A complicação, em Godard, é fruto da ética. O assunto amor foi
amarrotado pela indústria que aprisiona as almas e para encontrá-lo de
verdade é preciso mais do que um travelling sobre o bosque que guarda
os vestígios de uma antiga batalha, mais do que um passeio noturno na
chuva, na noite e no inverno. É preciso tomar nota à margem da produção
em massa, para que o tema se revele na sua essência, fora dos limites
impostos pelo desfecho das guerras. É onde o humano sobrevive, de
costas para o comércio dos gestos, que o protagonista busca o pássaro
arisco de sua aventura mental.(Ensaio sobre o filme "O Elogio do
amor").
Nei Duclós
O amor se opõe ao estado, e as idéias, ao Império. Para que o amor
exista, para que afirme a História encarnada na individualidade, para
que não faça parte do poder global que nos devora, é preciso pensar
sobre ele e pensar é criar cultura: uma cantata, uma novela, um filme,
uma ópera.
No filme de 2001, O elogio do amor, Jean-Luc Godard segue os passos de
um pesquisador em volta de seu projeto, que ainda não tomou forma, já
que tateia as formas do seu objeto de estudo, envolvido com uma atriz
que se recusa a colaborar, um financiamento que enfrenta a burocracia,
testemunhas que mercantilizam suas memórias, laboratórios de
interpretação frustrantes, diálogos em labirintos, encontros dispersos.
A complicação, em Godard, é fruto da ética. O assunto amor foi
amarrotado pela indústria que aprisiona as almas e para encontrá-lo de
verdade é preciso mais do que um travelling sobre o bosque que guarda
os vestígios de uma antiga batalha, mais do que um passeio noturno na
chuva, na noite e no inverno.
É preciso tomar nota à margem da produção em massa, para que o tema se
revele na sua essência, fora dos limites impostos pelo desfecho das
guerras. É onde o humano sobrevive, de costas para o comércio dos
gestos, que o protagonista busca o pássaro arisco de sua aventura
mental.
Quando foi que perdemos a capacidade de enxergar? pergunta Godard. Foi
quando chegou a televisão e focou os acontecimentos, ou quando o cinema
industrial criou uma rede gigantesca e profunda que ensina as massas a
ver. Como voltar a ver? Mergulhando no processo que gera as idéias.
Quando vemos algo a que atribuímos ineditismo, quando vemos uma
paisagem que decidimos ser nova, estamos é nos referindo ao que já
conhecemos, portanto, quando pensamos numa coisa, no fundo estamos
pensando em outra, diz Godard. É essa extrema sinceridade, esse
congelamento, ou essa câmara lenta sobre como nos comportamos diante da
realidade, que ele carrega como apanhador de estrelas cadentes.
Sim, tudo é poético em Godard. Isso não quer dizer que ele poetize suas
imagens (a imagem não fala, segundo ele), ou busque a poesia na sua
travessia. Ele é poético porque não desiste de uma idéia, a de que
somos anteriores ao mundo transformado em mercadoria. Também não quer
dizer que ele faça parte da desmistificação ideológica do capitalismo,
que isso já provou o quanto é traiçoeiro. Ele busca na literatura, na
experiência escrita dos grandes autores, a chave para trazer de volta a
humanidade perdida.
Para isso, não se entrega à felicidade que possa existir nas
descobertas, nem se deixa abater pela tristeza que há na verdade. Ele
palmilha o terreno de virtudes soterradas, corrige homenagens
excludentes, procura recuperar o talento perdido em afazeres brutos, e
olha para a História que nos acompanha nas palavras, nas paisagens, sem
que notemos.
A longevidade de Godard e sua vasta e complexa obra são privilégios dos
seus contemporâneos e um farol eterno para os que virão. Nossa época
não será lembrada por nada que sai nos balanços de fim de ano, de
década ou de milênio. Ficará conhecida como o tempo em que Godard
esteve filmando sobre a Terra.
Dessa luz é feita nossa grandeza, tão distante quando nos afastamos de
Godard, e tão próxima quando vemos mais um de seus filmes antológicos.
Viva Godard e seu legado: a humanidade que perdemos e que ele
reconstitui com seu artesanato de ourives, seu olhar de águia noturna,
sua paciência de mestre que não dá trégua, não permite defecções e que
ama sem vender seu coração.