É totalmente baseado num trecho das memórias de Sartre, “As palavras”
(Les Mots), o filme de Woody Allen “Dirigindo no escuro”, de 2002.
Nessa biografia da sua infância, Sartre imagina a mãe reclamando que
ele lia no escuro, ao que replica que “mesmo na escuridão poderia
escrever”. É antológica a autoflagelação de Sartre neste livro ao
mergulhar nas imposturas do menino órfão criado pelo avô. Numa de suas
maquinações, o garoto imaginava escrever, “mais cego do que Beethoven
foi surdo”, seu derradeiro livro. Os contemporâneos achariam um lixo,
mas os póstumos, uma obra-prima.
Nei Duclós
É totalmente baseado num trecho das memórias de Sartre, “As
palavras” (Les Mots), o filme de Woody Allen “Dirigindo no escuro”, de
2002. Nessa biografia da sua infância, Sartre imagina a mãe reclamando
que ele lia no escuro, ao que replica que “mesmo na escuridão poderia
escrever”. É antológica a autoflagelação de Sartre neste livro ao
mergulhar nas imposturas do menino órfão criado pelo avô. Numa de suas
maquinações, o garoto imaginava escrever, “mais cego do que Beethoven
foi surdo”, seu derradeiro livro. Os contemporâneos achariam um lixo,
mas os póstumos, uma obra-prima.
Woody Allen usa integralmente esse parágrafo (páginas 129/130 da
edição da Difel, 1967, quatro anos depois do lançamento de “As
palavras” na França), inclusive a metáfora de Beethoven, para contar a
história do cineasta que tem um surto psicótico e fica cego. Assim
mesmo, consegue fazer o filme, que é considerado uma droga. Mas os
franceses o salvam, acham que é genial. “Ainda bem que existem os
franceses” diz Allen. Não vi na internet nenhuma referência sobre a
ligação entre Sartre e Allen neste filme corrosivo, em que nem seus
aliados, os franceses, escapam.
Ler Sartre é entender a nossa época. Absolutamente obrigatório, é o
escritor que devassa as fantasias mais caras dos contemporâneos,
decompõe a arquitetura de alienações e instaura um narcisismo às
avessas que fez a fama de muita gente. Quer entender o narcisismo cool
de nomes notórios? Leia Sartre, está tudo lá.
Eles descobriram que podem se auto-imolar à vontade, sempre sairão
com uma grande frase que os redimirá. No fundo, confirmam o destino do
menino Sartre, tão devassado pelo cinqüentão memorialista. O superego
exposto no açougue empresta charme à arrogância intelectual, encapotada
sob mil mantos de informações seguras, citações, insights e tiradas de
impacto, repetidas até o enlouquecimento.
Justiça seja feita: nem sempre originais, normalmente tomadas
emprestadas, com citações do crédito, claro, e que vão desde “o mais
belo animal do mundo”, relacionado com Ava Gardner no seu esplendor,
até “é a economia, estúpido!” a resposta malcriada e de sinceridade
sartriana de um assessor do candidato Bill Clinton para os adversários
encarnados em Bush pai. Uma frase dessas pede uísque, charuto e um
olhar sampacu para o infinito. E a conseqüente desconstrução da cena,
pois é fundamental estar sempre à tona, para evitar o esquecimento das
novas gerações.
Sartre propunha-se, na infância, segundo o depoimento do adulto,
falar para o ano três mil. É o que sugerem seus seguidores, sempre na
maré alta da notoriedade, por méritos próprios ou não . Talvez haja
hoje tanta incapacidade intelectual que não se consiga preencher o
vazio que as gerações que ultrapassam agora os 60 anos vão deixando
pelo caminho. Então é preciso envelhecer rápido, como impunha Nelson
Rodrigues.
Não é por acaso que Nelson Rodrigues implicou com Sartre, ou
melhor, com a mentalidade subserviente dos brasileiros que ciceronearam
o grande escritor e filósofo na sua festejada visita ao Brasil (um
deles aparava os caroços de uma fruta que a celebridade cuspia, por
exemplo). Nelson talvez se sentisse incomodado com o sucesso das frases
de Sartre, famosas, como “o inferno são os outros, os homens esqueceram
a sua infância, o homem está condenado à liberdade”.
Nelson tinham as suas, igualmente brilhantes, mas de tão repetidas
hoje parecem ser a única produção de pensamento da humanidade, como
“toda unanimidade é burra” que pela exaustão age ao contrário do que
propõe, se transformando num hino à burrice.
Woody Allen abusa do talento com suas tiradas. Neste “Dirigindo no
escuro”, uma personagem pede para dar um Oscar a Haley Joel Osment pelo
conjunto da obra. (Osment foi o garotinho de seis anos de “Forrest
Gump”, e o menino de 11 de “O Sexto Sentido”, quando quase levou de
fato um Oscar). Outro elogia o sol da Califórnia e avisa que vai tirar
mais um câncer de pele. Em “O Escorpião de Jade”, o detetive diz que
tem tanto problema que um suicídio não daria conta do recado.
Acredito que não exista bom cinema sem os autores obrigatórios.
Quer dirigir um filme ou escrever um roteiro? Leia os grandes autores.
Jean-Paul Sartre na primeira fila.