Todos os personagens são impressionantes. A avó gorda e com imensa
cabeleira, ágil como uma gata e que sabia todas as lendas da Rússia de
cór. O avô ruivo e horrível, que o açoitava todas as semanas e que o
ensinou a ler. A mãe ausente, que o deixou para trás, viúva que casou
com um agiota e morreu de fome e desgosto. Os irmãos recém nascidos
mortos. O mestre tintureiro cego, que era perseguido pelos tios e
primos de Gorki, que deixavam os dedais em brasa para ele se queimar. O
químico que foi seu primeiro amigo e que acabou expulso pelo avô. A mãe
do padrasto, que se vestia toda de verde e tinha também a cara e os
dentes da mesma cor. E assim por diante.
Nei Duclós
O mar da mediocridade tomou conta das livrarias, e não é apenas
auto-ajuda. Tudo está contaminado pelo texto ruim e pelo marketing.
Chega 2008 e chovem lançamentos sobre cem, duzentos, trezentos anos de
tudo o que aconteceu. Dinheiro público cacifa as maiores barbaridades.
Você abre livros bem fornidos, luxuosos e não consegue chegar ao fim de
uma frase. É tétrico.
Os best-sellers, em sua maioria, douram a pílula amarga da
ideologia fascista triunfante e seduzem com suas carcaças milionárias,
com a consistência textual do papel crepom. Os neo-romancistas se
esmeram em baixarias mais vis, pura apelação comercial, embalados pelo
terror da indústria de entretenimento ditada pela era Bush, em que tudo
virou assunto dos países baixos (da cintura até os pés) e o pensamento,
quando tem vez, é para reiterar posições políticas consagradas. Mas há
exceções. Máximo Gorki, por exemplo.
Sim. Podem dizer o que quiserem de Gorki. Que ele passeava com
Stalin na sua casa de campo, que foi o fundador ou o guru do realismo
socialista e outras coisas. É moda desmerecer o gênio. Deve ser gostoso
cagar em cima do talento, senão não haveria tanta gente dedicada a esse
ofício. Pois tudo isso não importa. Tudo o que enterra ou celebra Gorki
politicamente não passa de firula, lantejoula. O que vale é seu texto,
magistral, enxuto, conciso, mortal, deslumbrante principalmente em
Infância, lançado o ano passado pela Cosac & Naify, traduzido por
Rubens Figueiredo (que fez o prefácio), e com posfácio de Boris
Schnaiderman.
Não gosto de fazer resenha. Dou de barato que o leitor deve ter
lido ou deveria ler o livro que comento, por isso parto sempre para uma
área pessoal, desconhecida, a princípio, até para mim. Essa é a graça
do ensaio. Você sabe onde começa, mas não onde termina. Aqui, vou fazer
uma exceção. Vou relatar algumas cenas de Infância, para tomar o pulso
do que me deslumbrou nos dias mais recentes, em que economizei páginas
para espichar a alegria de ler algo realmente importante. Vou evitar
ser o chato que conta o filme, mas às vezes não dá para segurar.
A primeira cena do livro é a morte do pai do narrador, que coincide
com o nascimento do seu irmão, parido pela mãe de luto e em desespero.
Há o funeral paterno (em que Gorki se preocupa com duas rãs que são
enterradas junto com o caixão) e a viagem imediata para a cidade natal
da mãe. A criança morre e é carregada numa pequena caixa no camarote do
vapor que singra o rio Volga. No recinto sinistro, estão a avó, a mãe e
ele, o menino Aléksiei, mais tarde “Máximo, o Amargo”. A Rússia gelada
e chuvosa, o povo em tremendo sofrimento, a família partida e
enlouquecida pelas brigas internas começam então a desfilar no livro
onde cada frase é um punhal e cada parágrafo contém a grandeza do
humano, desaparecido hoje graças ao trabalho dos medíocres no poder.
Gorki ofereceu livro de contos de estréia para várias editoras e
foi recusado por todas. Quando conseguiu publicar, houve um estouro.
Tornou-se popular e fez amizade com os maiores escritores da época,
como Tchecov e Tolstoi (que coisa essa Rússia incomparável, esse país
que nos deu os maiores gênios da literatura, tudo num mesmo espaço de
tempo!). Sua infância assustadora e sofrida gerou um suicida, que ao
tentar se matar estourou um pulmão, adquirindo então tuberculose, que o
perseguiu para o resto da vida. Nas páginas de Infância, vemos como se
formou esse caráter onde a inocência duela com a culpa, a vítima dos
açoites afia sua capacidade crítica, a travessura prepara a
independência e a paisagem hostil inspira um escritor admirável.
A segunda cena impressionante é a morte do ciganinho, agregado que
fora encontrado ainda bebê na frente da casa dos avôs de Gorki, e que
foi esmagado por uma cruz pesadíssima, quando esta era carregada do
quintal para a igreja. A morte coroa uma série de eventos que definem o
perfil do cigano e tem o impacto de uma bala perdida. Não sabemos de
onde vem. Pois vem desse texto certeiro, esse estopim de chumbo grosso,
atirado com fina pontaria.
Todos os personagens são impressionantes. A avó gorda e com imensa
cabeleira, ágil como uma gata e que sabia todas as lendas da Rússia de
cór. O avô ruivo e horrível, que o açoitava todas as semanas e que o
ensinou a ler. A mãe ausente, que o deixou para trás, viúva que casou
com um agiota e morreu de fome e desgosto. Os irmãos recém nascidos
mortos. O mestre tintureiro cego, que era perseguido pelos tios e
primos de Gorki, que deixavam os dedais em brasa para ele se queimar. O
químico que foi seu primeiro amigo e que acabou expulso pelo avô. A mãe
do padrasto, que se vestia toda de verde e tinha também a cara e os
dentes da mesma cor. E assim por diante.
Quando o livro parece ter esgotado sua capacidade de nos
surpreender, algumas cenas sobre a adolescência do narrador nos trazem
novos personagens igualmente inesquecíveis. O filho do guarda-norturno
do cemitério, que fazia parte de uma gang juvenil de ladrões, o filho
espancado pela mãe alcóolatra quando não levava alguns copeques para
casa, entre outros, empurram o leitor para a situação limite do
narrador, testemunha da morte da mãe (que o espancou no dia do
desenlace) e da queda financeira de toda a família.
Como pode ter saído, de tanta miséria, um escritor como Gorki? Ele
mesmo responde. Diz que é importante escancarar as misérias do povo
russo, que assim mesmo consegue emergir com o que há de mais humano,
capaz de se superar apesar de tantas dificuldades. Uma lição para nós,
tão pessimistas em relação ao país que perde a soberania.
Mas o grande ponto de inflexão na vida de Gorki foi conhecer um
professor que prestou atenção no que ele realmente era e que soube
relevar seu espírito rebelde de adolescente, concentrando-se no que o
garoto tinha de mais significativo. Esse contato com um adulto que o
entendeu profundamente mudou sua vida e redirecionou seu rumo. Não
fosse esse cruzamento de duas personalidades, a alma indômita e o
mestre prudente e sábio, não teríamos talvez o grande escritor que
emergiu da Rússia profunda.
Comprem o livro e leiam. Ele faz parte da trilogia autobiográfica
do autor (os outros dois títulos são os famosos Ganhando meu pão e
Minhas universidades). Depois me digam: isso é ou não literatura, essa
arte em desuso, soterrada pela pontificação dos idiotas, que tomam
conta de tudo e acham que vão ficar impunes? O tempo, seus pulhas, o
tempo vai se encarregar de vocês. Longa vida ao gênio e ao talento.