Enjeitada pela universidade que a gerou, a obra de Carlos Aranha
(Castaneda) guarda desafios importantes para o futuro. Nela, há espaço
para o nagual, um lugar que a avalanche descartável não atinge.
Enquanto isso, ele é fonte (jamais citada) de inspiração para inúmeros
filmes e livros. Pois quem leu Castaneda sabe de onde George Lucas
tirou a idéia da Força e de todos os ensinamentos dos Jedis.
Nei Duclós
Sabor de picanha criado em laboratório; ideologias sob medida;
religiões de resultados; máquinas que não duram um semestre: o conceito
de descartável contaminou todas as atividades humanas e chega com força
na literatura, na moral, nos princípios. Nacional e mundial são
palavras obsoletas, devoradas pela idéia de global, que significa não
ser de lugar nenhum. O único lugar habitável é o dinheiro.
Memória, poesia, sonho também ocupam a vitrine de badulaques. Com
um agravante: descobriram o DNA da emoção. O poder seduz e vampiriza
almas para atingir a essência. O real é apenas conseqüência. Se agora é
possível dominar a medula virtual que comanda o espetáculo, então o
circo todo está contaminado.
Essa situação nos remete a uma cena famosa, que consta no livro
“Porta para o infinito”, do brasileiro (nascido no interior de São
Paulo) Carlos Aranha, que assinava com o nome artístico Carlos
Castaneda. O mestre Juan Matus ensinava a idéia de nagual, que engloba
o incognoscível, e o tonal, que reúne tudo o que pode ser visto e
entendido. Deus está no nagual? perguntou o aprendiz. Não, disse o
bruxo, Deus também faz parte da mesa do tonal (e incluiu o saleiro no
acervo de objetos na frente do aluno, para representar o que havia
dito). Tudo o que imaginamos, tocamos, conhecemos está nesse círculo
apontado por Don Juan. O resto é o Outro Lado que nos cerca. “Você está
rodeado pelo infinito”, disse o professor para o aluno abismado.
Por um tempo (enquanto o autor vendia bastante) virou moda
esculachar Castaneda, como se ele fosse o símbolo dessa enganação que
tomou conta do imaginário e da cultura internacional. Clones
verdadeiramente vigaristas aproveitaram, para o mal, as revelações
desse antropólogo desconhecido, apesar de famoso. Por ser Aranha, ele
pertencia a tradicional família paulista (com um ramo no Rio Grande do
Sul). Aos 15 anos foi enviado para Buenos Aires e de lá para a
Califórnia. Um dia, confessou que o tio, político de grande prestígio,
seria candidato a presidente no Brasil. Mas Oswaldo Aranha, como se
sabe, foi colocado de lado em favor do marechal Lott, que perdeu para
Jânio Quadros.
Naturalizado americano, seguiu os conselhos do mestre e apagou a
história pessoal. Aos poucos, juntando os cacos de sua biografia
partida, a velha história de que teria nascido no Peru (sustentada pela
revista Time nos anos 60), cai por terra. Confundido com um homônimo,
devido ao Castaneda, o brasileiro Carlos facilmente virou hispânico, um
equívoco comum na percepção ianque. O sobrenome Castaneda fazia parte
de um código familiar e fora adotado pelo avô materno, que criou o neto
numa fazenda.
O tempo encarregou-se de transformar seus livros, que enfeixam uma
tese antropológica surpreendente, em mais um vetor de alienação e
auto-ajuda. Tudo o que está revelado, como a sofisticada cultura de
povos ancestrais dos continentes americanos, e o pulo dado quando houve
a Conquista, acabou numa região de sombra.
Enjeitada pela universidade que a gerou, a obra de Carlos guarda
desafios importantes para o futuro. Nela, há espaço para o nagual, um
lugar que a avalanche descartável não atinge. Enquanto isso, ele é
fonte (jamais citada) de inspiração para inúmeros filmes e livros. Pois
quem leu Castaneda sabe de onde George Lucas tirou a idéia da Força e
de todos os ensinamentos dos Jedis.
Foot notes: Crônica publicada no dia 6 de maio de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense