Leonel Brizola lutou praticamente só contra a destruição do Brasil, o
paÃs inaugurado em 1930 e devastado a partir de 1964. Nasceu como
cidadão quando foi testemunha, ainda no colo da mãe, do assassinato do
seu pai, guerreiro da revolução de 1923, que fora desarmado e remetido
para casa e perseguido pelos tiranos que tinham jurado a paz das Pedras
Altas. Nasceu como polÃtico em 1945, quando Getúlio Vargas foi
destituÃdo por um golpe militar, e ajudou a fundar o PTB. Morreu
testemunhando o estrangulamento total da nação a qual serviu como
ninguém, como o primeiro - e, portanto, jamais o último - dos patriotas.
Nei Duclós
Leonel Brizola lutou praticamente só contra a destruição do Brasil, o
paÃs inaugurado em 1930 e devastado a partir de 1964. Nasceu como
cidadão quando foi testemunha, ainda no colo da mãe, do assassinato do
seu pai, guerreiro da revolução de 1923, que fora desarmado e remetido
para casa e perseguido pelos tiranos que tinham jurado a paz das Pedras
Altas. Nasceu como polÃtico em 1945, quando Getúlio Vargas foi
destituÃdo por um golpe militar, e ajudou a fundar o PTB. Morreu
testemunhando o estrangulamento total da nação a qual serviu como
ninguém, como o primeiro - e, portanto, jamais o último - dos patriotas.
LEGALIDADE - O vasto desenho do seu rosto estava escancarado num painel
em frente à minha casa, no Colégio Santana, em Uruguaiana, para onde
acorriam os eleitores naquele distante 1958. Simpatizei com aquela cara
boa e limpa e, aos 11 anos de idade, subi no muro da minha casa e
berrei seu nome o dia inteiro. Ele foi vitorioso nessas eleições para
governador, quando mudou o paÃs. Estatizou a multinacional que
monopolizava as telecomunicações do Rio Grande do Sul, fundou uma
escola rural a cada cinco quilômetros de estrada e quando terminou seu
mandato era o mais importante e prestigiado polÃtico do Brasil. O
presidente americano John Kennedy ficou irritado com ele, que tinha
pago um Tamandaré (um cruzeiro) para ter de volta a CRT, a Companhia
Riograndense de Telecomunicações. Tinha coragem e tinha grandeza.
Quando estourou o movimento da Legalidade, improvisamos um quartel no
quintal da nossa casa. Empilhamos os estrados que serviam de suporte
para as bolsas comercializadas por nosso pai e colocamos bandeiras em
cima dessa pilha. Convocamos todos os homens abaixo dos treze anos de
idade. DistribuÃmos as armas: paus, pedras, cabos de vassoura. Estas,
eram as espingardas que colocamos a tiracolo para montar guarda.
Enquanto Brizola fazia sua campanha de mobilização por uma rede
radiofônica a partir do porão do Palácio Piratini, nós nos revezamos,
por uma longa semana sem aula, mantendo-nos firmes contra os golpistas.
Foi nosso exercÃcio de cidadania: uma representação da mobilização
armada . Milhares de pessoas moradoras do campo vinham lotando
caminhões e carroças para se alistar. E nós, garotos, da cidade,
estávamos lá. Crescemos com aquela vitória. Levamos essa disposição
para as ruas em 1968. Depois, invadimos as redações com nossa fúria,
com nossa ética, com nossa vontade de reverter a guerra.
ANISTIA - Quando voltaste do exÃlio vieste até aqui em Florianópolis,
Brizola. Eu trabalhava em propaganda naquela época. Encostei
rapidamente o carro na calçada e fui te conhecer pessoalmente. Apertei
tua enorme mão e a todos atendias com teu garbo, teu perfil de
cavalheiro, tua grandeza, teu carisma. Olhaste rapidamente para mim e
sentiste que eu não estava disponÃvel para a polÃtica partidária.
