Cinema

O QUE É O GÊNIO?

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema, Crônicas

Implico com a palavra “menor” ao lado de um criador de obras-primas. É importante fazer um reparo: todo Kurosawa é maior. Não existe um só filme de Akira Kurosawa que possa ser classificado de outra forma. Nem vou falar dos mais explícitos, como Dersu Uzalá, Ran, Os Sete Samurais, Sanjuro, Yojimbo. Mas de O Barba Ruiva (1965), em que Toshiro Mifune interpreta o doutor dos pobres, um sábio que ensina, pelo exemplo, seu aprendiz arrogante.



CÉU E INFERNO, DE AKIRA KUROSAWA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

“Céu e Inferno” (ou High and low) é, como todos, um filme sobre cinema: a investigação de um crime de seqüestro é a leitura de imagens e sons. As pistas audiovisuais fecham o cerco sobre o criminoso, que consegue o resgate porque enxerga mais: pelo telescópio, segue todos os passos da sua vítima, o executivo que exibe poder e fortuna na grande janela envidraçada da sua mansão, a cavaleiro sobre a favela. Mas o olhar individual do sequestrador não vence o olhar coletivo, da sociedade e instituições mobilizadas para descobri-lo. É desmascarado por meio dos ruídos que deixa gravados nos seus telefonemas de chantagem, da voz que denuncia sua pouca idade, das opções que acabam entregando a localização do seu esconderijo.



MARIENBAD, O FANTASMA DA MEMÓRIA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

O ano passado em Marienbad, filme de 1961 de Alain Resnais, com roteiro de Allan Robbe-Grillet, é sobre a ruptura da memória provocada pela morte. Precisamos resgatar a memória para que lembremos aquele instante em que fomos assassinados. Só a partir dessa revelação é que poderemos romper com a armadilha. O filme acena com essa possibilidade. Chamam esse recurso de obra aberta. Prefiro dizer que houve o desenlace, o crime, e a mulher vaga, morta, pelos corredores e quartos. A chance de fugir daquilo é nossa, dos espectadores que depois do final terão apenas a lembrança do filme como companhia. A memória é um fantasma que precisa saber o que aconteceu conosco.



HIROSHIMA, O AMOR DA MEMÓRIA

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

O amor pode perdoar sem esquecer, nos diz o diretor Alain Resnais e a roteirista Marguerite Duras no filme fundamental de 1959, Hiroshima, mon amour. É, como todos, um filme sobre cinema: a mulher francesa participa de um documentário sobre a necessidade da paz depois da hecatombe nuclear, mas ela mesma é a protagonista do filme que estamos vendo, e que vai mais fundo do que os falsos apelos pacifistas, já que joga pesado com a necessidade real de convívio depois do massacre e a única saída para isso é resgatar o amor perdido e abrir-se para uma nova relação.



JORNALISMO NO CINEMA, ONTEM E HOJE

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Jerome Cady tinha 45 anos quando tomou uma dose excessiva de pílulas para dormir e morreu no seu iate em 1948, um pouco depois do lançamento de Call Nightside 777. Ele foi o roteirista deste e de outros filmes, naquela época gloriosa em que os créditos apareciam apenas por alguns segundos e não, como é costume hoje, por quase um terço do tempo destacando um a um, desde o segurador do pau de luz até o penteador de cachorro. Jerry Cady, como era conhecido, era um escritor de sucesso e este filme, dirigido por Henry Hathaway, conta a história de uma reportagem investigativa que livra um prisioneiro de ficar a vida toda na cadeia.



O AMOR NO CINEMA, EM ERNST LUBITSCH

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

A Loja da Esquina (Shop around the corner, 1940), do alemão que migrou para a América, Ernst Lubistch, é a mãe de todas as comédias românticas, gênero que substitui o romantismo literário do século 19 pelo realismo amoroso possível em tempos de guerra, de capitalismo ascendente, e também em crise, na ciência, no comércio e na indústria. É um filme que nos civiliza, nos encanta, nos seduz, nos faz chorar com coisas que parecem quase nada. Podemos ver como o ódio se transforma em amor, como a brutalidade das relações vira um grande abraço, como uma festa vazia se enche de comunhão, como o desespero encontra consolo, como a solidão inventa uma saída, como a desesperança pode ser colocada de lado e no seu lugar brilhar a faísca de um coração que pulsa.



UMBERTO D.: ADEUS AO TEMPO

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Na obra-prima de Vitorio de Sica, é revelador o momento em que Umberto coloca o relógio despertador embaixo das cobertas para lhe fazer companhia. Ele estava com gripe, se encontrava numa situação complicada, mas quem sofria de doença terminal era o Tempo. O mundo jogava fora os velhos que lutaram por ele e no seu lugar colocava o Eterno Presente, a juventude irresponsável e superficial, a indiferença olímpica dos antigos companheiros, o desprezo coletivo no lugar da solidariedade e do amor. Não há lugar para o velho e seu afeto representado pelo cão. E não há mais tempo para sobreviver.



ATUALIDADE DO JOÃO E MARIA DE CHARLES LAUGHTON

dez 12th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

The Night of the Hunter, o celebrado filme de Charles Laughton de 1955, que ultimamente tem sido considerado melhor e mais importante do que Cidadão Kane, é um conto de fadas bizarro e assustador, levemente inspirado no clássico João e Maria, uma lenda de tradição oral alemã recolhida e reescrita pelo irmãos Grimm. Trata-se de um filme de extrema atualidade, pelo que vemos no noticiário, em que as crianças são vítimas de todas as espécies de crimes, desde o leite contaminado com melanina vindo da China, o cartel da máfia que manipulava merenda estragada nos colégios públicos de São Paulo e a morte em massa de crianças na Nigéria em função do consumo de um remédio dental.



PAIXÃO, NECESSIDADE E FÉ NOS TEATROS DE “LINHA DE PASSE”

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Vamos fazer o gol? Ou somos parte das arquibancadas, com as mãos para cima, tentando alcançar o que nos parece remoto demais? A necessidade devora a fé? A paixão se extingue? Ou poderemos cruzar a linha do horizonte com as mãos no volante, o lance final decidido com firmeza, o nascimento de mais uma vida, o caminhar longe das obsessões? São perguntas, a bola, que chegam pelo alto, a arte suprema da Sétima Arte e que nos convocam para entrar em campo e evitar o rebaixamento.



CLINT EM “GRAN TORINO”: INCLUSÃO NA AMÉRICA

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Contra a divisão étnica, a vizinhança; contra a violência, o sacrifício; contra a diáspora, a nação; contra o esquecimento, a memória; contra a vingança, a justiça; contra a falsidade, a identidade; contra o ressentimento, a confissão; contra o isolamento, o convívio; contra o ócio, o ofício. Gran Torino, produzido e dirigido por Clint Eastwood, trabalha o antídoto sobre o veneno e dá uma chance à paz: é sobre a inclusão na América conflagrada entre as gangues e os veteranos de guerra, entre a migração e a xenofobia, entre o consumo e a religião.



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