
Nei Duclós
O Mal está na falta de empatia, diz o personagem psicólogo da série
produzida para a TV, Nuremberg, de 1999, de Yves Simoneau. Sentir-se
desconfortável entre as pessoas gera maldade, segundo essa abordagem. É
o que vemos diariamente. Não enxergar quem está ao seu lado ou à sua
frente, preparar o bote quando ele se mostra vulnerável, apostar no
pior quando se fala de alguém, são posturas recorrentes que tornam o
país insuportável. É tão explícito que falar disso chega a ser insumo
para mais maldade. Precisamos abrir mão de uma série de preconceitos
para ver o que vai sumir com o tempo. Não adianta lamentar depois a
oportunidade perdida, a de não ter lançado alguma ponte com alguém. É
difícil manter a integridade quando a má-fé toma conta dos debates, e a
falta de diálogo nos empurra para o isolamento. O mais difícil é que o
estoque de frustrações coloca uns contra os outros. O tempo passa e
nada restará a não ser ruínas. A não ser que a empatia que temos por
algumas pessoas se estenda para todo o gênero humano.
IMAGENS - Outra observação importante do filme (que tem muita
bandeirinha americana para o meu gosto, enquanto os russos, que
decidiram a guerra, são apresentados como fanfarrões) é que o nazismo
foi viabilizado graças à comunicação moderna. As imagens da coesão das
tropas em desfile, a oratória insana do líder, os signos tomando conta
das mentes, o espírito coletivo sendo conduzido para o ódio e a guerra.
Como antídoto, os filmes impressionantes sobre os campos de
concentração decretam a condenação dos algozes. Li montes de relatórios
sobre os acontecimentos, diz o promotor interpretado (mal) por Alec
Baldwin, mas só depois que vi esses filmes soube do que se tratava. A
diferença entre Baldwin e um ator de primeira, que é Anthony Hopkins ,
é brutal. Hopkins faz apenas uma cena importante em Amistad, de Steve
Spielberg. É advogado de defesa dos negros. O discurso tem bem menos
impacto do que o dito por Baldwin em Nuremberg. Mas enquanto Baldwin se
esganiça, deitando tudo a perder, Hopkins segura a cena de maneira
magistral. Um grande ator faz a diferença.
FRASES - Um filme vale quando todos os seus elementos estão bem
resolvidos. Os que citei acima e mais O Assalto, de David Mamet, deixam
vários pontos em falso. Mamet é um roteirista fantástico, autor de
frases ótimas. Vou citar algumas desse filme: "Sou tão silencioso
quanto uma formiga mijando em algodão. Todo mundo precisa de dinheiro,
é por isso que se chama dinheiro. Ele era bom antes de você nascer. O
cara foi salvo de uma bala porque carregava uma Bíblia no peito. Se
levasse também outra Bíblia na cara, estaria hoje contando a história".
Mas seu roteiro intrincado e cheio de furos estraga o filme, que tem
excelentes atores, a começar com Gene Hackman (tem ainda Danny de Vito
e Sam Rockwell). Assim mesmo, gosto de selecionar o que me agrada e e
de me debruçar sobre obras que ficam pela metade. Tudo o que é
imperfeito chama a atenção. Mas é claro que nada substitui uma
obra-prima.
NAVIO - Talvez essa seja a saída para o convívio com tantas pessoas
ao nosso redor. Enxergar o que melhor nos agrada, relevar as partes
fracas, ser generoso nos detalhes, apostar no sucesso alheio e esperar
reciprocidade. Se ela não vier, paciência. Você está no lugar exato: na
amurada de um navio, tentando ver quem se aproxima na neblina. São as
pessoas, com seus defeitos e qualidades. Bem-vindos todos a bordo. Mas
não usem o que nos aproxima para aprofundar o que nos afasta.