A MAJESTADE EM VISCONTI

mai 21st, 2005 | Por | Categoria: Cinema    1.124 visitas    Print This Post  

Nei Duclós

Luchino Visconti filmou a decadência de um estilo de vida fundada no direito divino à majestade. Confundem essa catedral envolta na neblina com aristocracia, mas ela pode nascer do povo, como em TerraTrema, das posses e da riqueza, como em Il Gattoppardo, ou da virilidade ferida do proletariado e dos migrantes, como em Rocco e seus irmãos. A majestade encontra um limite, mas deixa os vestígios diante do nosso olhar demolido pela intervenção do Mestre. Estamos perdidos, nos diz ele. Mas antes disso, veja o que posso te mostrar.

Numa de suas inúmeras obras-primas, Morte em Veneza, o que finda é a possibilidade de um resgate, de uma salvação. O professor que busca a cura vislumbra a redenção ao entregar-se à radicalidade das diferenças. Não é seu encantamento pela beleza adolescente que está em jogo, mas o limite que encontra na própria grandeza ao descobrir uma porta que o levará para outra vida, longe de suas rotinas, hábitos, percepções, relações. Os personagens de Visconti estão livres para chegar perto dessa porta, mas ela se fecha no último minuto e fica apenas a sinfonia plena de uma cultura que se despede, inadequada diante da realidade que joga o sonho na terra nua. É um cinema que jamais existiu fora desse diretor que nos olha com sua brutal indiferença, mas que nos carrega no colo de uma grandeza que nunca tivemos, mas que sempre, desesperadamente, quisemos encarnar.

Batismo

De o­nde nasce essa grandeza? Dos romances inesquecíveis, da literatura genial e eterna de escritores sem igual. Vem da formação aprimorada em colégios seriíssimos, de professores exigentes e cultos. Vem das famílias que cultivavam a cultura. Vem das pressões de um tempo de guerra. Vem de inúmeros cruzamentos, das ciências humanas e exatas, vem das necessidades de espíritos livres, que dobraram o mercado impondo seus trabalhos. Tive o privilégio de ir, por um bom tempo, diariamente ao cinema e seguir todos os geniais cineastas que formaram minha cabeça e meu coração. Visconti é uma descoberta tardia, quando nem a tela pequena consegue diminuir seu gesto.

Ver pela primeira vez Claudia Cardinale pelo rosto retorcido das mulheres invejosas e só depois impactar-se com sua aparição no castelo é um momento único do cinema. A dança de uma valsa com Burt Lancaster nos remete a uma certeza: esse cinema majestoso encontrou atores à altura, ou será que os atores ascenderam à genialidade quando foram focados por esse cinema? O que importa é que jamais teremos alguém como Burt e Claudia em cena, rodopiando para sempre no salão do nosso encantamento. Pelo menos nesta vida, nunca sofreremos tanto como em Rocco e a família que se estraçalha na grande cidade. É tão profundo esse cinema, que Glauber Rocha começou a partir dele, com seu Barravento colado a Terratrema. Visconti nos trouxe Glauber, e só isso já basta para colocá-lo entre nossos grandes inspiradores.

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