Cinema

A PROFECIA DA VIDA MANSA

dez 12th, 2009 | Por nei | Categoria: Cinema

Quando falam que tens futuro, e apontam caminhos para chegar lá, é porque querem conduzir teu destino. Qual é o futuro dos dois jovens de classe média baixa londrina (Colin Farrel e Ian McGregor) no filme de Woody Allen, O sonho de Cassandra (2007)? É o tio milionário Howard (Tom Wilkinson), ídolo da irmã, mãe dos rapazes, que não cansa de usá-lo como modelo contra o marido perdedor, enfartado e dono de restaurante. Na mitologia grega, Cassandra é a a belíssima troiana amaldiçoada por Apolo, que não conseguiu faturá-la e por isso determinou que suas profecias jamais teriam credibilidade.



O CINEMA EM BUSCA DAS ORIGENS

dez 12th, 2009 | Por nei | Categoria: Cinema

Todo filme é sobre cinema. “Um longo caminho” (2005), dirigido por Yimou Zhang e com Ken Takakura e um elenco de atores amadores, não foge à regra. A morte, nessa obra, é representada pela ausência da indústria audiovisual na vida dos personagens. O velho, que depois de perder a mulher se recolhe a uma aldeia de pescadores, não tem sequer televisão. Sua tela, a natureza, que atrai sua atenção durante horas, é a extrema solidão de um mundo sem cinema. Ele só existe porque está sendo filmado por Yimou, cineasta deslumbrante de vários sucessos.



ACROSS THE UNIVERSE: CHEGUE JUNTO

dez 12th, 2009 | Por nei | Categoria: Cinema, Música

Nada mais é inesquecível, tudo está na mão. A memória era um lugar, hoje é lugar nenhum. Faz parte do consumo. A cena esquecida do filme perdido está no You tube. E o resgate do passado, feito agora, acaba sendo tratado como pão adormecido. É o caso do impressionante Across the Universe, o musical que nasce clássico, lançado em 2007. É tratado como um amontoado de clipes, como diluição das músicas dos Beatles, como “mais do mesmo” dos anos 60, quando não é nada disso. É uma bela obra. Mas ficar impactado com o filme não pega bem. A moda é negligenciar a obra alheia.



O ADEUS DO INDOMÁVEL

dez 12th, 2009 | Por nei | Categoria: Cinema

Em Cool Hand Luke (Rebeldia Indomável, 1967), no papel de um presidiário que se insurge contra a cadeia, Paul Newman conseguiu seu passaporte para a eternidade. Agora que não fará mais filmes, e está sendo lembrado pelo seus papéis mais afetados, como o jogador de sinuca de A cor do dinheiro, o gigolô de Gata em teto de zinco quente, o soldado de Exodus ou o bandoleiro simpático de Butch Cassidy, é melhor regular a transmissão para esta obra prima de Stuart Rosenberg, com George Kennedy como coadjuvante, fazendo papel do veterano que protege o garoto recém chegado, Newman, capaz de comer 50 ovos! De condenado a anos de prisão por ter desmontado, bêbado, alguns parquímetros na calçada, ele vira o mito rebelde que busca a liberdade de qualquer jeito e que deixa o sistema carcerário num beco sem saída: ou mata o indomável ou sucumbe com ele.



DÊ O CRÉDITO, GEORGE LUCAS

dez 12th, 2009 | Por nei | Categoria: Cinema

George Lucas é, com justa razão, tratado com a maior deferência pela imprensa e o mundo cinematográfico. Fez coisas incríveis e virou milionário graças ao seu talento e a noção que tem de mercado, ou seja, não se deixa levar por idéias prontas e com sua criatividade atrai milhões de pessoas em todo mundo, por décadas. Mas Lucas tem um defeito grave: não dá crédito para suas melhores sacadas. Em Star Wars, a essência é totalmente fundada nos livros de Carlos Castaneda. O Yoda como Don Juan, a Força como o nagual, o jedi como o guerreiro impecável, tudo conflui para Castaneda. Em Indiana Jones 4, a mesma coisa: o roteirista Lucas (a direção é de Steven Spielberg) tirou o principal de Erick Van Daniken, do best-seller Eram os Deus Astronautas. Alguém citou Daniken? Nem George Lucas.



