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	<title>Nei Duclós &#187; Contos</title>
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	<description>Site do Poeta, Jornalista e Escritor</description>
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		<title>UM ESTRANHO CASO</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Dec 2010 21:38:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Cachorro-Em- Pé era visado pelos maus da vizinhança. Com um tronco desproporcional aos pequenos braços e pernas, que sacudiam no andar desengonçado, o rapaz virou alvo fácil logo que chegou de mudança na rua, junto com a família. Além de bizarro, era de outra cidade. Parece que de Santiago ou Cachoeira, lugares distantes, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Cachorro-Em- Pé era visado pelos maus da vizinhança. Com um tronco desproporcional aos pequenos braços e pernas, que sacudiam no andar desengonçado, o rapaz virou alvo fácil logo que chegou de mudança na rua, junto com a família. Além de bizarro, era de outra cidade. Parece que de Santiago ou Cachoeira, lugares distantes, só alcançados em longas viagens de jipe ou trem. Como não tinha irmãos que lhe “tirassem a cara”, como se dizia na fronteira, que evitassem o massacre, nem um pai visível, já que a casa era habitada praticamente só por mulheres, o ataque era uma questão de dias, talvez horas.</p>
<p>O plano já estava esboçado. No momento em que ele, babão, passasse cumprimentando todo mundo com seu ar de idiota, olhar perdido, queixo proeminente, grande papada e um cabelinho preto enrodilhado no cocuruto da cabeça ovalada e enorme, bastava dar um grito para provocar o susto. Depois, era só diversão: roubar-lhe os tênis vistosos comprados talvez naquelas lojas ricaças da capital, a camiseta de grife estrangeira, a pulseira, que parecia de ouro, entre outras atrações. Além de completamente inofensivo, Cachorro Em Pé ainda exibia grande volume no bolso de trás da calça, de onde costumava tirar uma carteira recheada de notas.</p>
<p>Com ela, o infeliz fazia as compras para a família só de mulheres. Ia na padaria, na farmácia, no mercadinho e de lá vinha carregado de coisas inúteis, de cosméticos a pão integral, e ainda se arrastava pesadamente sob os mandados como se o bolso lhe tivesse pesando ainda mais depois de tantos gastos.</p>
<p>A petizada era formada de gente ruim. Rato, baixinho e peludo, com cicatriz no rosto, comandava. Gringo, alto, parrudo, pronto para entrar para os fuzileiros, obedecia. Bolo Fofo aparentava preguiça mas na hora de roubar era o mais rápido e ladino. Além de outros, quase anônimos, todos brutos. A idéia era roubar e esconder rapidamente, puxar para a briga, tudo em poucos segundos. Seria moleza. Mas não contavam com um fato extraordinário.</p>
<p>Logo que sentiu a aproximação dos meliantes, o inocente grandalhão tirou a carteira do bolso de trás, deixando cair um pote de geléia, um pacote de frutas variadas e outras miudezas sem importância. Parece que ria apontando a prenda, como se estivesse convidando para que a levassem. Os bandidinhos se entreolharam e se jogaram no butim. Mas no mesmo instante, viram o objeto de desejo se transformar de repente num pássaro preto enorme, que começou a dar bicadas na turma. Apavorados, tentaram fugir, mas o bicho, sob as ordens dos gritos do imbecil, sabia transformá-los em gado, obrigando-os a ficar contra a parede. Um deles parece que se mijou. Talvez o Bimbo, magro e comprido e com uma boca rasgada de orelha a orelha, que desandou num choro humilhante para a quadrilha.</p>
<p>Logo que estavam todos sob as ordens do bicharoco, eis que as asas se recolheram e o animal se projetou para os braços do Bahaunde (esse era o nome verdadeiro do Cachorro-em-Pé). Sorrindo, ele recolheu de novo a carteira para o bolso de trás, pegou as compras esparramadas no chão e foi-se, cumprimentando todos os que passavam.</p>
<p>Essa estranha história me foi soprada por um duende. Será que aconteceu?</p>
<p><em>Conto publicado no jornal Momento de Uruguaiana</em></p>
