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	<title>Nei Duclós &#187; Arte</title>
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	<description>Site do Poeta, Jornalista e Escritor</description>
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		<title>DUAS VEZES LINA BO BARDI</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Dec 2009 04:22:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Memórias]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p>Nei Duclós</p>
<p>Das celebridades que conheci, ou pelo menos com quem tive a oportunidade de conversar na minha longa vida dedicada às palavras, algumas eram muito inteligentes, mas havia uma só que era gênio. O nome dela é Lina Bo Bardi. Foram dois momentos. Um, quando inaugurou o Sesc Pompéia, o espaço deslumbrante de espetáculo que a grande arquiteta implantou em São Paulo e que impacta a cultura do país por ser múltiplo, grandioso, finíssimo, original e popular. Foi quando vi a exposição Tradição e Ruptura, que tinha Lina como curadora. E a outra na sua casa do Morumbi, cercado de mata Atlântica, em que me contou histórias maravilhosas enquanto bebia um minúsculo cálice de licor. Lina é a pessoa que mais me impressionou porque via mais longe do que todos e sabia te ouvir como ninguém, e dizer o que ninguém jamais saberia dizer.</p>
<p>O ARRIVISTA GLAUBER &#8211; Lina foi quem criou aquela presença imponente e mais do que moderna, eterna, que abriga o Museu de Arte de São Paulo, escola da percepção e da cultura, glória deste país. Ela me contou como conseguiu convencer homens poderosos, inclusive seu marido, Pietro Maria Bardi, além do governador Adhemar de Barros, de que era ela a pessoa indicada para arquitetar o prédio do Masp. Fui fazer uma reportagem sobre a Avenida Paulista (pautada por Fernando Poyares, então editor da revista Santista) e ela me atendeu, pois me conhecia da época da revista Senhor, quando Mino Carta tinha me convocado para entrevistá-la por ocasião do início glorioso do Sesc Pompéia. Tradição e Ruptura foi um balanço de 500 anos de criação brasileira nas formas, no design, na arte, e destacava o cruzamento cultural do país que nasceu diverso, e ao mesmo único na sua grandeza de nação soberana. Falou-me, nessa primeira ocasião, de Glauber Rocha, o qual conheceu menino, na Bahia. Lina fizera parte de um grupo de intelectuais europeus que foram para Salvador e lá permitiram que toda uma geração de talentos baianos se tornassem os novos ídolos da cultura brasileira. Foi por meio de Lina que surgiram Glauber, Caetano, Gil, Tomzé, Capinam e tantos outros. Foi o Renascimento na (e não apenas da) Bahia, que exerce sua influência até hoje. Glauber era um arrivista, me disse ela. Fã de Glauber, fiquei chocado. Você sabe o que é um arrivista? me perguntou, sabendo, pela minha reação, o que me passava pela cabeça. É aquele que sempre quer chegar primeiro. E ria. Não estava condenando Glauber, estava traçando o perfil de um espírito inquieto, que cedo demonstrou sua vontade de abrir caminho, ser vanguarda, chegar antes.</p>
<p>LINDO SONHO DE MULHER &#8211; Depois dessa primeira vez, fiquei sempre com vontade de repetir a dose. Muitos anos depois, consegui. Ela me recebeu sentada na cadeira de balanço, de aspecto cansado. Falou do seu Pietro, pessoa com quem lidei muitos anos, pois a coluna de PM Bardi era lida em primeira mão por mim na revista Senhor, e cuidava de detalhes  naquele texto em português escrito por um italiano. Eu já entrevistara também Bardi, pessoa importantíssima, que Assis Chateaubriand trouxe da Itália para montar o Masp e que aqui ficou, casando depois com Lina Bo, a brilhante arquiteta daquele grupo que aportou na Bahia. Aproveitei uma viagem do Pietro, disse Lina, pois meu marido não acreditava que eu teria condições de bolar a sede do novo museu. Coisa de homem. Pois fui falar diretamente com Adhemar de Barros e mostrei meu projeto. Quando Pietro