Nei Duclós

FALSO PACIFISMO [1]

Posted by Nei on Sep 09, 2008 - 08:07 PM

Cinema [2]

A ascensão do candidato democrata Barak Obama na campanha eleitoral americana coincide, no cinema, com uma série de filmes que pretendem enterrar a era Bush, a tirania gerada a partir do atentado de 11 de setembro de 2001. Existem filmes que se dedicam aos bastidores da mídia e da política, como "Leões e Cordeiros", do militante Robert Redford, uma denúncia do oportunismo alimentando os conflitos fora das fronteiras. Ou "War, Inc.", de Joshua Seftel e roteiro de John Cusack, baseado no livro sobre economia de choque da jornalista canadense Naomi Klein, um escracho contra a manipulação corporativa da guerra do Iraque. Mas o tema mais recorrente é a volta dos bravos rapazes de um front duvidoso para a América arrasada economicamente.
Nei Duclós

A ascensão do candidato democrata Barak Obama na campanha eleitoral americana coincide, no cinema, com uma série de filmes que pretendem enterrar a era Bush, a tirania gerada a partir do atentado de 11 de setembro de 2001. Existem filmes que se dedicam aos bastidores da mídia e da política, como "Leões e Cordeiros", do militante Robert Redford, uma denúncia do oportunismo alimentando os conflitos fora das fronteiras. Ou "War, Inc.", de Joshua Seftel e roteiro de John Cusack, baseado no livro sobre economia de choque da jornalista canadense Naomi Klein, um escracho contra a manipulação corporativa da guerra do Iraque. Mas o tema mais recorrente é a volta dos bravos rapazes de um front duvidoso para a América arrasada economicamente.

Dois filmes, com antecedentes ilustres, marcam essa tendência: “Stop Loss – A Lei da Guerra” (2008), de Kimberly Peirce, sobre o Iraque, e “Harsh Times -Tempos de Violência” (2005), de David Ayer, sobre o Afeganistão. Seus modelos são antigos sucessos, como “Nascido em 4 de julho” (1989), de Oliver Stone e “Amargo Regresso” (1978), de Hal Ashby, sobre o Vietnã. Ex-combatentes desamparados mergulham em pesadelos e horrores. Se a guerra não se justifica (Vietnã), ou se é “necessária” (Iraque), o que essas obras destacam são a sobrevivência dos valores da América em meio aos erros imperdoáveis dos mandatários.

No fundo, os motivos da carnificina não importam. Os Estados Unidos continuam enviando tropas para onde bem entenderem, já que as críticas coniventes acabam reiterando o que pretensamente condenam. O que vale é cuidar dos rapazes, para não desmoralizar o sistema, acima das gestões presidenciais. Os mariners que se afogam em álcool e violência no filme de Kimberley Pierce precisam de apoio, de colo. Não se deve dar as costas para os heróis, senão eles fatalmente vão morrer no final, como acontece com o personagem Jim Davis, interpretado por Christian Dale em “Tempos de Violência”. É preciso encontrar motivos para a América não perder seu foco, o de exemplo mundial de correção, poder e ética.

O perigo é a produção de filmes como “No vale das sombras” (2007), de Paul Haggis, com Tommy Lee Jones e Susan Sarandon. A história do bom rapaz que virou torturador, um assassino de cidadãos desarmados no Iraque, e que ao voltar é assassinado pelos companheiros de quartel, é uma denúncia difícil de engolir, para os padrões imperiais. Significa que o mal está dentro de casa e não fora dela. Que existem interesses que passam por cima da cidadania e transformam pessoas pacíficas em bandidos.

O mesmo David Ayer, que em Harsh Times pune o protagonista suicida incapaz de retomar a guerra num novo ambiente, a Colômbia, volta à carga num impressionante relato sobre a polícia de Los Angeles, “Os reis da rua (Street Kings)”. A exemplo de “O Poderoso Chefão III”, de Francis Ford Coppola, que aponta o sistema legal como a maior de todas as máfias, a nova obra de Ayer coloca o herói americano a serviço involuntário de grandes interesses. O verdadeiro poder que joga todo mundo na lama tem a cara inocente das pessoas confiáveis. Eles abanam do palanque e fingem identificar alguém na multidão. É o velho truque dos demagogos.

Quando apontam, sorridentes, para o indivíduo virtual, que não existe, estão enxergando apenas a massa de manobra para o que jamais confessam inteiramente. O talento deve dar o flagrante com antecedência para não lamentar depois que o estrago está feito.

Foot notes: Crônica publicada no dia 9 de setembro de 2008 no caderno Variedades, do Diário Catarinense.

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