A DIGNIDADE DO CRÉDITO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Redação sem Máscara        

Nei Duclós

“A César o que é de César” deve ser a lei de uma profissão totalmente exposta ao público. Reconhecer e identificar o trabalho alheio é um exercício de inclusão num país que costuma jogar fora o que produz de melhor. Nas redações, sobram exemplos de apropriação indébita, reproduzindo a estrutura social que determina quem é o maior e quem deve ficar limpando o chão.

GRIFES – Concentração excessiva de crédito em redor de alguns nomes, figuras carimbadas e detentores de vastos espaços na mídia, significa que a personalidade em evidência depende de uma equipe, muitas vezes anônima, para aparecer. Humanamente, ninguém tem condições de levantar uma montanha por dia. Numa importante revista semanal, descobri que existia a figura do “maçaneta”, aquele que trazia informação para alimentar os textos finais dos editores. Eram estagiários ou recém formados.

Muitas vezes, o autor do texto final assinava a matéria, punham um asterisco e lá embaixo, uma quantidade enorme de gente citada. Havia, portanto, uma hierarquia do crédito para um trabalho feito em conjunto. Mas esses casos são menos condenáveis do que o plágio puro e simples (facilitado agora pela Internet), ou mesmo a assinatura, na maior cara de pau, de um trabalho feito por outra pessoa. No açodamento informativo de hoje, quando portais e canais de TV com 24 de horas de notícias correm atrás do furo por questão de segundos, o que está em jogo é exatamente isso: o crédito para quem veicula o fato primeiro. Crédito, portanto, vale ouro.

A maior armadilha é obrigar alguém a reivindicar crédito. É o caminho mais curto para a vítima da fraude ganhar fama de “reclamão”. O que incomoda é que roubo de crédito pode até dar status, dependendo do nível (sempre alto) da disposição de aplaudir os espíritos-de-porco.

O MARKETING DA PRESSA – O grande cronista Lourenço Diaféria, que por muito tempo foi a estrela maior da crônica em São Paulo e que continua exercendo seu talento, um dia nos contou na redação da Ilustrada o caso de alguém que tinha outro emprego, mas a direção do jornal não sabia (já existia, a partir dos anos 70, a preocupação de tornar a profissão mais conseqüente e acabar com a imagem que ela tinha, de “bico”, atividade secundária para reforçar o orçamento doméstico e fazer lobby).

Então o personagem dessa história do Diaféria chegava às seis horas da tarde e imediatamente pedia um lanche. Quando o diretor da redação descia do Olimpo para dar uma vistoriada, lá estava o sujeito comendo apressado seu sanduíche empurrado por iogurte. “Como vai, chefe? Hoje nem tive tempo de almoçar!” Descobri também num emprego que as pessoas aceleravam propositadamente o passo (que virava seu andar “natural”) para projetar a imagem de eficiência, trabalho insano e dedicação.

São maneiras de receber crédito, nem sempre indevido, pois pode ser que o autor do marketing da pressa seja mesmo dedicado e eficiente, só que não se satisfaz em trabalhar, prefere demonstrar publicamente. Ler os gestos dos colegas é uma maneira de conhecê-los melhor. Peça para seus amigos imitarem seu andar: você vai descobrir o que faz com o corpo para impressionar os outros. Quem por exemplo, depois de alguns anos de profissão, não exibe uma curvatura, leve que seja, nas costas, não merece muito crédito: esse gosta mais de mandar do que pegar no pesado.

ASSINATURA – Assinar as matérias é uma maneira de deixar registrado a sua criação, mas quando alguém é editor ou redator, como provar? Uma das saídas é eventualmente escrever algo assinado, só para manter a escrita, como se diz. Outra é incluir-se numa assinatura coletiva, sem destacar seu nome. Mas normalmente quem trabalha na cozinha fica sendo conhecido apenas no seu meio. Parece que hoje a cozinha está meio em desuso, pois o repórter coleta os dados, escreve o texto final, revisa, às vezes tira até foto, faz o título, a linha fina, as legendas e os olhos.

Acabou a figura do copy-desk, o que é uma pena , pois sempre encarei esse ofício como edição de texto. Para mim foi uma escola. Ter ao seu lado numa redação editores de texto (próprio ou alheio) como Ricardo Vespucci (o imbatível Bi), Antenor Nascimento (quando a palavra atinge o topo), Genilson César (perfeição em todos os detalhes), Humberto Werneck (enciclopédia de recursos da linguagem), Wagner Carelli (que faz o País tremer toda vez que escreve), Moacir Japiassu (que me deslumbrou com seu romance “Concerto para Paixão e Desatino” e me tirava a vontade de terminar o livro para poder continuar vivendo na sua criação), entre muitos outros, é mais do que um privilégio, é uma festa do talento, é uma pós-graduação sem burocracia nem pose. São jornalistas que honram a língua portuguesa e, esses sim, merecem ser nomes de escolas de jornalismo.

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