Cinema

A CHINA É VIZINHA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Still Life, ou Natureza Morta, ou Em busca da Vida, é do cineasta cult chinês, Jia Zhang-Ke, nascido em 1970 e um veterano de boas produções. Esta, ganhou o Leão de Ouro de Veneza de 2006. Nunca o povo chinês mostrado na tela foi tão brasileiro. O mineiro que se engaja nas demolições, as rodas de cigarro e aguardente, a aparente passividade, a malandragem ingênua, a afetividade navegando na frieza, os corpos suados e detonados em meio às ruínas. Zhang-Ke filma lentamente, como Wim Wenders em Paris, Texas, e revela a grande paisagem do interiorzão do país se transformando junto com seus habitantes. Os subúrbios sujos, os edifícios encardidos, os terraços favelados, as salas aglomeradas, as pensões baratas, as conversas intermináveis sobre dinheiro, o barulho, a tristeza sem fim.



LUDWIG, DE LUCHINO VISCONTI

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Luchino Visconti encontra em Ludwig sua própria representação. O filme (1972) de quase quatro horas que fez sobre o Príncipe da Baviera foi mutilado, esquartejado, desvirtuado exatamente pelo gabinete dos poderosos, os mesmos que, em mais esta obra- prima de sua lavra, aparecem todos de preto, portando guarda-chuvas sinistros em meio ao aguaceiro para cercar, aprisionar e depois levar à morte o rei que queria um lugar entre os criadores. Visconti filma o deslocamento de Ludwig diante de seus algozes e sua determinação em permanecer fiel a si e a seu reinado de imaginações, apesar de toda oposição e maledicência.



JUVENTUDE FORA DE HORA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

A juventude que chega tardiamente e viabiliza uma segunda chance para a profissão e o amor, seria fruto dos impactos da ciência na humanidade ou apenas perda de tempo? Nossa geração, que se recusou a abraçar o que estava programado e ousou novos caminhos, dando a si uma nova oportunidade, que elegeu a juventude como o insumo permanente do risco e de uma vida plena, sofre hoje com esse conflito: para onde foram tantas conquistas, tanto conhecimento acumulado, tanta experiência? Voltamos à estaca zero ou conseguimos realmente mudar tudo? Somos o professor recém saído da recuperação, cheio de projetos, driblando a tirania, ou aquele que volta ao seu regaço de modorra e esquecimento e acaba se perdendo no meio da noite e da neve? Eis a atualidade candente de Youth without Youth, a nova obra de Francis Ford Coppola.



O GRANDE SUFOCO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

O título é uma tradução livre de The Big Heat, filme de 1953 de Fritz Lang. Mas também se reporta ao crime hediondo que é ficar à mercê de gigantescas porcarias que são produzidas em série pela indústria audiovisual bandida, enquanto maravilhas, jóias do filme noir e de todos os gêneros dormem no esquecimento ou rodam apenas na mão dos cinéfilos. Temos pouca noção do Mal que nos fazem ao nos apartar das obras-primas como The Big Heat, que foi lançada no Brasil com o título de Os Corruptos. Nada mais apropriado para o Brasil de hoje: investigador honesto enfrenta a máfia que domina os altos escalões da polícia e da política e paga um preço caro para provar sua inocência e recuperar o cargo perdido.



O SPARTACUS DE MIZOGUCHI

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Vi O Intendente Sansho (1954), de Kenji Mizoguchi, um filme sobre a luta contra a escravidão. Não sei se alguém notou, mas este filme foi completamente copiado pelos americanos em Spartacus (1960), dirigido por Stanley Kubrick e roteirizado por Dalton Trumbo. O roteiro do filme do mestre japonês é de Fuji Yahiro, que se baseou em conto publicado no início do século 20, de Ogai Mori (1862-1922), que por sua vez se inspirou no conto popular conhecido como Anju e Zushio. É difícil saber quem bolou as situações que coincidem nos dois filmes, mas o que foi feito depois se espelhou totalmente na seqüência dramática do antecessor. Quais são essas coincidências ?



