Atulhadas de imagens, nossas mentes selecionam o básico para a
sobrevivência. Formatamos uma rotina compatível com nossas condições
cardiovasculares. O olho é traiçoeiro e só enxerga o que está
acostumado a ver. É por isso que alguns cineastas, sabedores desse
vício, conseguiram criar imagens de impacto usando uma cena familiar
instalada num entorno diferente.
Nei Duclós
Na multidão do metrô, alguém me cumprimenta com entusiasmo. O rosto
é familiar, mas não atino quem seja. Retribuo, meio sem jeito, o que é
imediatamente percebido. No dia seguinte, quando vejo a mesma pessoa me
dando o troco do cafezinho, que costumo tomar sempre no mesmo lugar,
vislumbro o tamanho da gafe.
Eu identificava o caixa com o ambiente onde ele se situava, e
quando encontrei o mesmo sorriso num espaço urbano diferente, deslocado
da minha percepção habitual, não reconheci. A sorte é que não houve
ressentimento. O amigo da cafeteria entendeu perfeitamente. Não por
gentileza profissional, mas pelo esforço de tornar prazeroso o momento
em que costumávamos encerrar o intervalo do dia. Por distração ou por
força de hábito, eu perdia a chance de me comportar à altura da
qualidade pessoal que me cercava.
Esse crime tem uma causa. Atulhadas de imagens, nossas mentes
selecionam o básico para a sobrevivência. Formatamos uma rotina
compatível com nossas condições cardiovasculares. O olho é traiçoeiro e
só enxerga o que está acostumado a ver. É por isso que alguns
cineastas, sabedores desse vício, conseguiram criar imagens de impacto
usando uma cena familiar instalada num entorno diferente. É clássica a
imagem da Estátua da Liberdade semi-enterrada na areia, no primeiro
“Planeta dos Macacos”.
É impossível esquecer Charlton Heston, que se foi recentemente,
levando consigo o segredo de encarnar personalidades históricas à
altura da grandeza com que são lembradas. Ao se ajoelhar diante do
símbolo de uma civilização que se auto-destruiu, o ator inesquecível
nos transportou para o horror do remorso. As ruínas de algo muito
próximo, que se misturam à paisagem de uma praia perdida, assombram a
cultura visual da nossa época. É assim com inúmeros outros exemplos.
O assassinato de Janeth Leigh no momento do banho em “Psicose” se
transformou num paradigma. Nada mais trivial do que uma ducha, um corpo
visto por detrás da cortina, cabelos molhados, gotas escorrendo pelo
corpo. A ação do assassino que ninguém vê, a montagem que retalha a
mulher junto com a faca, os gritos, a música, intensificam até a
demência o que deveria ser corriqueiro. Depois dessa cena, o suspense e
o terror jamais foram os mesmos. Hitchcock e sua equipe nos assustaram
ao mudar a natureza do olhar. Espiar mulher no chuveiro deixou de ser
um expediente meramente erótico. Virou atentado.
Mas não só de sustos vivem as imagens poderosas. Marlene Dietrich
sentada no banquinho em “O anjo azul”, ou Marilyn Monroe esvoaçando sua
saia branca no vento encanado do metrô em “O pecado mora ao lado”,
participam desse deslocamento do familiar para o insólito. O truque é
fazer com o que o ato banal de sentar aconteça no palco de um cabaré,
com a protagonista usando uma roupa que despe o olhar dos espectadores.
Ou usar a obviedade do vento gerado pelo movimento dos vagões para
arejar o desejo exposto da diva.
Não só o cinema cria impacto visual. O jornalismo também deixa suas
marcas, que definem nossa época. Os aviões mergulhando na presença
“natural” das Torres Gêmeas, a forma corriqueira do cogumelo
identificando o pesadelo nuclear, as feridas de napalm na infância
vietnamita em pânico, são imagens que encheram nossas retinas de
assombro. Serão lembradas muito tempo depois que formos embora.
Poderão perguntar o que não conseguimos esquecer fora dessa
indústria visual que nos cerca. Eu selecionaria algumas lembranças:
Porto Alegre vista no crepúsculo quando eu voltava do pampa para
decidir o rumo da minha vida; a mãe fingindo que varria a calçada
quando eu chegava de viagem para avisá-la que abraçaria o jornalismo; o
pai, que daria um pulo na cidade, depositando um revólver 38 em cima da
mesinha de madeira do acampamento, e recomendando que mandasse bala em
quem invadisse nossos redutos sem convite; São Paulo em abril, vestida
de ouro da luz da tarde quando lá estive pela primeira vez; o mar visto
da saída do túnel no Rio de Janeiro; as gaivotas sobrevoando o centro
de Florianópolis antes do aterro.
Tudo isso faz parte de um acervo pessoal de impacto, em que
momentos muito próximos e banais se transformam na síntese de
mistérios: a vida como um presente, a memória como um sonho eterno.
Foot notes: Crônica publicada no dia 27 de Abril de 2008 na revista Donna DC, do Diário Catarinense.