A PERGUNTA ENGATILHADA
dez 13th, 2009 | Por Nei Duclós | Categoria: Redação sem MáscaraNei Duclós
Pânico é a palavra certa na hora da entrevista. Qual pergunta deve ser feita? Um roteiro prévio é obrigatório? Como prestar atenção ao que a fonte diz e ao mesmo tempo pensar na sua próxima intervenção como repórter? Os erros mais comuns são questionar de maneira genérica ou repetir as frases ouvidas para gerar uma desnecessária ênfase na conversa.
COMPOSIÇÃO CRIATIVA – A pergunta é um animal ferido, que está em posição de tocaia, mas não oferece perigo, a não ser para quem a enuncia. A entrevista mal feita é hoje a principal queixa das fontes. Perguntar é uma declaração de insuficiência, é precariedade pura. O recado de uma pergunta é: “eu não sei e preciso saber o que você sabe para eu poder trabalhar”. Não há posição pior. A não ser que seja marketing disfarçado de notícia. Aí você é tratado como um rei e recebe todo tipo de tapinha nas costas, além de uns dois ou três “esta é uma boa pergunta”.
Para evitar desperdício, faça uma composição criativa: pesquise previamente seu entrevistado (consulte o oráculo Google, leia reportagens ou artigos – livros, quando houver – ou pergunte para quem sabe sobre o personagem a ser enfocado), faça um roteiro das perguntas baseadas em necessidades de leitura, ou seja, em coisas que ainda não foram publicadas ou estão mal explicadas.
Preparado, quando chegar a hora, solte-se. Obedeça ao princípio do máximo da concentração com o máximo do relaxamento. Exercite-se articulando previamente a arquitetura da sua pergunta – que não seja rebuscada nem simplória, e coloque ambos, jornalista e fonte, nos seus devidos lugares.
O jornalista é aquele que nada sabe, por isso vive perguntando – o que não faz dele um ignorante, mas um profissional da busca da informação. E a fonte é aquele que quer dizer o que bem entende e precisa ser capturado no pulo – se for de boa fé, vai gostar de ser estocado em coisas que ele nem tinha pensado antes; mas se for o contrário, pode rosnar.
ROLO COLETIVO – A entrevista coletiva cruza uma fase muito ruim. A apelação, a superficialidade, a pressa e a redundância atropelam o evento, o que acabou por provocar o domínio absoluto dos promotores sobre os repórteres. A cena mais tocante e triste da mídia são os microfones lado a lado em frente a uma grande autoridade, como se fossem bichinhos de estimação subservientes à Voz do Dono. Também não gosto de microfone na garganta de quem tem o que dizer ou é obrigado a falar.
Acho bastante civilizado o esquema americano, em que o presidente aponta um dos jornalistas, escolhendo assim o interlocutor da vez. E o que é mais impressionante: os outros respeitam essa ordem natural das coisas. Aqui, quando não há submissão, há prepotência: os repórteres se atiram sobre as pessoas e uns contra os outros, alimentando assim os preconceitos contra a profissão, largamente explorados pelas novelas de televisão (jornalista e empresário são os vilões preferidos das novelas).
Quando há coletivas mais tranqüilas, é comum o silêncio geral, o medo de arriscar. Numa situação dessas, pense na sua pergunta antes, formule-a com princípio, meio e fim (se for improvisar, pode falhar) e aguarde esse momento de silêncio geral e dispare. Será bem sucedido.