O problema é que o mundo transformado em mercadoria faz de tudo para
que as pessoas esqueçam a fonte da vitalidade: o exercício pleno do
estado de arte, da forma como bem entendemos. Não apenas o consumo
cultural, importante, mas não decisivo. O que vale é a criação, fruto
da transcendência que devemos buscar em vida. Não se trata de pegar um
filminho para o fim-de-semana (e sair comentando “a fo-to-gra-fia!”),
ou se reunir com os amigos para arriscar um banquete sob o fragor de
charutos e vinho (suspirar por lareiras não salva ninguém do tédio).
Nei Duclós
Ninguém nasce pronto, mas isso não convence os entrevistadores.
Eles precisam de pessoas à altura da brutalidade competitiva. É uma
ilusão: é impossível ter alguém que caiba no cargo sem fazer ruído, a
não ser que o pretendente seja um gênio do marketing e manipule seu
currículo de tal forma que o truque passe despercebido. Quando a
corporação se dá conta, o sol já está alto.
No fundo, todos se adaptam às situações e levam a vida inteira para
superar aquela força de inércia que nos prende ao humano e não permite
que viremos autômatos de uma vez por todas. É o coração quem manda, e a
razão, para complicar, não costuma obedecer. Somos seres culturais
misteriosos, capazes de fazer qualquer coisa para mimetizar a precisão
do relógio suíço, enquanto dormimos profundamente nas palestras de
incentivo.
Até existe compreensão, no mundo profissional, que tolera essas
limitações. Para aumentar a produtividade, reinventaram a sesta. Chefes
esclarecidos nanam os funcionários implantando redes para o descanso em
pleno expediente. Decidiram o dia do traje casual, aquela data em que,
no lugar do terno de luxo, as pessoas optam pelos tênis de marca. Não
existe informalidade no lugar onde se ganha o pão. Mesmo com incentivo,
o que se revela é a velha máscara de guerra. Tão eficiente que já faz
parte da natureza.
É por isso que existe perigo na aposentadoria. Sem essa casca, a
pessoa se descobre nua como veio ao mundo. Perde a importância, não tem
ninguém mais para enganar, as demandas somem e os horários voltam à
forma original do caos primordial. Os dias passam como tempestades de
verão. O eterno domingo é uma prisão definitiva. Na chamada melhor
idade, a compostura vai também para o saco quando se resolve levantar
os braços e vibrar as mãos ao som de “Mamãe eu quero”. Desde que a
velocidade da tecnologia superou a sabedoria acumulada dos anos, não se
sabe o que fazer com os velhos.
O problema é que o mundo transformado em mercadoria faz de tudo
para que as pessoas esqueçam a fonte da vitalidade: o exercício pleno
do estado de arte, da forma como bem entendemos. Não apenas o consumo
cultural, importante, mas não decisivo. O que vale é a criação, fruto
da transcendência que devemos buscar em vida. Não se trata de pegar um
filminho para o fim-de-semana (e sair comentando “a fo-to-gra-fia!”),
ou se reunir com os amigos para arriscar um banquete sob o fragor de
charutos e vinho (suspirar por lareiras não salva ninguém do tédio).
Trata-se de manter habitado o palácio interior, o único luxo
verdadeiro que dispomos. O importante é a resistência do espírito em
qualquer condição social. E isso se consegue longe das ilusões
corporativas, por mais gostoso que seja trabalhar com o celular na mão.
Ou longe mesmo das ilusões pessoais, como montar uma pousada na serra
só porque “gosta de gente”, como aconteceu com notório ator que
confessou o erro publicamente.
O buraco é mais fundo. É naquele canto, em que você cria o poder de
continuar vivo, a partir do que é e sabe e consegue superar, que se dá
a batalha.Vire um inventor, um criador, um artífice da cultura
imaginada e herdada e enfrente os entrevistadores com a cabeça erguida.
Você é, sim, um sobrevivente. Mas, se for tão habitado que pareça um
mar, estará perto da divindade. Quem poderá ameaçá-lo?
Foot notes: Crônica publicada no dia 8 de abril de 2008 no caderno Variedades, do Diário Catarinense.