Cinema

CAPRA, AS REVELAÇÕES DO REMORSO

maio 26th, 2005 | Por | Categoria: Cinema

Não há, no cinema americano, seqüência mais sinistra do que a visita que Stewart faz à sua não-vida, às conseqüências da sua vontade de jamais ter nascido. É muito semelhante à história de Dickens, em que o velho avarento é levado por um espírito para visitar momentos importantes da sua vida, em que ele vê o Mal que encarnou em sucessivas manifestações de egoísmo e crueldade (roteiro filmado mil vezes).



QUANDO A COMÉDIA CEDE AO DRAMA

maio 26th, 2005 | Por | Categoria: Cinema

Comédia é uma situação em que o excluído tenta fazer parte dela e, como não consegue, acaba destruindo o cenário. O que era para ser uma celebração, uma festa de aniversário ou casamento, vira guerra de bolos e tortas, graças à intervenção de um desastrado, de um outsider. No fundo é drama: quem está por fora sofre para ser visto como um membro do clube, mas sempre será o estranho, o freak, o bobo.



OS ESPAÇOS FATIADOS

maio 25th, 2005 | Por | Categoria: Cinema

O ator move a cabeça lateralmente em ângulos bem determinados. Assim ele pode fatiar o espaço em vários pedaços de percepção. O que pretensamente enxerga em cada movimento é um compartimento à parte, que pode sugerir espanto, dúvida, entendimento.



O SUFOCO DO OLHAR

maio 25th, 2005 | Por | Categoria: Cinema

Sofia Coppola, em Encontros e desencontros (Lost in translation), mostra como o loteamento do olhar (em Tóquio, onde ela filmou, todos os espaços da percepção estão tomados) pode significar o momento de impasse na vida dos personagens envolvidos. A maldição do olhar viciado nas imagens comercializadas é reproduzir eternamente o imaginário do Mesmo. O truque é carregar nas cores, nos movimentos de luz, nas trucagens, para dar a falsa impressão de diversidade.



PAULO JOSÉ DIANTE DO ALVO

maio 23rd, 2005 | Por | Categoria: Cinema

Paulo José está desesperado na obra-prima Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos de Oliveira. É solteiro e entra em parafuso com o excesso de oferta de uma civilização que optou pelo lazer, o Rio de Janeiro dos anos 60. O­nde é a festa sábado? grita, bêbado, no bar cheio de mulheres e falsos amigos. Até que de repente…



O FILME PERFEITO

maio 23rd, 2005 | Por | Categoria: Cinema

“Chuvas de Verão” (1977), de Cacá Diegues, continua sendo uma obra-prima do cinema nacional. Em cada cena de clássico acabamento, numa trama de grande complexidade e transparência, vemos neste filme maravilhoso quem realmente somos e aprendemos a admirar nossa capacidade de alcançar o mais alto nível da criação cultural. Com essa revelação, resgatamos o país mergulhado dentro de nós.



A DESPEDIDA EM CASABLANCA

maio 22nd, 2005 | Por | Categoria: Cinema

A última cena de Casablanca não é um desfile de chapéus de um melodrama barato, como querem as imitações, as clonagens e as homenagens feitas depois que o filme tornou-se um clássico.



BUÑUEL, A CULPA SOB TORTURA

maio 22nd, 2005 | Por | Categoria: Cinema

Buñuel é o presídio da culpa, onde o prisioneiro cumpre pena perpétua. Como não há esperança de libertação, o encarcerado decide virar torturador. Quem sabe ocupando o lugar do algoz haverá uma chance de escapar? O truque é fazer com que a culpa sob tortura enfim revele sua insignificância, e negue sua justificativa de existir.



OS RASTREADORES, DE JOHN FORD

maio 22nd, 2005 | Por | Categoria: Cinema

Não escrevo sobre cinema, escrevo sobre o que cinema faz comigo. No centro do colar de obras-primas, alguns filmes compõem uma espécie de Capela Sistina. Os Rastreadores (The Searchers, ou Rastros de Ódio), de John Ford, é um deles. O plano mais copiado de toda a história é a de Ethan (John Wayne) saindo pelo deserto afora, trôpego, com os pés para dentro, com aquele caminhar que ele construiu, mas em ruínas, afastando-se da câmara, que o filma de costas, emoldurado por duas tarjas pretas laterais. Essa dupla escuridão funciona como guardas para a luminosidade dolorosa que se descortina ao fundo.



O CÍRCULO DE GIZ DA AMÉRICA

maio 22nd, 2005 | Por | Categoria: Cinema

O cinema é a prisão do imaginário americano. Melhor: é o reflexo, ou subproduto, da percepção fechada sobre a própria fronteira mental, que é muito mais sólida e perene do que a fronteira física pois, ao contrário desta, trabalha com a inclusão para que tudo permaneça inalterado.