Cinema

A NÓS, A LIBERDADE

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Ninguém poderá ver nos prisioneiros do Carandiru um herói, como aconteceu com O Homem de Alcatraz ou mesmo os dois protagonistas do impressionante A nous la liberté, de René Clair, que faz, de dois condenados, modelos da luta pela libertação. Naquela época, o foco eram os princípios. A prisão era o retrato do sistema. A obra de René Clair, de 1931, foi claramente plagiada por Chaplin em Tempos Modernos, de 1936. Houve um processo da produtora do filme de Clair que se arrastou por dez anos. Chaplin cedeu, a mando dos seus advogados, mas jamais admitiu o plágio, notório e explícito. Clair não quis entrar no rolo, disse que era uma homenagem e acabou amigo de Chaplin.



KAR-WAI WONG: ARTE E TRANSGRESSÃO

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Acho “Amor à flor da pele” (2000), assim como “Um beijo roubado” (2007), ambos desse fenômeno que é o chinês Kar-Wai Wong, filmes de transgressão. É quando a arte transborda das formas conhecidas, ou quando usa formas conhecidas para dar um salto quântico, para fazer outra coisa. Wong trabalha a indústria cultural, ou cultura pop, ou seja o nome que se dê ao mundo visto por Andy Warhol, ou alguém parecido, com um toque pessoal. Ele submerge na tralha de luz estourada, de cores quentes, câmaras que espiam, para narrar sobre personagens que se escondem e amores que não se consumam.



HIGH NOON: A SOLIDÃO DA CORAGEM

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Não há, no universo hostil, ninguém mais solitário do que Gary Cooper e sua estrela de lata, debaixo do sol que castiga com luz e calor insuportáveis. Vejam como, desesperado, procura quem o apóie e é recebido com a porta na cara, cinismo, voluntários incapazes de lutar (o bêbado e o adolescente). Veja como quase cede diante da possibilidade de sair a galope dali. Mas ele sabe. Viver é adiar o inevitável. Chega o momento em que não é possível mais escapar desse confronto. Velho, machucado, com apenas um revólver e algumas caixas de balas, o herói dividido palmilha a rua que lhe servirá de jazigo. Ele carrega o mundo nos ombros. Mas não por muito tempo.



O ESTRANHO BENJAMIN BUTTON

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Leio entrevista do roteirista Eric Roth, o mesmo de Munique (de Steve Sipelberg) e Forrest Gump (de Robert Zemeckis), sobre O Caso Curioso de Benjamin Button, de 2008. Consultando especialistas, descobriu que Scott Fitzgerald não levava a sério o conto, que fez apenas por dinheiro, pois era para ser publicado em revista e não em livro. Reli o conto depois de ver o filme. Como o gênio jamais descansa, Fitzgerald criou uma fábula com extrema consistência na estrutura narrativa, tanto é verdade que continua firme e forte, apesar do tema bizarro: o sujeito que nasce ancião e morre bebê. Esse núcleo é que deu margem para a indústria cinematográfica arriscar 150 milhões de dólares no filme, dirigido por David Fincher, o mesmo do violento Clube da Luta.



AS MIL E UMA NOITES DO MILIONÁRIO INDIANO

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Sherazade contava histórias para o rei que queria matá-la depois de fazer sexo. Deixava o conto em suspense para continuar no dia seguinte e assim foi adiando sua execução. Quando chegou ao fim da sucessão de contos, pediu clemência, no que foi atendida. Dizem que as Mil e Uma Noites são os degraus da iniciação do budismo. Assim também no filme “Quem quer ser um milionário”, de Danny Boyle, que ganhou 8 Oscar. O protagonista é um contador de histórias, que desfia os passos de sua vida bruta nas favelas indianas, onde começou órfão, passou a ser mendigo e acabou como servidor de chá numa empresa de telemarketing. Seu objetivo é escapar da tortura e da morte numa delegacia policial.



SEAN PENN EM MILK

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Representar o homossexual é uma tragédia na indústria audiovisual de última categoria, com o Brasil na frente, com suas piadas de viado que tomam conta dos programas de humor. Mas Sean não representa, ele se transforma em Harvey Milk na luta pelos direitos humanos. As expressões do personagem são o resultado da desconstrução facial a que se submeteu o ator. Os braços que se movem nos comícios buscam a espontaneidade contundente, pois era preciso criar um novo estilo de fazer política, que fosse o porta-voz de um movimento de massa emergente.



O PERDÃO EM “A PARTIDA”

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

O tocador de violoncelo que não perdoa o pai por tê-lo abandonado aos seis anos, acaba tendo de encomendar o corpo do velho quando ele morre esquecido numa vila de pescadores. A raiva acumulada por toda a vida é lavada pelo choro na magnífica cena final, quando temos um momento antológico da Sétima Arte. Nesse desenlace, vemos que, apesar da orfandade, da indiferença, dos erros, do ódio, tudo acaba confluindo para a manutenção de uma linhagem: a mensagem repassada de pai para filho, por meio de uma pedra que representa a realidade emocional do emissor.



O HEROISMO EM “OS FALSÁRIOS”

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Herói é aquele que abre mão do heroísmo, mas não da sua humanidade. Uma essência indestrutível apesar do horror e que, no final, contrariando as aparências e as evidências, o devolve à ação solidária e ética que o redime. O herói não aparece e compartilha sua glória em segredo com alguém muito próximo. Vimos isso no clássico Casablanca, em que Ricky é o mercenário sem coração que acaba fazendo o gesto supremo de abrir mão do seu grande amor em favor de alguém que ele não conhecia, mas que merecia escapar. Vemos isso no artista judeu de Os Falsários, do austríaco Stefan Ruzowitzky, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2008.



WOODY ALLEN: FILTRO DE AREIA EM BARCELONA

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Woody Allen não filma roteiros, ele escreve filmes. É um novelista de costumes, que usa a câmara como teclado. Conta uma história, baseado na sua paixão: o cinema clássico dos Estados Unidos, feito em sua maioria por europeus emigrados, que abordavam a elite para o encanto das massas sob a depressão econômica dos anos 30. Seu tema são os conflitos pessoais de uma coletividade intelectualizada e rica, um universo que não está disponível facilmente, a não ser que você faça parte dele. Talvez nem exista como é mostrado. Mas é verossímel e isso basta.



DILLINGER, O SURRADO CHARME DO PSICOPATA

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Quando o marginal pertence às classes subalternas, não há novidade, faz parte da “natureza” das coisas. Mas se, como John Dillinger, é de classe média e tem o sorriso cool dos galãs de cinema, algo muda. Dillinger foi um dos primeiros ladrões inventados pela mass media. Ele estava no miolo de uma briga de comunicação. O ascendente FBI e seu líder, Edgar Hoover, queriam ganhar a batalha na rádio e nos jornais. Mas os jornais criaram seu avesso, o sujeito que fugia da prisão, não roubava correntistas, apenas banqueiros e se movia rápido como numa seqüência cinematográfica.



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