora a ser o juiz
do mundo.
Esse excesso de recursos, lazer,
dólares, luxos e paisagens não faz parte da América virtuosa, mas sim
da soma dos defeitos da outra América, a falsa, a mentirosa, sensual,
anárquica, a Latina. Miami foi dominada por cubanos, brasileiros,
guatemaltecos, paraguaios. Esse é o mal que corrói a borda do Império.
Miami é o centro demiúrgico de um furúnculo, alimentado pela podridão
dos povos desqualificados do Terceiro Mundo hispânico situado do mar do
Caribe para baixo.
Por estar localizada, tanto
na capital desse Mal, que é Miami, quanto nas suas alimentadoras -
Ciudad del Leste, no Paraguai, República Dominicana e Montevidéu, as
locações “exóticas” (segundo o diretor) que “não estão no mapa”
(segundo o ator Jamie Foxx) – é preciso uma operação cirúrgica
globalizada, que seja a soma de agências de repressão do Império, que
utilizam o meio mais identificável da natureza dos inimigos: a manha, a
mentira, a falsa identidade. O truque é fingir-se de traficante para
poder localizar o centro nevrálgico da doença, a fonte de suas
emanações que contaminam a pureza americana.
Claro
que nem sequer é citado que todo o poder dos traficantes vem do consumo
da droga e não da sua produção e venda. Mas isso seria reconhecer que o
problema é deles, e não do lado de cá. A dupla de detetives, um ator
negro e outro irlandês, são a síntese da América inclusiva, que pode
sobreviver e crescer com elementos fora de suas origens, desde que a
serviço de seus interesses. Eles se disfarçam para conhecer o rosto do
Mal, pessoas com nomes hispânicos como José Yero ou Jesus Montoya.
O
que revela suas identidades é a própria eficiência: eles são bons
demais no que fazem, transportar droga do Terceiro para o Primeiro
Mundo, portanto não podem ser confiáveis. É preciso que sejam
incompetentes, pelo menos um pouco, para que haja conforto nesse mundo
que no Paraguai joga toneladas de embalagens de isopor na rua, a
denunciar a falta de lei de terras sem História, fora da Ordem Mundial.
Nesse reduto paraguaio, surge a figura de Gong Li no papel da chinesa
administradora do dinheiro do cartel e que, claro, cai nas graças do
machão irlandês-americano. Para isso servem as mulheres da periferia do
mundo: para serem repasto da potência viril dos imperiais.
Toda
essa avalanche de mistificações transforma o filme num modelo clássico
de manipulação de consciências. Os espectadores brasileiros se
identificam com os detetives e elogiam o roteiro bem feito, as
interpretações seguras, a aventura e a ação. Mas o que deve ficar claro
é a composição perversa de mitos de alienação e dominação. Os heróis
são modelos de virtude, ou seja, de força física modelada por corpos
cevados na correção aeróbica. Ao contrário dos vilões, que expõem a
força bruta de corpos disformes e tatuados, ou a nefasta aparência de
intelectuais decaídos, como é o caso de Yero e Montoya, que permanecem
sentados a maior parte do tempo.
O Bem corre, se
movimenta, age. O Mal aguarda, corrompe e mata. É assim que se faz
cinema no coração do Império. Cinema, essa arte estratégica que
substitui ou prepara a guerra. O Império já caluniou a Tríplice
Fronteira de Ciudad del Leste dizendo que lá se escondem terroristas da
Al Qaeda. O filme Miami Vice, que custou assombrosos 135 milhões de
dólares (não há limites para financiar a política imperial)
simplesmente justifica uma intervenção ao colocar o Paraguai como o
centro irradiador de um capitalismo doentio, fundado nas imitações e
nas drogas, e não como vítima geográfica da corrupção que vem de cima.
Uma
das bandeiras mais explícitas do filme é colocar Havana como parte do
estado americano de Lousiana, aliás como acontecia no século 18.
“Recuperar” Havana e derrotar o tráfico por meio da inteligência e da
tecnologia são os verbos desse filme perverso que merece repúdio.