Por que a Alemanha é assim? Certamente não é pelo sangue, pela eugenia
racial, pois isso seria nos rendermos ao idealismo. Precisamos da
dialética marxista para entender. Uma pista é dada pelo filme “O
milagre de Berna” (Das Wunder von Bern), de Sönke Wortmann (2003).
Perdemos de oito a três, urravam todos, contra o técnico da seleção,
que permanecia firme. Fizemos três gols nos deuses, replicava ele. São
vulneráveis, têm fraquezas, vamos aproveitá-las. O grande estrategista
puxou de dentro de cada jogador a vontade de vencer, demoliu brigas
internas e concentrou o jogo nas possibilidades de vitória. Deu certo.
Nei Duclós
Releio a parte de Feurbach de “A ideologia alemã”, de Marx e Engels,
uma pedra de cal no idealismo e o livro fundador, no mínimo, de toda
História moderna. É um texto lapidar, de uma clareza emocionante.
Quanto mais avançamos nas ciências humanas, mais Karl Marx e Friederich
Engels se transformam no puro diamante da revolução do conhecimento. É
simples assim: “A consciência jamais pode ser outra coisa do que o ser
consciente e o ser dos homens é o seu processo de vida real”. Portanto,
a consciência não existe no céu para descer à terra, como querem os
idealistas, é o contrário.
Isso serve para desmascarar a atual indústria do aconselhamento.
Não adianta cobrar dos incautos para dar conselhos idealistas, pois
para que as vidas mudem é preciso que a produção de vida, concreta, se
transforme. Se você reúne os funcionários (ou colaboradores, como quer
o idealismo vigente) para dizer que eles podem tudo, desde que coloquem
algumas palavras de ordem na cabeça, a tal atitude, estará mentindo.
Se não houver mudança nas forças produtivas¸ se a massa não sair da
situação de vendedores da mais-valia (aquele plus de trabalho capturado
pelo patronato), então kaputt. Pode ficar falando à vontade, eles serão
sempre os mesmos, pois pensam conforme as relações de produção que os
dominam, da mesma forma que seus chefes jamais vão abrir mão de seus
objetivos e interesses. O resto é conversa para boi dormir.
Para efeitos deste texto, sobre “O milagre de Berna” (Das Wunder
von Bern), o maravilhoso filme de Sönke Wortmann (2003), podemos dizer,
sob as luzes dos alemães Marx e Engels, que a vida concreta constrói o
imaginário de uma nação. Em 1954, ano em que se desenrola a história do
filme, o que era essa vida concreta? Um país pobre, destruído, com
famílias partidas pela guerra ainda presente, apesar de ter acabado dez
anos antes. O que fez essa nação, que, como todas as outras, não existe
fora dos seres reais? O que fizeram os alemães, segundo Wortmann (que é
também co-autor do roteiro; o outro roteirista é Rochus Hahn)?
Uma leitura superficial dirá que ganharam pela primeira vez a Copa
do Mundo, tiraram o caneco das mãos certas da Hungria, que havia quatro
anos e meio não perdia um só jogo e que tinha dado um vareio de oito a
três na mesma competição, disputada na Suíça. Fizeram mais do que isso.
Se reconciliaram com os ex-combatentes que estavam prisioneiros na
Rússia. Se concentraram na estratégia vencedora de cidadãos pacíficos e
religiosos, que procuraram meios de sobrevivência real e se superaram.
A vitória na Copa foi apenas o resultado desse esforço coletivo,
que mais tarde resultou na queda do muro de Berlim e na reunificação.
Na reconstrução, houve, claro, a mão do imperialismo americano, mas
bilhões de dólares despejados num buraco negro resultariam em nada. É
no coração nacional que foi engendrada a saída e essa essência é a vida
concreta dos seres conscientes pertencentes a uma mesma comunidade.
Por que a Alemanha é assim? Certamente não é pelo sangue, pela
eugenia racial, pois isso seria nos rendermos ao idealismo. Precisamos
da dialética marxista para entender. Uma pista é dada pelo filme.
Perdemos de oito a três, urravam todos, contra o técnico da seleção,
que permanecia firme. Fizemos três gols nos deuses, replicava ele. São
vulneráveis, têm fraquezas, vamos aproveitá-las. O grande estrategista
puxou de dentro de cada jogador a vontade de vencer, demoliu brigas
internas e concentrou o jogo nas possibilidades de vitória. Deu certo.
A família que recebe de volta o ex-soldado que ficou onze anos
preso na Rússia dá também uma lição de grandeza. O sujeito chega cheio
de fumaças, ressentido, morto socialmente e começa a aprontar. É a
reação familiar, a necessidade de união para a sobrevivência de todos,
o perdão, a tolerância e a firmeza que fazem a diferença. É a solução
concreta, a montagem de um negócio, sem esperar a anunciada indenização
do governo, que mantém a família junta. É na escassez que se encontra a
saída. É a determinação, a mudança das relações pessoais com os meios
de sobrevivência que os salva. É o que opera o milagre.
Uma das cenas mais geniais deste filme magnífico é o cruzamento
entre a narrativa real do jogo da Copa e a pelada dos garotos alemães
disputando a bola na rua. Mas tem muito mais: os atores realmente
dominam a bola, são jogadores de futebol. E jogam conforme o estilo
antigo, numa paciente recomposição dos principais lances. Nós, que
ganhamos a copa de 1958, num feito ainda mais memorável, jamais
produzimos algo semelhante. Chegamos no máximo a esse execrável filme
sobre o Garrincha em que o ator principal é um perna de pau!
Além de destruir Garrincha, colocaram alguém não familiarizado com
a bola para interpretar nosso gênio do futebol. Tenham dó. Mirem-se no
exemplo da Alemanha, e notem o que faz dela uma nação extraordinária.