O cinema é a soma de todos os talentos. Precisa interagir com a vida de
verdade, como está voltando a acontecer no mais comercial dos países. A
nós, cabe perguntar por que somos tão pobres em abordagens sérias.
Nossos filmes, com honrosas exceções, estão confinados ao deboche, à
miséria, à eterna mocidade, ao sexo fácil, à violência desmesurada. O
máximo que alcançamos é a brutalidade geral, a memória imóvel, o
relacionamento amoroso pautado pelo egoísmo. Às vezes, alguém acerta,
mas é raro.
Nei Duclós
Ela começa de forma inesperada. Tomamos as principais decisões, as
que influenciam o resto da vida, sem nos dar conta que já não somos
crianças. É o que diz um professor, interpretado por Robert Redford, no
seu filme “Leões e Cordeiros”, para o estudante que adotou uma postura
crítica que beira a indiferença. Virar as costas agora para o problema
político pode perpetuar o impasse e roer ainda mais a nação em
decadência, diz o mestre. O aprendiz escuta e cai em si.
No sexto ano da guerra do Iraque, com milhares de mortos no
passivo, e com uma crise econômica grave ameaçando explodir o consenso
financeiro global, Hollywood começa a se livrar da censura. Ou pelo
menos da forma obsessiva como encarava a luta contra o terror,
desencadeado a partir de 11 de setembro de 2001. Somos coniventes, diz
a jornalista interpretada por Meryl Streep, pois sabíamos de todos os
truques da manipulação. Assim mesmo, demos carta branca aos falcões.
Incentivamos a barbárie destacando líderes oportunistas e predadores,
que, sob o signo da revanche, inocularam o vírus mortal
anti-democrático.
Esse despertar tardio (a invasão do Iraque já dura mais do que a
Segunda Guerra, observa a jornalista) coincide com o fim da era Bush. E
é confirmado por outros títulos, que abrem janelas no sufoco das
posições irremovíveis. Estão mais disponíveis, pois saem do acanhado
circuito dos cinemas e ganham as dimensões mais confortáveis das
locadoras. “No vale das sombras”, de Paul Haggins, é sobre a culpa de
guerreiros de décadas passadas, que estimularam a juventude a entrar
num novo atoleiro. Hoje, paga-se um alto preço. A brutalidade no front
substitui os ideais que justificavam a invasão, e a camaradagem interna
se rompe pela implantação generalizada e não oficial da tortura.
O militar que tenta consolar Susan Sarandon, no papel da mãe do
soldado vindo do front para ser assassinado em casa, recebe de volta um
fuzilamento do olhar: é um dos momentos antológicos desta retomada do
clássico papel da Sétima Arte, o de refletir consciências e
influenciá-las pelo poder de sedução de seus protagonistas.
O terceiro filme que decreta o fim da falsa inocência é “Conduta de
risco”, do veterano Sidney Pollack, com George Clooney, o ex-galã de
televisão que virou artista de primeiro time do cinema adulto e, dentro
dos limites da nação poderosa, radical. O advogado corrupto é
despertado pelo surto de honestidade que acomete seu colega (Paul
Wilkinson), uma crise confundida com loucura. No mundo virado pelo
avesso, a moral precisa ser encarcerada, por ser perigosa. Ela força a
tomada de posição a partir do conhecimento.
O cinema é a soma de todos os talentos. Precisa interagir com a
vida de verdade, como está voltando a acontecer no mais comercial dos
países. A nós, cabe perguntar por que somos tão pobres em abordagens
sérias. Nossos filmes, com honrosas exceções, estão confinados ao
deboche, à miséria, à eterna mocidade, ao sexo fácil, à violência
desmesurada. O máximo que alcançamos é a brutalidade geral, a memória
imóvel, o relacionamento amoroso pautado pelo egoísmo. Às vezes, alguém
acerta, mas é raro.
Precisamos fazer filmes adultos, sob pena de continuarmos calados,
assistindo os outros. Amargamos a falta de representação de algo maior,
fruto da convivência amadurecida pelo tempo e pela dor. Ainda somos um
país que não se enxerga como deveria.
Foot notes: Crônica publicada no dia 1º de abril de 2008, no caderno Variedades, do Diário Catarinense.