“Horizonte de esgrimas”, de Mario Chamie e “O Mundo como Idéia”, de
Bruno Tolentino são livros dos dois mais importantes poetas do Brasil.
Há outros poetas, também fundamentais, o que seria desnecessário citar,
mas a confusão crítica é tanta que deve-se colocar tudo preto no
branco: Ferreira Gullar, Hilda Hilst. Prefiro Chamie e Tolentino pelo
que conseguem construir, pela proposta das suas intervenções.
Nei Duclós
“Horizonte de esgrimas”, de Mario Chamie e “O Mundo como Idéia”, de
Bruno Tolentino são livros dos dois mais importantes poetas do Brasil.
Há outros poetas, também fundamentais, o que seria desnecessário citar,
mas a confusão crítica é tanta que deve-se colocar tudo preto no
branco: Ferreira Gullar, Hilda Hilst. Prefiro Chamie e Tolentino pelo
que conseguem construir, pela proposta das suas intervenções.
São diferentes um do outro, claro. Chamie é o poeta de poetas, o
inventor de uma rede, o compositor de inovações que se estendem ao
infinito, sem jamais demonstrar cansaço. Chamie é alquimia, Tolentino é
arquitetura. Chamie é um processo, Tolentino é uma Obra, a mais bem
sucedida por conseguir tornar-se próxima da própria ambição.
Tolentino construiu um castelo, Chamie uma cidade. Para habitar
Tolentino, só com brasões herdados ou fazendo uma visita de turista. O
detalhe é que o anfitrião jamais aparece. Ele se recolhe nas passagens
secretas da sua torre e lá comporta-se muito mal, como um ogro
condenado à forca. Chamie criou uma infra-estrutura, estendeu ruas,
calçadas e pontes e administra sua urbis com o dedo em riste. Você
cruza Chamie, e fala com ele, e de lá sai transformado.
Chamie é mestre de Avis, o burguês que virou rei, Tolentino é Dom
Sebastião, o rei que virou mito e jamais aparece, mas deixa atrás de si
uma coleção de monumentos imaginários. Em Chamie, percorremos uma
avenida de atrações e caímos na tentação da poesia graças à sua oficina
exposta em vitrines claras.
Dois impérios, um industrial e outro pertencente à arte da cavalaria,
estocam a poesia brasileira derramada em milhões de poetas anônimos.