Por pura coincidência (ou seriam os deuses do Acaso?) vi dois filmes
seguidos sobre o mesmíssimo tema, apesar de, nos créditos e no Google,
não existir ninguém que tenha falado que haja ligação entre eles. Um é A Ponte de São Luís del Rey e outro Eterno Amor.
Cada um é baseado num autor diferente. O primeiro, no ganhador do
Pulitzer Thornton Wilder, que lançou seu livro em 1927. E o outro no
livro de Sébastien Japrisot. O argumento é idêntico: cinco pessoas
condenadas se encontram juntos no mesmo lugar para morrer. Quem são
elas e por que estão lá? pergunta o narrador/investigador da Ponte de
São Luis Rey, um padre que está sendo julgado pela Inquisição. Quem são
essas pessoas e será que uma delas sobreviveu? pergunta a
narradora/investigadora de Eterno Amor. Destino é a chave para decifrar
a charada. A trama é a busca de respostas, que surgem a partir do
resgate de cada uma das cinco vidas.
Nei Duclós
Por pura coincidência (ou seriam os deuses do Acaso?) vi dois
filmes seguidos sobre o mesmíssimo tema, apesar de, nos créditos e no
Google, não existir ninguém que tenha falado que haja ligação entre
eles. Um é A Ponte de São Luís del Rey e outro Eterno Amor.
Cada um é baseado num autor diferente. O primeiro, no ganhador do
Pulitzer Thornton Wilder, que lançou seu livro em 1927. E o outro no
livro de Sébastien Japrisot. O argumento é idêntico: cinco pessoas
condenadas se encontram juntos no mesmo lugar para morrer. Quem são
elas e por que estão lá? pergunta o narrador/investigador da Ponte de
São Luis Rey, um padre que está sendo julgado pela Inquisição. Quem são
essas pessoas e será que uma delas sobreviveu? pergunta a
narradora/investigadora de Eterno Amor. Destino é a chave para decifrar
a charada. A trama é a busca de respostas, que surgem a partir do
resgate de cada uma das cinco vidas.
TRINCO - O que é uma coincidência? Você coloca a mão no trinco e
sente que a porta tem vida própria. Ela está se abrindo praticamente
sozinha, impulsionada por uma força fora de você. É que no mesmíssimo
instante, alguém colocou também a mão no trinco, do outro lado da porta
e as duas pessoas se vêem uma diante da outra, a se perguntar: porque
ela teve a mesma necessidade, a mesma idéia e o mesmo impulso no mesmo
exato momento? Bem, isso tem que acontecer de alguma forma, diz o
Calculador de Probabilidades, que nada mais é do que o Inquisidor
Científico Anti-Acaso. Magia, sinal, destino, dirá o Esotérico, que
nada mais é do que o Procurador de Coincidências Reveladoras. A
coincidência é isso mesmo: a porta entre os mundos, quando o caos
encontra um ponto em comum e, a partir daí, uma saída. Foi Deus que
decidiu punir as cinco pessoas que caíram da ponte? O noivo da mulher
que vai atrás de respostas está realmente vivo? Por que ele deveria
sobreviver e os outros, morrer? Por que as cinco pessoas, de vidas tão
distintas, estavam juntas naquele lugar?
FRANÇA - Eterno amor foi incendiado pela crítica brasileira, a
Demolidora Genocida. Por uma simples razão: o diretor, Jean-Pierre
Jeunet, repetiu a dose do seu mega-sucesso Amélie Poulin, ao escolher a
atriz Audrey Tautou e optar também por um filme quase todo narrado. É o
seguinte: o cara pegou todo mundo de surpresa com um filme maravilhoso,
encantador, um anti-blockbuster total, feito de emoção, amadurecimento,
poesia, tudo regado com a música (sumida) e essa língua sem igual que é
o francês. Aí as massas acorreram ao cinema. A crítica brasileira ficou
mordida. O cara estava fazendo muito sucesso. Esperou o passo seguinte.
OBRA - O sujeito repetiu a dose, quer fazer o mesmo sucesso,
repetiu-se? Ódio em cima dele. E essa negação não passa de uma bobagem.
Jeunet é um autor com uma obra, tem o direito de fazer uma seqüência de
filmes do seu jeito, como acontece com todos os grande cineastas. Era
só o que faltava: os sem-noção quererem ensinar cineasta a fazer filme
direito! Eterno amor é magnífico, inacreditável de tão bom. Tem
performances estupendas, desde Audrey até a ponta feita por Jodie
Foster. Só vendo para crer.
CAOS - Em a Ponte, até que o canastrão Robert de Niro está bem,
talvez porque faça um arcebispo histriônico, que é bem do seu feitio.
Mas lá estão Kathy Bates, arrasadora como sempre, e Harvey Keitel, um
ator didático, que descreve seus personagens enquanto atua. O filme é
de Mary McGuckian e parece confuso no início, difícil de entrar nele,
pois não sabemos as intenções dos autores. Mas a idéia é essa mesma: ao
resgatar a vida das pessoas que caíram da ponte, o narrador pontua um
tribunal com sua narração fragmentada, caótica. Aos poucos, a história
vai se afunilando até fazer sentido completamente. O padre queria saber
os desígnios de Deus no episódio, para reforçar sua fé; a noiva queria
saber se o noivo estava vivo, para continuar vivendo.
NÓ - A presença de cinco pessoas diferentes no mesmo local e hora é
o ponto nodal de narrativas que se desdobram ao infinito quando vão
para o passado, e resultam numa síntese no desfecho. Foi o acaso, a
coincidência que decidiu a parada, ou há algo maior e mais complicado
por trás de tanto mistério?