O QUE É FILME NOIR?

dez 12th, 2009 | Por nei | Categoria: Cinema

Filme noir são tiros de mulher. A fragilidade como último recurso da trama, a sedução embaralhando a narrativa, a sensualidade apontada pelo pecado, as mechas que caem sobre os olhos, os batons tomando conta da tela, cílios mais longos do que a angústia, saltos pretos sob a pressão de passos limitados por saias coladas muito abaixo dos joelhos. São suspiros, sorrisos marotos, entrega e cobrança. São apontamentos de secretárias, jóias de amantes de milionários, de herdeiras que se apaixonam por matadores, de rostos com estudado espanto, mãos que chegam à boca compondo o gesto do pânico falso, ou até mesmo verdadeiro, quando enfim há sangue.



LEI E DESORDEM EM GOTHAM CITY

dez 12th, 2009 | Por nei | Categoria: Cinema

Batman, como Shane no mitológico final do grande faroeste de George Stevens, despede-se da inocência, que grita em vão seu nome. No fundo, a criança continuará fiel a ele, por mais que o persigam. Criança precisa de alguém a seu lado quando tudo está escuro. Os adultos é que se iludem achando que a claridade irá provar alguma coisa, vai lhes dar segurança. No escuro existem coisas que não dormem. Coringa, por exemplo. Heath Ledger detona. Sua atuação é misto de palhaço de circo e vilão de filme B de gangster. Sua força vem do entorno: ele está em todos os lugares e tudo pode. É o pânico que provoca que alimenta sua performance.



IMOBILIDADE, REGRESSÃO E LOUCURA EM DURVAL DISCOS

dez 12th, 2009 | Por nei | Categoria: Cinema

A demolição da loja que só vendia vinil e se recusava a acompanhar os tempos, no final do cult Durval Discos (Anna Muylaert, 2003) é a destruição não apenas de um negócio obsoleto, ou de uma construção velha, mas de todo o imaginário do país que se transformava na época em que ocorre os eventos da narrativa (1995). Essa superestrutura, nascida e criada na época da ditadura e que, em tese, se contrapunha aos poderes políticos do sistema, exibiu sua fragilidade no momento em que os protagonistas que dela se alimentavam não amadureceram. O dono da loja é o paradigma dessa imobilidade, que se estende aos outros personagens.



A CHINA É VIZINHA

dez 12th, 2009 | Por nei | Categoria: Cinema

Still Life, ou Natureza Morta, ou Em busca da Vida, é do cineasta cult chinês, Jia Zhang-Ke, nascido em 1970 e um veterano de boas produções. Esta, ganhou o Leão de Ouro de Veneza de 2006. Nunca o povo chinês mostrado na tela foi tão brasileiro. O mineiro que se engaja nas demolições, as rodas de cigarro e aguardente, a aparente passividade, a malandragem ingênua, a afetividade navegando na frieza, os corpos suados e detonados em meio às ruínas. Zhang-Ke filma lentamente, como Wim Wenders em Paris, Texas, e revela a grande paisagem do interiorzão do país se transformando junto com seus habitantes. Os subúrbios sujos, os edifícios encardidos, os terraços favelados, as salas aglomeradas, as pensões baratas, as conversas intermináveis sobre dinheiro, o barulho, a tristeza sem fim.



LUDWIG, DE LUCHINO VISCONTI

dez 12th, 2009 | Por nei | Categoria: Cinema

Luchino Visconti encontra em Ludwig sua própria representação. O filme (1972) de quase quatro horas que fez sobre o Príncipe da Baviera foi mutilado, esquartejado, desvirtuado exatamente pelo gabinete dos poderosos, os mesmos que, em mais esta obra- prima de sua lavra, aparecem todos de preto, portando guarda-chuvas sinistros em meio ao aguaceiro para cercar, aprisionar e depois levar à morte o rei que queria um lugar entre os criadores. Visconti filma o deslocamento de Ludwig diante de seus algozes e sua determinação em permanecer fiel a si e a seu reinado de imaginações, apesar de toda oposição e maledicência.



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