AS HORAS

mai 13th, 2005 | Por | Categoria: Cinema    566 visitas    Print This Post  


Todo filme é sobre cinema. Um filme – e tudo o que há nele – desaparece quando os letreiros sobem e as luzes acendem. As Horas é sobre o desaparecimento de pessoas, representação da morte na tela. Seus personagens – alguns, também autores de outros personagens – sabem que vão sumir no final e ficarão apenas como lembrança de quem assiste. Esse é o motivo aparentemente banal da ameaça de suicídio que ocorre a cada momento: como suportar a dor de viver se há a certeza do fim?

Tudo então torna-se provisório, sinistro. Fazer um bolo, preparar uma festa, comprar flores, convidar os amigos, celebrar um prêmio ou um aniversário são eventos que sucumbem diante da visão da morte. O tom terminal de cada vida dita a precariedade do testemunho – único escape para o desparecimento total. Um livro, um poema, um filho são pressionados por essa natureza de extrema fragilidade que a vida ostenta. O pássaro que tomba, o visionário que se atira, a mãe que abandona os filhos são a prova da vitória final da morte, contra a qual nada nem ninguém pode.

Sobreviver, em meio a essa névoa, torna-se um imperativo permanente, manifestado no plantio teimoso do canteiro, na busca pela primeira frase, no apoio obsessivo ao moribundo, no abraço na hora do luto. O beijo entre mulheres é a vida que se ata para criar uma permanência. Por isso o beijo feminino é sempre testemunhado pela inocência – a criança atenta que nada diz, e que acompanha o lento escorregar dos adultos para o abismo.

A densidade do filme, lento drama que sufoca o espírito, prega o olhar firme em direção à morte. Encará-la sem sofrer, dispondo os rituais da sobrevivência sem culpa, é a solução diante da presença do suicídio.

O abraço de consolo é a cena definitiva para quem sai do cinema pronto para esquecer toda aquela dor concentrada no filme. Fica na memória a coragem como instrumento de domínio sobre a morte. A literatura, a arte, devem ser apenas as expressão dessa ousadia, sob pena de sucumbirmos diante do abismo.

Todo filme é sobre cinema. As Horas é um filme sobre a permanência da magia projetada em luz e sombra. Não nos esqueçam, sussurram os personagens. Não tenham medo, nos dizem eles. Vocês são parte de nós, gritam eles quando, no final da sessão, lhes viramos as costas.

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