
Nei Duclós
O filme nacional “O cheiro do ralo”, dirigido por Heitor Dhalia, que
divide com Marçal Aquino o roteiro baseado em livro de Lourenço
Mutarell, é sobre o Brasil jogado no lixo. O cenário reproduz uma
realidade econômica e social que já passou, fundada na indústria agora
obsoleta, nas fábricas que foram para o espaço, no escritório composto
de móveis, pisos, paredes e tetos que pertenceram a uma época de costas
para o humano. O concreto que cobre todo vestígio de natureza concede
apenas um escoadouro de matéria orgânica, de onde sai o fedor de uma
civilização perdida.
Muros altos e pôdres, todos pichados, em bairros abandonados, são o
cenário de estética monstruosa e coerente, pois as seqüências do filme,
somadas, formam uma galeria clássica de uma periferia que foi concebida
para a decadência e hoje cumpre seu destino ao abrigar calçadas sujas,
corredores escuros, apartamentos sinistros. Essa urbanidade pesada
envolve pessoas despossuídas, rostos derrubados, roupas velhas, gestos
exaustos. Algo se soma a esse entulho: os princípios morais, os
valores, os sentimentos. Os indivíduos cassados de sua cidadania são
liberados dos seus compromissos.
O comprador de inutilidades (subprodutos de laços humanos e sociais
que se esgarçaram), interpretado por Selton Melo, negocia a dignidade
alheia enquanto é tragado pelo esgoto moral de sua vida. Livra-se da
noiva e da gentileza profissional para abraçar uma obsessão que
aparentemente o liberta do vazio. Apaixonar-se pela bunda de uma
garçonete, interpretada por Paula Braun, é a saída que encontra para a
falta de sentido de suas rotinas. Mas ele está escaldado: sabe o perigo
que corre quando a emoção e a responsabilidade tomam conta. Isso
significará laços amorosos, cobranças, sofrimento. Tenta, então,
interpor o dinheiro numa relação que perde a graça.
E procura substituir o olhar permanente da consciência por um olho
de vidro, comprado na sua loja. Finge que esse olho falso é o do seu
pai, a ancestralidade inexistente da orfandade, que não deixou herança.
Sozinho no mundo, abandonado pelo Estado e a família, palmilhando ruas
excluídas, o personagem se entrega à podridão. Tem motivos de sobra
para decair cada vez mais em direção ao ralo: as pessoas do seu entorno
estão em piores condições, pois não conseguem o básico para a
sobrevivência e chegam para implorar alguns trocos em troca dos últimos
resquícios de humanidade que mantiveram (uma caixa de música, uma perna
mecânica, um relógio de bolso).
A ética, que é a relação incestuosa entre os sobreviventes e a
memória, não vale nada para o negociante frio que se desculpa pelo
cheiro ruim que inunda sua loja de badulaques. Sem leis que ordenem o
caos de uma economia na miséria, ele é a palavra final, o patrão da
humanidade rôta, o legislador com seu cinismo catequista (“a vida é
dura”). O filme não mostra o homem do prego revendendo o que compra de
maneira tão compulsiva. É um sistema de mão única, em que tudo parte do
indivíduo em pânico para a grande cloaca em que se transformou o país.
Quando todas as quinquilharias se esgotam, o devorador de almas
compra os corpos disponíveis, oferecidos como último ganho para o único
negócio possível dessa realidade terminal. O tumulto, o assassinato, o
berreiro são resultados naturais do ódio, do ressentimento, do desamor
represados. A merda literalmente transborda e toma conta do chão
coalhado de sangue. É o que resta de uma nação perdida, de uma
população derrotada, de uma cidade sem abrigo.
O que se salva é o cinema, radicalidade exposta e tratada como
comédia, quando, no fundo, é um drama amarelo-marrom que se apega à uma
das partes dos corpos retalhados. A admiração pela garçonete é a isca
para reacender o coração de pedra, mas a esperança não se consuma.
Assumir o cheiro, comprar o amor e o sexo, inventar uma ascendência são
gestos da maldade insuportável e desesperada. Quando enfim o
protagonista encontra e adquire o objeto de desejo, é eliminado pelo
que cevou na vida bandida, de onde não teve chance de escapar.