Cinema

ILUMINAÇÕES DE “O LEITOR”

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

História, no filme O Leitor, de Stephen Daldry, um trabalho iluminado como se fosse um quadro da Renascença, é compromisso coletivo e culpa. O perdão, que é a proposta do filme, é um outsider do evento histórico, foi marginalizado pelos tribunais, os sobreviventes e os realmente culpados. A tragédia agora, depois da carnificina, é que não há remorso, mas sim o milésimo estágio da vingança. Quando uma sociedade procura se vingar não só dos estadistas que inventaram o horror, mas dos seus mais humildes subalternos, é preciso continuar procurando o bode expiatório, a pessoa indicada pelas evidências da lei, que vai carregar o peso do mundo. Essa é a chance de o resto (que compartilha da responsabilidade) poder se safar, ou pelo menos sair com menos arranhões.



MESTRE OZU, O MOVIMENTO NA IMOBILIDADE

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Costuma-se chamar Yasujiro Ozu (1903-1963), o clássico cineasta japonês, de pintor, pelo apuro da composição visual, que faria de cada filme uma exposição de arte. Ozu deve ser enquadrado pelo que é e não pelo que a inteligência da crítica sugere ser. É cineasta, e como tal vive do movimento. Seus filmes mantêm a postura rígida imposta pela cultura, a tradição e a educação. Mas desfolham, como os cataventos, que ficam fixos no horizonte enquanto giram suas hélices para provar que tudo sopra ao redor.



SOMBRA E NEVE, O CLARO-ESCURO DE NICHOLAS RAY

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Alguns arriscam que Casa das Sombras (On Dangerous Ground, ou “Cinzas que queimam”), de 1952, com Robert Ryan, Ida Lupino e Ward Bond, é a grande obra-prima de Nicholas Ray, melhor e mais importante do que seu famoso Rebel Without a Cause (“Juventude Transviada”, péssimo título em português que deveria ser substituído pela tradução literal, “Rebelde Sem Causa”), de 1955. Talvez mais do que, pecado dos pecados, Johnny Guitar, de 1954. Impressionado com este filme, que descubro tardiamente, agora entendi a famosa frase de Jean-Luc Godard, “Nicholas Ray é o cinema”.



FALLEN IDOL: O MOSAICO GENIAL DE CAROL REED

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

No filme Fallen Idol, de Carol Reed, de 1948, ninguém fez nada parecido com o que vemos na tela. A grande embaixada como ambiente de uma orfandade, o do menino que sente saudades da mãe e vê o pai ausentar-se mais uma vez; de uma traição, a do marido que namora a funcionária; de um amor, o da mulher que tenta fugir do homem que a atrai e com ele mantém encontros furtivos em cafés escondidos em becos; de indiferença, das empregadas que falam mal de todos. A grande casa é o território estrangeiro dentro de Londres que se vê envolvida por um escândalo e a política tenta driblar a todo custo.



CUIDADO, JOHNNY MCQUEEN ESTÁ MORRENDO

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Acompanhe Johnny McQueen, o rebelde irlandês ferido num assalto. Acompanhe James Mason, no papel de Johnny, em mais uma obra-prima de Sir Carol Reed, Odd man out (O Condenado), de 1947. Ele sangra pelo braço esquerdo, imobilizado por uma bala disparada pela sua vítima, que morreu ao tentar prendê-lo. Johnny, condenado à morte, fugitivo da cadeia e chefe da organização política que assumiu a vanguarda do movimento pela libertação, é um pássaro ferido, que passa de mão em mão pela cidade apavorada, onde todos os conhecem e ninguém lhe dá guarida.



KUROSAWA E O ASSOBIO DO VINGADOR

dez 11th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Em 1960 Akira Kurosawa enfim conseguiu fazer um filme independente, onde era responsável pela produção e a direção, sem interferência de ninguém. O resultado é The Bad Sleep Well (que eu traduzo para O Sono Tranqüilo da Maldade), uma obra didática sobre o funcionamento da corrupção num caso clássico: a relação incestuosa e criminosa entre um departamento estatal e uma grande construtora – ou seja, uma história que é puro Brasil.



A NÓS, A LIBERDADE

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Ninguém poderá ver nos prisioneiros do Carandiru um herói, como aconteceu com O Homem de Alcatraz ou mesmo os dois protagonistas do impressionante A nous la liberté, de René Clair, que faz, de dois condenados, modelos da luta pela libertação. Naquela época, o foco eram os princípios. A prisão era o retrato do sistema. A obra de René Clair, de 1931, foi claramente plagiada por Chaplin em Tempos Modernos, de 1936. Houve um processo da produtora do filme de Clair que se arrastou por dez anos. Chaplin cedeu, a mando dos seus advogados, mas jamais admitiu o plágio, notório e explícito. Clair não quis entrar no rolo, disse que era uma homenagem e acabou amigo de Chaplin.



KAR-WAI WONG: ARTE E TRANSGRESSÃO

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Acho “Amor à flor da pele” (2000), assim como “Um beijo roubado” (2007), ambos desse fenômeno que é o chinês Kar-Wai Wong, filmes de transgressão. É quando a arte transborda das formas conhecidas, ou quando usa formas conhecidas para dar um salto quântico, para fazer outra coisa. Wong trabalha a indústria cultural, ou cultura pop, ou seja o nome que se dê ao mundo visto por Andy Warhol, ou alguém parecido, com um toque pessoal. Ele submerge na tralha de luz estourada, de cores quentes, câmaras que espiam, para narrar sobre personagens que se escondem e amores que não se consumam.



HIGH NOON: A SOLIDÃO DA CORAGEM

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Não há, no universo hostil, ninguém mais solitário do que Gary Cooper e sua estrela de lata, debaixo do sol que castiga com luz e calor insuportáveis. Vejam como, desesperado, procura quem o apóie e é recebido com a porta na cara, cinismo, voluntários incapazes de lutar (o bêbado e o adolescente). Veja como quase cede diante da possibilidade de sair a galope dali. Mas ele sabe. Viver é adiar o inevitável. Chega o momento em que não é possível mais escapar desse confronto. Velho, machucado, com apenas um revólver e algumas caixas de balas, o herói dividido palmilha a rua que lhe servirá de jazigo. Ele carrega o mundo nos ombros. Mas não por muito tempo.



O ESTRANHO BENJAMIN BUTTON

dez 10th, 2009 | Por | Categoria: Cinema

Leio entrevista do roteirista Eric Roth, o mesmo de Munique (de Steve Sipelberg) e Forrest Gump (de Robert Zemeckis), sobre O Caso Curioso de Benjamin Button, de 2008. Consultando especialistas, descobriu que Scott Fitzgerald não levava a sério o conto, que fez apenas por dinheiro, pois era para ser publicado em revista e não em livro. Reli o conto depois de ver o filme. Como o gênio jamais descansa, Fitzgerald criou uma fábula com extrema consistência na estrutura narrativa, tanto é verdade que continua firme e forte, apesar do tema bizarro: o sujeito que nasce ancião e morre bebê. Esse núcleo é que deu margem para a indústria cinematográfica arriscar 150 milhões de dólares no filme, dirigido por David Fincher, o mesmo do violento Clube da Luta.