
Lembro o impacto quando vimos Mash, de Robert Altman, nos anos 70. E
qual seria esse assombro? A possibilidade de alguém exercer a
profissão, seja qual for (no caso, o exemplo limite de dois médicos de
guerra, interpretados por Donald Shuterland e Elliot Gould) como um
exercício responsável de arte. Ou seja, era possível criar no mundo do
trabalho, transformá-lo por meio da transgressão. Manter a alma
intacta, sem emporcalhá-la na submissão e na redundância. E transcender
o arrocho da sobrevivência, fazendo o que se gosta sem que isso
signifique lirismo ou utopia.
Nei Duclós
Lembro o impacto quando vimos Mash, de Robert Altman, nos anos 70. E
qual seria esse assombro? A possibilidade de alguém exercer a
profissão, seja qual for (no caso, o exemplo limite de dois médicos de
guerra, interpretados por Donald Shuterland e Elliot Gould) como um
exercício responsável de arte. Ou seja, era possível criar no mundo do
trabalho, transformá-lo por meio da transgressão. Manter a alma
intacta, sem emporcalhá-la na submissão e na redundância. E transcender
o arrocho da sobrevivência, fazendo o que se gosta sem que isso
signifique lirismo ou utopia.
Os protagonistas de Mash aprontavam todas, mas eram gênios em sua
arte. Com Roberto Altman, vislumbramos a possibilidade de sobreviver
sem cair no ramerrão dos horrores apontados por Chaplin em Tempos
Modernos. Chaplin denunciou, Altman praticamente nos libertou. Um sonho
que em parte se tornou possível, basta ver alguns nichos como os da
criatividade em informática ou em corporações focados no talento. E que
ao mesmo tempo denuncia sua distorção, pois o verniz das mudanças
serviu para nos arrochar em mais tirania, como vimos a partir dos anos
80 e principalmente dos 90.
As transformações foram apropriadas pela direita, do yuppie ao
metrosexual, e serviram para mais exclusão, sob a ilusão de que vivemos
hoje num paraíso de opções profissionais. O que se vê, na maioria dos
casos, e principalmente no Brasil, é exatamente o contrário.
Cristalizou-se o discurso da mudança, que serviu apenas para manter as
aparências e dar uma rasteira na vida que precisava se reinventar de
fato no mundo corporativo.
O trabalho como arte continuou em vários outros filmes do grande
diretor, que morreu há pouco, depois de longa e brilhante carreira:
Nashville, sobre o trabalho na música, A última noite, sobre o trabalho
no rádio, De corpo e alma, sobre o trabalho no balé, e que é de 2003, e
assim por diante. Neste filme, a bailarina se apaixona pelo cozinheiro,
ambos artistas em seus respectivos afazeres. Altman parece que faz
documentário, mas faz ficção, ou seja, cria os ambientes onde saem as
grandes ações humanas por meio do talento, da determinação e da ousadia.
Juramos que estamos vendo bastidores, mas os bastidores não existem,
o que há são os desdobramentos dos mesmos ofícios, tanto no palco
quanto atrás dele. No fundo, Altman segue à risca a máxima de que todo
filme é sobre cinema. Pois ele está mostrando o próprio métier: o que
aparece na tela é a imagem pelo avesso do esforço coletivo chamado
cinema.
Todo trabalho é estiva. O coreógrafo (mestre é quem enxerga o
detalhe) pede para a bailarina mostrar como rodar num trapézio, tocando
os pés no chão: o truque está na posição dos quadris. O recado é
direto: faça o que fizer, seja como um bailarino, um virtuose, um
grande cirurgião, faça arte. E fazer arte não é observar o resultado
final do esforço escondido de milhares de performances, mas sim
descobrir a sintonia entre a base e o vôo, a tinta e a obra-prima, o
acorde e o concerto, o tombo e a coreografia.
Cineasta revolucionário, Altman usa o diálogo concomitante para
gerar esses lugares onde todos estão envolvidos . Parece uma balbúrdia,
mas é simultaneidade das linguagens, o que só surgiu muito tempo
depois, no universo digital. Ele viu primeiro, ao inventar no cinema
essa superposição de falas na mesma cena. Tudo se perde na dublagem,
mas quem deve ver filme dublado? Absolutamente ninguém. A fala original
é metade do filme. Com esse expediente, Altman aponta para o que
acontece sempre no mundo do trabalho: todo resultado é fruto da
convivência coletiva de profissionais afins, que interagem em função
dos objetivos.
Foge, portanto, do ilusionismo pueril do trabalho como meta da
civilização ou do denuncismo estéril sobre os problemas em espaços onde
se luta pela sobrevivência. Propõe o trabalho como arte, não
obrigatoriamente de quem se envolve com o mundo artístico. Mr. McCabe
and Mrs. Hiller, por exemplo, com Warren Beaty e Julie Christie, é
sobre cabaré e pôquer no velho oeste coberto de neve. São dois
profissionais do lazer bruto por aquelas paragens no século 19. Não há
sentimentalismo, mas poucos filmes contém carga tão explosiva de
sentimentos.
É que Robert Altman conhece o caminho. Ele é o maestro que nos acena
para o trabalho edificante, fora dos conceitos tradicionais sobre o que
é humano, como a divisão entre cabeça e coração. É a pessoa inteira que
nasce nos seus filmes antológicos. Glória eterna ao grande cineasta.