voltou, contei-lhe o ocorrido. Sabe o que me respondeu? E a cara magnífica de Lina se iluminava, ela que estava tão triste naquela tarde em que a vi pela última vez. Ele me disse: lindo sonho de mulher. Pois Lina insistiu e seu lindo sonho de mulher virou realidade. Depois, ela me contou como usou um vestido completamente maluco numa festa no Trianon, um local de encontros da elite paulistana, que de lá, naqueles verdes anos do século 20, se vislumbrava a cidade. Pois a Avenida Paulista foi construída num espigão de 800 metros de altura, que cruza a cidade do Paraíso até a Pompéia. De lá se descortinava a cidade de Mario de Andrade. Hoje, nos fundos do Masp, há um paredão de edifícios.</p>
<p>MAIS LEVE DO QUE O AR &#8211; Lina sabia o que você pensava, entendia o que você queria dizer antes de você abrir a boca. Falava muito pouco, aos sussurros. Cada frase era uma inauguração. Tinha o dom da conversação, porque gostava de gente. Veio de longe e adotou o Brasil, país que transformou. Cada vez mais, o mundo descobre seu infinito talento e cresce a admiração por essa brasileira por adoção, que me ungiu com sua generosidade. Foi quando acreditei que a chama da divindade pode descer no coração e na mente das pessoas. Cada vez que lembro dela, fico ainda mais agradecido pelas duas conversas, que viraram reportagens, e que deixaram em mim a alegria de ter feito algo próximo à grandeza que Lina distribuiu nesta terra inventiva. Lina, a elegante eloqüência do gênio, que germina entre nós. E da qual guardo a lição de que escutar não é só um dom, mas um toque adivinatório, que a arte não é apenas talento, mas transcendência e transgressão, que um país não é só fronteiras, mas uma erupção, e que o concreto é mais leve do que o ar, como prova o prédio do Masp, desde que você sopre nele a alma imortal roubada dos deuses.</p>
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		<title>Walter Firmo: A aventura do Olhar</title>
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		<pubDate>Fri, 13 May 2005 23:40:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Arte]]></category>

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		<description><![CDATA[Um criador não cruza os braços quando vira a maré: procura pressionado pelas circunstâncias, desenvolver seu garimpo obedecendo à velha lição política, de praticar a arte do possível. No caso do fotógrafo Walter Firmo, carioca de São Cristóvão, 47 anos e 25 de profissão, a repressão e a censura que se abateram sobre o trabalho jornalístico do País chegaram tarde demais: ele já tinha provado o sal da aventura e da criatividade no início da sua carreira, na década de 50, quando conseguiu uma vaga na Última Hora, do Rio, dirigida, na época, por Samuel Wainer.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Um criador não cruza os braços quando vira a maré: procura pressionado pelas circunstâncias, desenvolver seu garimpo obedecendo à velha lição política, de praticar a arte do possível. No caso do fotógrafo Walter Firmo, carioca de São Cristóvão, 47 anos e 25 de profissão, a repressão e a censura que se abateram sobre o trabalho jornalístico do País chegaram tarde demais: ele já tinha provado o sal da aventura e da criatividade no início da sua carreira, na década de 50, quando conseguiu uma vaga na Última Hora, do Rio, dirigida, na época, por Samuel Wainer.</p>
<p>Os ídolos da fotografia nessa fase anterior a 1964 eram os da revista Cruzeiro. Havia uma mística no jornalismo, principalmnete o fotográfico, num tempo em que a televisão não tinha nenhuma importância no Brasil. Assim, quando a maré virou, Walter Firmo &#8211; que da Última Hora pulou para o Jornal do Brasil e, mais tarde, para as revistas semanais- já era um repórter fotográfico forjado numa luta que por um tempo funcionou como um projeto em todo o País: o de desvendar a realidade brasileira, descobrir seu rosto, mudar a imagem que a população fazia de si mesma. Um projeto que, na área do foto jornalismo, pode ser resumido numa expressão, usada freqüentemente por Walter Firmo: o da descolonização do olhar.</p>
