BOLICHE EM COLUMBINE

mai 13th, 2005 | Por | Categoria: Cinema    1.168 visitas    Print This Post  

Nei Duclós

Boliche é o nome do jogo que os dois assassinos da escola americana de Columbine eram obrigados a participar. Fazia parte do currículo da escola e, antes de descarregar as armas nos seus colegas e professores, eles estiveram nessa atividade de Educação Física. É uma “cadeira” excêntrica, mais para cobrir a grade escolar e dar opção aos que realmente não participam de outros esportes. Os dois, segundo depoimento dos colegas, costumavam jogar as bolas do boliche a esmo, sem se importar em fazer pontos, em vencer.

No documentário premiado com um Oscar de Michael Moore, “Bowling for Columbine”, um morador da cidade acusa o sistema de ensino que incute a noção de perdedor nos alunos que vão mal na escola, tirando-lhes a esperança de se superarem, de darem certo na vida mesmo que não consigam completar o segundo grau. Os dois assassinos estavam convencidos que eram perdedores e ficariam nessa condição o resto da vida. Não queriam mais participar do jogo competitivo. Ao mesmo tempo, o boliche era o limite da sua degradação escolar, o último degrau da decadência num esquema em que foram sistematicamente excluídos.

Todos aqueles que , na crítica e colunismo midiático brasileiro, torceram o nariz para o filme, acusando-o de apelativo, certamente deixaram de lado – ou não perceberam – a profundidade dessa metáfora e passaram por cima das graves acusações do filme, que tem o cuidado de não cair em nenhuma explicação fácil, nem sustentar uma argumentação óbvia, nem desenvolver uma sociologia de palanque. A metodologia do cineasta – um arqueólogo a revirar camadas de estrume político, econômico e comportamental – coloca em cheque algumas certezas. A culpa não estaria na história da América, na sua predisposição para a violência, nem na quantidade de armas. Estaria na disponibilidade indiscriminada e criminosa de balas, rifles, escopetas, metralhadoras, fruto do mercantilismo hipócrita, que jamais enxerga conexões entre os fatos, especialmente onde elas sobram em evidências.

Estaria também no incentivo à violência via publicidade, nas omissões da mídia, que trata de maneira diferente dois eventos separados por uma hora, o bombardeio em Kosovo e os tiros em Columbine, relevando o primeiro para destacar o segundo, por meio do exagero emocional da cobertura, que abre o flanco para os preconceitos e ajuda a encobrir a razão. As causas estariam ainda no fracasso das políticas públicas, que priorizam o medo e assustam o cidadão para incentivá-lo ao consumo, ajudando a desmontar famílias pobres com programas sociais errados, deslocando o foco da segurança para a repressão e desamparando a cidadania e a vida comunitária.

Michael Moore fez melhor do que faria o mais radical dos socialistas. Fez pensando não apenas nos Estados Unidos, mas no mundo. A seqüência em que elenca os crimes internacionais dos governos americanos, com seus massacres e ditaduras nos países pobres, é antológica. Michael Moore é um fenômeno inacreditável: fora do peso ideal, fora da estética cinematográfica, fica longe da unanimidade da mídia e da respectiva abordagem fascista do império. Ele embala seu documentário para ajudar a desarmar os espíritos, distanciando os olhares do primeiro plano da tragédia, para que todos vejam, em profundidade, um processo que gera a hecatombe diária e nos levará para o buraco se ninguém descobrir a chave do enigma.

Por que os garotos atiraram nas pessoas que faziam parte da suas vidas? A resposta é porque os pais constroem mísseis que matam crianças longe dali? Porque a munição estava disponível, e barata, no hipermercado? Porque desistiram de vencer? Porque se sentiam excluídos e estavam contra a parede, num beco sem saída? Porque não queriam participar de um jogo social obrigatório e previsível? Michael Moore aponta a direção certa, sem puxar o gatilho.

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