Não temos, no Brasil, ventos favoráveis constantes para que os talentos
possam cumprir destinos e vocações. Vivemos em espasmos, em premiados
que caem no esquecimento, em aplausos que o tempo cobre. Depende do
autor seguir adiante e é o que Tony Monti consegue fazer, mesmo agora,
desarmado do apoio inicial, quando chega ao seu segundo livro, O menino
da rosa (Hedra, 46 páginas).
Nei Duclós
Escrever literatura é um duelo de punhais num território dominado
pela pólvora. A desvantagem é enorme: não há sobrevivência aparente
para uma arte de armas brancas diante da capacidade do fogo inimigo. O
confronto retrocede até a arena mais oculta, pois se trata de manter
viva essa esgrima de lâminas curtas (letra, sílaba, palavra), que exige
suor e provoca ferimentos. É manter a sobrevida num condenado,
suportando o convívio desigual em relação à complexa cadeia de
explosões em volta - a indústria cultural e os cânones, os lançamentos
fulgurantes e a reprodução infinita dos mesmos, a percepção viciada e
indevassável, a leitura recorrente e o desprezo aos que procuram
emergir de alguma forma.
Ou o escritor se recolhe e imagina a luta, sabendo que não vai
derrotar a força que o exclui, ou sai a campo e encontra o deserto.
Mesmo que autor seja imediatamente reconhecido, como é o caso de Tony
Monti, que foi celebrado já no seu livro de estréia, O Mentiroso
(7letras, 2003), vencedor do projeto Nascente, da Universidade de São
Paulo em 2002. O impulso inicial vale , mas não é suficiente. Não
temos, no Brasil, ventos favoráveis constantes para que os talentos
possam cumprir destinos e vocações. Vivemos em espasmos, em premiados
que caem no esquecimento, em aplausos que o tempo cobre. Depende do
autor seguir adiante e é o que Tony Monti consegue fazer, mesmo agora,
desarmado do apoio inicial, quando chega ao seu segundo livro, O menino
da rosa (Hedra, 46 páginas).
Tony traz embutida uma postura pessoal que reflete o da sua geração
(ele está chegando aos 30 anos): as concessões não são importantes. Não
fazer concessões é o lugar comum mais desmoralizado depois do revés
sofrido pelas utopias. Não significa que os escritores agora aceitem a
derrota, e tenham desistido de redescobrir a vida na matéria bruta.
Simplesmente mudaram o foco, ou melhor, já nascem com outra embocadura.
É por isso, talvez, que inúmeros escritores nessa faixa de idade
trabalhem hoje em outro patamar, fora da linearidade que opunha
legitimidade e farsa, verdade e mentira, realidade e imaginação.
É que sua estratégia traz carregada um baú de emergências, para o
caso de a barra pesar. São mantos que espalham disfarces cada vez mais
freqüentes, como se a literatura cumprisse a sina apontada pelos
preconceitos e fosse realmente tudo mentira. O que decide um duelo de
punhais, que por natureza é feito de maneira franca e aberta, são os
detalhes especialmente que confundem o adversário. Tony se aprofundou
nessa arte, como revelam os contos do seu primeiro livro, e a
desconversa contínua do seu blog, o Exato Acidente (que costuma ser
batizado com outros nomes).
Essa brincadeira de esconde-esconde não é a fuga em direção a uma
arte superficial ou obscura. É a maneira de se chegar à essência do
drama, pois o que resta para um autor que chega a uma literatura que se
transformou num mega-negócio e que é cercada por milhões de pessoas que
estão escrevendo ao mesmo tempo sobre tudo, na rede múltipla da web
infinita? Restam sua partícula de vivência, seus verdes anos, seus
sonhos mais antigos, sua pessoalidade extravagante. Morando em casas
idênticas às de seus colegas, convivendo com o mesmo tipo de pessoas,
cercado por famílias numerosas que se repetem em gestos e tradições, a
originalidade está na linguagem raspada de toda espécie de “conteúdo”,
essa palavra mentirosa que tomou conta das mídias.
Fica mais claro se pegarmos o pequeno livro à unha, que de tão
curto pode ser lido sem queimar calorias. Em princípio, são memórias da
infância, escritas numa clareza do universo infantil, em frases que se
encadeiam na lógica realista dos olhos que enxergam pela primeira vez.
Mas é mais proveitoso ler como o enxugamento total da arte a que nos
referimos acima. Como se a briga feia que usa apenas punhais pudesse
ser representada por poucas linhas de um design essencial.
O resultado é um terreno baldio, onde caem frutos maduros
explosivos. O que vai ser quando crescer? “Aos quatro anos , eu queria
ser caminhão”. Que fim deu aquela garota que roubou seu coração no
Primeiro Grau? Ela volta ciclicamente, cada vez mais perto da vida
adulta, e marca encontros sucessivos para o resto da vida. Por que meu
nome escrito não me representa direito, como se na página ele fosse uma
outra pessoa? Nesse espaço pessoal, o mar tem cheiro e, a areia, gosto.
E o toque no braço da tia - um pouco mais velha -, era diferente quando
o atingia, não fazia o mesmo efeito do que o toque no braço da irmã.
É pouco para que seja visto como criatura no zoológico das
autorias? É o que Tony Monti tem, essa escassez que busca o brilho,
esse recuo que reage, esse disfarce que quebra a leitura e a transporta
para outras paragens. Por ser curto, o livro engana a pressa dos olhos
que acham já terem visto tudo. Não precisa ficar relendo, o autor se
entrega na primeira viagem. Mas é preciso ler de maneira decidida, pois
não haverá outra chance. Se o leitor passar impune, não poderá ver o
fio de água que a chuva verte pela fresta da grande janela da sala. Não
se enganará de casa na busca da primeira namorada. Não reconhecerá a
alegria no pai que sempre sorri e o leva para a praia.
Também não precisa cair na tentação de achar que se trata de prosa
poética. Poesia é outra coisa. Aqui o que existe é o fino da prosa. Não
pela espessura mínima do volume ou pela economia dos contos. Mas por
ser silêncio em tempo de gritaria, por ser voz em época de mesmice, por
ser dor, mesmo que só ofereça o curativo. Não que haja recados por
baixo da narrativa. O que há mesmo é prosa, finíssima, para ouvidos
fecundos. E uma autoria que se projeta em vôo circunflexo em meio à
tempestade de almas, em linha reta.
Foot notes: Esta resenha teve a valiosa contribuição da escritora Beth Fleury. Com sua leitura atenta, Beth apontou e solucionou uma série de detalhes que atrapalhavam o texto.