<p>Se a censura e o arbítrio &#8211; mais alguns motivos importantes, como a crise do papel, a partir da segunda metada da década de 60, que acabou restringindo o espaço das fotos na imprensa &#8211; procuraram destruir esse projeto, o trabalho de Walter Firmo comprova o contrário. Os fotógrafos brasileiros foram obrigados a um recuo tático, que acabou completando o trabalho inicial : o impacto da época de O Cruzeiro e Última Hora, era, no fundo, apenas o primeiro plano de uma realidade muito mais complexa e que exigia uma atenção redobrada. Intuitivamente e dentro do combate possível, Walter Firmo acabou aprofundando essa perspectiva, explorando ao máximo as possibilidades do seu trabalho.</p>
<p>Além disso, a imprensa modificada lançou-o em outras linhas de ataque: não eram mais os bastidores do futebol que ele fotografava, como no tempo da Última Hora; nem se tratava de apenas desvendar os segredos do Brasil, como na reportagem premiada com o Esso de Reportagem, em 1963, no Jornal do Brasil, &#8220;Cem anos da Amazonia de ninguém&#8221; (onde também fez o texto). Walter Firmo, temperado pelo bom jornalismo da época democrática, foi visitar os músicos, foi bater perna na calçada da cultura, descobriu uma estética luminosa, dilacerada no cotidiano popular cruzado contínuamente pela impunidade da repressão.</p>
<p>Não apenas fotografou enterro de crianças, favelas, procissões ou carnaval. Descobriu &#8211; e revelou &#8211; os infinitos desdobramentos de uma realidade criada por um povo múltiplo, um país surrealista, uma geografia transparente. Fixou o detalhe que a televisão ignorou e viu que, em cada cena basileira, há um elemento fundamental de síntese de transcedência: a alegoria, trabalhada por Walter Firmo com uma obsessão poética, e que confere ao seu trabalho um impacto difícil de se livrar.</p>
<p>O seu olhar abriu-se às novas dimensões do espaço urbano e captou o &#8220;absurdo&#8221; do real. Como na foto Trem de Fantasia, por exemplo, de 1978, exposta no Masp, de 18 deste mês a 11 de novembro, junto com as obras mais significativas desses 25 anos de fotojornalismo: num trem de subúrbio, usado diariamente para o trabalho, aglomeram-se as integrantes de uma escola de samba, vestidas a caráter, como se os hábitos populares da fantasia e do sonho servissem não só como contraponto a uma situação social degradante, como também para sua superação. Ou como no caso da foto Círio de Nazaré, também exposta no Masp ( a mostra ficará também de 8 de dezembro a 15 de janeiro no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro): um grupo de pessoas, agarradas a uma corda ( que não aparece), apresenta-se numa postura &#8220;irreal&#8221;, como se até o andar das pessoas, em determinadas ocasiões, obedecesse a um outro tipo de movimento e se firmasse sobre um ponto desconhecido de equílibrio.</p>
<p>Muitos outros exemplos podem ser citados, como as fotos de brasileiros, ilustres, como Pixinguinha ou Nélson Rodrigues, ou a intimidade de uma solteirona de Belém.(Leito do Tempo, 1980) Mas o importante é dar a palavra ao próprio Walter Firmo que vê essa mostra como o fim de um ciclo no seu trabalho, uma espécie de síntese alegórica de um combate que está longe de chegar ao fim. Pois Walter Firmo, filho único de um portuário que um dia lhe trouxe de uma viagem uma Rolley-Flex legítima, quer continuar sua aventura: acaba de ser contratado pela Última Hora, do Rio, que passa por uma importante fase de reformulação.</p>
<p>Ele promete: não vai ficar atrás de uma mesa, chefiando uma equipe. Vai mesmo é para a rua, o­nde estão expostas, disponíveis ao seu olhar descolonizado, as verdades de um país que se precisa conhecer melhor para dar certo.</p>
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