AKI KAURISMÄKI: O GESTO ENGESSADO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Cineasta finlandês faz filmes dramáticos hilários: o drama se expressa pela imobilidade do gesto, que provoca situações de humor terminal, aquela risada antes do fuzilamento. Os diálogos são escassos, como as ações dentro das narrativas (que, paradoxalmente, são dinâmicas). As conversas pontuam essa situação limite: “Se quiseres falar consigo mesmo, fale finlandês” diz um dos personagens de Segure seu cachecol, Tatiana, de 1994, um road movies que toca em algumas feridas básicas daquela estranha nacionalidade. Parte do antigo império russo, do qual se separou depois de algumas guerras, e por muito tempo dentro da área de influência sueca, o país exibe índices razoáveis de qualidade de vida, mas o isolamento e a falta de sabor da sociedade finlandesa tornam-se explícitas nos filmes de Kaurismäki.



PARA QUE SERVE O CINEMA?

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

O cinema, soma de todas as artes, serve para humanizar o espírito exilado do talento (esse mistério da sabedoria). Imersos na barbárie, na luta pela sobrevivência, dedicados ao esporte de se eliminar mutuamente, vocacionados para a indiferença, centrados no egoísmo, os povos acumulam fome de transcendência, que só o cinema pode atender. As ditaduras costumam expulsar os seres humanos completos, os cineastas, normalmente vindos da estiva do teatro, da demência literária, do exílio das artes plásticas, que buscam refúgio em outros sistemas políticos, onde podem exercer sua grande arte até que novamente os grilhões de voltem contra eles, podando-os, destruindo ou desvirtuando suas obras ou implantado neles a desesperança que enfim vence, renegando o que fizeram para o limbo absoluto.



ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA: NÃO VER É SENTIR

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

A crítica cinematográfica é cega. Não consegue enxergar um filme. Acharam “Ensaio sobre a cegueira”, de Fernando Meirelles, baseado no romance de José Saramago, deprimente, apocalíptico, azedo, óbvio. Se é para despejar adjetivos, para que a crítica? Uma análise precisa ver o que a obra mostra de maneira explícita, em todos os frames, cortes, formas, objetos, situações, diálogos, cores. E não o que o crítico acha. Não podemos achar nada sobre coisa alguma, apenas nos render ao que é evidente. E o filme é de uma transparência didática e cristalina: despojados da visão, as pessoas se desvinculam dos laços sociais, que regem a vida contemporânea por meio do massacre dos signos manipulados (os faróis do trânsito, as faixas de segurança, a indústria visual). Emerge então o que estava enterrado sob pressão, a barbárie e o sentimento.



A CHAMA E A SOMBRA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

O filme Flammen & Citronen (2008), de Ole Cristhian Madsen, é uma apurada sucessão de imagens de alta intensidade visual e dramática. As cores carregadas em contrastes gritantes fazem dele um noir do século 21: lâmpadas fortes sobre escrivaninhas minuciosamente produzidas, paisagens maravilhosas de céu, mar e grama que duelam com automóveis de cores berrantes, Estocolmo e Copenhagen esplendorosas na sua frieza incendiada pela ação e personagens sinistros em armadilhas mortais fazem desse lançamento internacional um acontecimento importante, mesmo quem seja considerado longo demais, confuso muitas vezes e com situações forçadas em algumas partes.



COLT É IRMÃO DA WINCHESTER

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Em dois filmes irmãos – Cão Danado (1949), de Akira Kurosawa, e Winchester 73 (1950), de Anthony Mann – Caim e Abel se defrontam depois de uma perseguição implacável. O que liga os protagonistas em cada filme são armas de estimação, importantes, raras. No Japão do pós-guerra, um colt roubado vira instrumento de crimes sucessivos, enchendo de culpa seu dono, o policial (Toshiro Mifune), que depois de muita luta, recupera a arma. No velho Oeste, a Winchester perfeita, considerada “uma entre um mil”, é disputada pelos dois filhos de um rancheiro e acaba passando de mão em mão até o duelo final, quando o filho bom (James Stewart) a resgata ao eliminar, no meio das pedras de um penhasco, o irmão assassino.



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