Compreendeste, sem eu te falar nada. Eu não podia te abraçar, Brizola,
porque o sucateamento do Brasil já estava na minha carne, já tinha me
ferido profundamente e eu só fui te conhecer, mas não me alistar,
companheiro leal e lÃder da vida que compartilhamos tão à distância,
mas neste mesmo território nacional de tanta luta. Virei depois, além
de teu correligionário - sempre voto no PDT - teu crÃtico, pois não
entendia como puderam te trair tanto, Brizola. Como no samba, foste
traÃdo, mas não traÃste jamais. Porque esse era teu destino, Brizola,
servir de rocha à beira mar, servir de modelo para a nação, quando
encarnaste o verbo Brasil, esse verbo tão pouco conjugado e que precisa
ressuscitar. Por que perdemos uma vida inteira, comandante, para tentar
resgatar o que nos foi roubado quando ainda éramos tão moços? Éramos
crianças quando foste expulso, tu e teu rosto de quase menino, tão
determinado quanto um guerreiro pode ser. Por que perdemos aquela
eleição de 89, Brizola? Consciente da minha total falta de importância
polÃtica, mesmo assim enviei uma carta para ti que ninguém te entregou,
assim como não te entregaram tantas cartas de trabalhistas apavorados
com o engodo Lula e com a sagacidade da direita. Falei que ias perder a
eleição por causa de São Paulo, Brizola. Aquele Airton Soares, quando
soube da minha preocupação, pois enviei também uma carta a ele, me
telefonou, sondando alguma contribuição financeira, pois eu trabalhava
para uma empresa naquela época. Perdeste, Brizola, porque teus aliados
eram fracos e não estavam à tua altura. Perdemos contigo, mas
continuaste de vela enfunada, capitão de um navio que jamais será
derrotado definitivamente.
LEGADO - Mas nós te criticávamos porque assim nos formaste, comandante,
porque foi assim que aprendemos contigo. Não a crÃtica dos verdugos que
acabaram te empurrando para fora da polÃtica, apesar de tanta
resistência. Não esses que agora lamentam da boca fora e esfregam as
mãos de felicidade sinistra. Vi a noticia da tua morte pela Globo,
Brizola, esse monstro que devorou o Brasil e agora clona o paÃs na sua
novela Celebridade, numa desfaçatez sem tamanho, esse monstro
endividado até o osso, sugador de recursos públicos, incompetente e que
tentou te roubar uma eleição, a de governador do Rio em 1982, Brizola.
Todo mundo viu como derrotaste o monopólio, querido amigo que agora nos
deixa para todo o sempre. Como enfrentaste as câmaras e lutaste por uma
democracia que afinal não veio. Voltamos à ditadura, Brizola. A mesma
que te viu nascer, naquela década de 20 tão importante para ser
estudada. É a mesma ditadura, querido amigo. Eles entregaram o paÃs,
endividam até o osso, pegam dinheiro emprestado sem parar para no fim
entregar toda a soberania. Desces à terra como o maior patriota deste
paÃs ainda vivo, Brizola, porque não deixaste morrer. Teu nome começa
com as mesmas letras de Brasil. Nos ensinaste a conjugar esse verbo, e
vamos conjugá-lo todos os dias da nossa vida. Queremos ação,
comandante. Não teremos mais tua análise, teu texto, tua advertência,
tua lucidez a serviço da honestidade e da nação. Mas temos teu exemplo.
Temos teu corpo, comandante, em nossas mãos precárias. E te depositamos
no solo da terra amada com todo o mar infinito em nossos olhos. Agora
somos tu, Brizola. Agora somos o sonho que carregaste em vida e que
iluminas, bem posto na eternidade. Mesmo teus inimigos terão que se
curvar. Mesmo teus falsos amigos terão agora que lamentar. Mas o povo
te carregará no coração como um fogo sagrado que nada nem ninguém
jamais apagará.