Cinema

O EXCESSO EM DENYS ARCAND

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Invasões Bárbaras, o filme do cineasta canadense que dá seqüência a O Declínio do Império Americano trata da sobrevivência do espírito humano ressecado pelo excesso de conhecimento. O transbordo da informação cultural – que no fim torna-se escassa ao escoar pelo ralo numa sociedade de privilégios – é a desmoralização da pose acadêmica e o resgate da mais cruel e gratificante verdade humana: aquela que se revela pela sinceridade e a lucidez, e alcança sem querer a transcendência ao conhecer o limite imposto pela morte.



BERTOLUCCI: A QUEDA INVADE O PARAÍSO

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Bernardo Bertolucci tornou-se cult pela insistência, memorável por ter dado o recado mais direto possível numa época de mudanças profundas, por ter desprezado o que pensavam ser real e por ter dividido com a equipe o cinema que conseguiu fazer, nem tão importante quanto pensam seus admiradores, nem tão hediondo quanto pensam seus detratores, nem tão genial como ele gostaria que fosse. Mas igualmente vivo, apesar dessa paisagem morta. Mas igualmente forte, apesar dessa fraqueza de caráter. Mas igualmente fundo diante da imbecilidade que tomou conta da sétima arte.



CINDERELA AMERICANA

dez 18th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Dois filmes quase idênticos, Pretty Woman e Maid in Manhattan, abordam o tema Cinderela na sociedade de classes dos Estados Unidos. As mulheres, Julia Roberts no primeiro (branca, solteira e prostituta) e Jennifer Lopez (morena, separada e camareira) no segundo, são a parte excluída da história, que agarram a única chance da vida diante de um príncipe encantado. Richard Gere, o sucateador de empresas da globalização predatória, e Ralph Finnes, o republicano honesto com um pé na insinceridade da campanha eleitoral e da relação com as mulheres, se justificam pelo dinheiro e o poder, mas são vulneráveis num ponto (exatamente onde Cinderela vai atacar): traem seus ideais, e serão redimidos pelo sentimento por mulheres excluídas



QUARTO DE DESPEJO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Ambientado nos anos 60 e 70, o filme Cidade de Deus mostra um bairro que é a típica obra da ditadura, que construiu favelões compostos de casas alinhadas como se fossem um pombal, e batizaram isso de política pública. Lá abandonaram os migrantes, os despossuídos, os desempregados, os mortos vivos. O resultado é a fábula de Fernando Meirelles, cineasta maior, que fez uma obra impecável, onde se destaca a linhagem implacável do crime, que migra cada vez mais para as crianças, restos do massacre que empunham a morte cedo demais.



O IMPERIALISMO FIEL

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Fernando Meirelles, diretor de ” O Jardineiro Fiel”, é do ramo. O uso que faz da webcan, da internet, dos arquivos digitais para compor sua narrativa é de uma competência que emociona. Seu travelling na paisagem do Quênia, o encontro mítico entre o falso jornalista e o médico enterrado no ermo (um resgate do famoso encontro entre Stanley e Livingstone), o partido que toma a favor das crianças (como aconteceu com Cidade de Deus) são qualidades do nosso cineasta maior que o cinema americano valoriza até o limite, pois sabem que um profissional desses não se encontra em qualquer canto do mundo.



CINEMA DE EXTERMÍNIO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

A reflexão se atropela junto com as imagens de O pianista, de Roman Polanki, com Adrien Brody, que é sobre invasão e resistência na Polônia, mais do que sobre judeus (não há Bar Mitzvah, nem sabat, nem rabinos nesta obra-prima que faz chorar as pedras); de Dogville, o celebrado cult com Nicole Kidman, de Lars von Triers, que descobre a crueldade na pacata cidade imaginária de portas invisíveis do interior dos Estados Unidos; e 21 gramas, do mexicano Alejandro González-Iñárritu, com Sean Penn, Benicio Del Toro e Naomi Watts, que acompanha o destino de pessoas terminais na mais radical edição de uma obra cinematográfica, que procura enterrar para sempre a narrativa linear e bem comportada.



A ORIGEM DAS GRANDES QUADRILHAS

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Que o Comando Vermelho surgiu no presídio de Ilha Grande nos anos 70 devido ao contato entre prisioneiros comuns e políticos é um fato conhecido, mas o filme Quase dois irmãos, de 2004, leva essa revelação às portas de uma epifania. Os presentes que os reis magos da diretora Lucia Murat nos trazem são o ouro (ou a grana que define papéis sociais insolúveis e incomensuráveis), o incenso (a fumaça do fogo generalizado que queima as gerações desde o golpe de 64) e a mirra, o antisséptico que pela lucidez lava a ferida aberta que jamais cicatriza.



BRASIL DESPEDAÇADO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

A liberdade, esse vôo rumo às estrelas, virou uma roda-pião de frustrações e vingança. Tal qual nesse filme soberbo (mais um) de Walter Salles, Abril Despedaçado, que reporta o sol como pesadelo, a luz como redenção, o ódio como intensidade do impasse e o sair porta afora como único caminho possível para a existência real. Na terra nua, no povoado em ruínas, no velório em chamas, nos rostos crispados, nasce o riso, fruto da fraternidade, e o amor desencadeia a chuva.



DICKENS E NASSAR NO CINEMA: TRANSGRESSÃO E PERMANÊNCIA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

A literatura, e seu aliado, o cinema, é o caminho mais contundente para denunciar, descrever, criar vida a partir dessas situações limite. Roman Polanski, aos 72 anos e com filhos para criar ( um com sete e outro com 13), deixa de lado a transgressão pura e simples (como em “Repulsa ao sexo”) e volta-se para o lado dark de Dickens, colocando cruamente crueldade e assassinato na tela. E Luiz Fernando Carvalho mantém-se fiel ao seu estilo rigoroso e denso, que adotou na televisão e não abre mão nos seus filmes.



AS CIDADES LIMPAS DE WOODY ALLEN

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Woody Allen decidiu ser um clássico especialmente a partir de Manhattan, a porção novaiorquina em preto e branco que resgatou a magia perdida do cinema. O cenário limpo de suas cidades inexistentes (como acontecia nos filmes tradicionais) ambienta sua obra, que é pura reverência. Não bastou clonar Bergman, foi preciso ir atrás de Geroge Stevens de “Um lugar ao sol” ( a ascensão social por meio do crime) ou de Hitchcock de “Pacto Sinistro” (o cadáver oculto num evento social), como prova “Match Point” (2005), o thriller que nos traz a Londres vista pela elite (sem miseráveis à vista), numa trama que é mais um subproduto de “Crime e Castigo” de Dostoiewski (a lógica driblando a culpa) .