Quem não chegou de longe para conquistar o coração da moça desperdiçada
no meio da pradaria? Ou que veio para enfrentar os bandidos que
destroem fazendas para vender o coração dos cidadãos para a malvada
ferrovia? Certamente você libertou seu amigo da forca atirando de
longe, com sua winchester, na corda fatídica, permitindo que ele
esporeasse o cavalo onde foi colocado e assim se salvasse para que
vocês pudessem ir atrás dos malfeitores.
Nei Duclós
O faroeste é um gênero de cinema que não se entregou à distorção
promovida pela indústria. Conseguiram substituir o clássico policial
pelo diluído suspense. Você vai numa locadora e não encontra filmes
policiais, só de suspense. Filme de guerra virou filme de ação. Filme
de amor é confundido com comédia romântica. Tem muito filme de amor
dramático e engraçado ao mesmo tempo, portanto não é drama nem comédia,
é filme de amor mesmo. Podem chamar faroeste de ação, mas ele,
felizmente, não passa disso: o bom e velho oeste, aquele tipo de filme
inventado pelos americanos sobre coisas que jamais existiram de verdade
e que são absolutamente verdadeiras.
Ou você, por acaso, alguma vez duvidou que a vida é um eterno duelo
ao entardecer? Ou que está absolutamente só à espera do Mal que chega
ao meio dia em ponto? Ou que a sobrevivência depende de cruzar o
deserto com a diligência, onde compartilhamos o destino com pessoas
desconhecidas? Por acaso você não teve, em alguma altura da sua vida,
na infância ou no trabalho, o fiel companheiro para enfrentar o perigo
que chega armado? Nunca sonhou com um rancho no México, depois do
tiroteio, do roubo de gado, da busca do ouro perdido? Não sonhou com
aquela mulher estranha e maravilhosa que defende seu espaço apontando
rifles para a escuridão?
Duvido que você não tenha brigado com mais de um oponente, a socos,
num bar ou na rua. Ou que não tenha tocado um revólver como se não
fosse uma jóia e que não ficasse alerta com o clic engatilhado na
curva. Todo mundo tem ou teve um cavalo que nos acompanha na jornada e
que atende ao assobio do dono para salvá-lo de uma situação complicada.
Todos contam com a banana de dinamite que vai explodir a cela, ou com a
corda que, amarrada a uma carroça, irá arrancar as grades da parede,
libertando não apenas um, mas todos os prisioneiros.
Quem não chegou de longe para conquistar o coração da moça
desperdiçada no meio da pradaria? Ou que veio para enfrentar os
bandidos que destroem fazendas para vender o coração dos cidadãos para
a malvada ferrovia? Certamente você libertou seu amigo da forca
atirando de longe, com sua winchester, na corda fatídica, permitindo
que ele esporeasse o cavalo onde foi colocado e assim se salvasse para
que vocês pudessem ir atrás dos malfeitores. E se alguém lhe apontou
uma arma, não há dúvida: você se salvou porque é mais rápido, ou teve a
manha de maquiar seu acampamento, fingindo que está deitando à mercê
dos tiros, quando de fato você está atrás da pedra, pronto para o bote.
Sim, nós somos o faroeste. Levamos milhares de cabeça de gado para
o Missouri, fomos atrás da mulher seqüestrada pelo terrível chefe
Cicratiz, cruzamos a neve com nossa obsessão, ficamos sombrios embaixo
daqueles chapéus pretos, usamos capas até os pés nas areias espanholas
dos faroestes italianos, conhecemos aqueles índios que acenam de cima
dos penhascos e sabemos que no canyon algo nos espera com seu acervo de
surpresas sinistras. Precisamos avisar Jesse James que seu companheiro
de quadrilha vai matá-lo. E temos que acompanhar o fazendeiro que leva
o facínora para o trem de Yuma, onde irá para a prisão para ser
julgado, enforcado, enterrado.
É por isso que achamos “O assassinato de Jesse James pelo covarde
Robert Ford”, com os brilhantes Brad Pritt e Casey Affleck, e “Os
Indomáveis”, com os brutos e definitivos Russel Crowel e Christian
Bale, não mais uma retomada do faroeste, mas a seqüência de uma paixão
cultural, onde temos acesso à aventura, o risco, a dor, e a alegria de
vivermos com grandeza na terra hostil. Visite esses filmes como se
fosse a derradeira tarefa sobre a terra. E veja se esses grandes
atores, que nos assustam e nos deslumbram, não fazem parte da linhagem
fundada por John Wayne e Gary Cooper, e que permanece viva, porque o
mundo não mudou de fato. Ficou apenas mais denso, mais profundo. As
balas não ricocheteiam mais. Elas explodem no corpo exausto, mas ainda
vivo.
Bom e velho oeste: agora você já sabe onde me encontrar.