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		<title>O PARADOXO DE WHILE</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Aug 2010 19:12:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Pesquisador brasileiro, que se esconde sob o pseudônimo de While (talvez para fugir de um Jondertson) levantou uma hipótese polêmica, que depois de abandonada no meio acadêmico alcançou súbita notoriedade. Trata-se de uma relação entre duas situações incomensuráveis. A primeira é a da linha contínua que forma o círculo e que, em tese, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós<br />
</strong><br />
Pesquisador brasileiro, que se esconde sob o pseudônimo de While (talvez para fugir de um Jondertson) levantou uma hipótese polêmica, que depois de abandonada no meio acadêmico alcançou súbita notoriedade. Trata-se de uma relação entre duas situações incomensuráveis. A primeira é a da linha contínua que forma o círculo e que, em tese, jamais se fecha, pois não alcança o número infinito de pontos que existe antes de chegar ao final. A segunda é o perfil auto-definido das personalidades humanas, que também funcionaria como uma sucessão infinita de pontos, as imagens superpostas, como num espelho em frente ao outro. O círculo que jamais se fecha e a consciência que nunca chega à cristalização teriam uma relação íntima, que encerra um paradoxo. Qual seria?</p>
<p>Tanto a figura geométrica que nunca atinge sua concretização final, quanto o ethos pessoal sempre incompleto existem de fato e são vistos como definitivos. A existência da roda ou do Porfírio permite que pessoas andem de carro e xinguem os outros porque sempre têm razão. Mas sob o ponto de vista do paradoxo de While, nem o carro poderia rodar nem Porfírio teria chance de dirigir, pois não contaria com suas certezas para abrir caminho no tráfego.</p>
<p>Parece uma bobagem, e é. Mas não fosse o scholar Branden Der Wolf, que veio pesquisar os nativos a partir de uma bolsa fornecida pelo governo de Luxemburgo e da universidade de Branderbugo, talvez While continuasse no anonimato, como acontece com todos os produtores de pensamentos que tiveram a infelicidade de nascer no Brasil.</p>
<p>Wolf adorou o estudo de While, que não passa de seis páginas datilografadas em espaço dois em papel ofício A4 . O que o encantou foi, a principio, um paper escrito numa velha Olivetti, apesar de ser datado de março de 2010. E depois, ao colocar o texto no Google Tradutor, as possibilidades lucrativas de desdobramentos.</p>
<p>A verdade é que Wolf tinha se amasiado com uma mulata na Baixa do Sapateiro e deixado escorrer miseravelmente o tempo para sua tese. Ao selecionar papéis para uma necessidade premente, descobriu que tinha descoberto ouro em pó. E voltou do reservado com os olhos esbugalhados. Ali estava a possibilidade de estender sua estadia no Brasil por mais 20 anos. É o tempo que leva uma carreira bem sucedida nas universidades brasileiras. Bastaria encher alguns formulários, verter para o inglês a barafunda de While e pronto.</p>
<p>Desconfio que foi o próprio Wolf que arranjou o pseudônimo para Jondertson. Assim convenceria seus orientadores teuto-saxões de que estava às voltas com um fenômeno da fenomenologia, uma espécie de Schopenhauer de tanga, um Wittegenstein tardio. Como caçador de paradoxos, Wolf sabia que poderia incrementar o estudo com teorias bizarras sobre contradições nas relações de infinitude. O que havia de novidade é que pela primeira vez um estudo combinava a perfeição e os abismos da geometria e da matemática com a situação da diversidade e da sustentabilidade humana contemporânea. Não haveria mais como escapar da possibilidade de encarar cada candidato político, por exemplo, ou cada celebridade, como algo a ser enfrentado como um teorema complexo ancestral.</p>
<p>O problema é que o egrégio conselho da Universidade de Brandeburgo refutou a hipótese e mandou suspender a mordomia, que era de uns cinco paus de euros por mês, uma fortuna na periferia de Salvador. Foram suspensas também as viagens de Wolf a Santa Cruz do Sul, onde mora While, estudante por correspondência do Instituto Unviersal Sowak-Brasileiro, de existência virtual, mas significativa, pá que tem costas quentes, com três senadores lutando por sua regulamentação.</p>
<p>Claro que não foi o péssimo currículo da instituição de ensino freqüentado pro While que definiu o desenlace desfavorável. Hoje é moda cacifar grotões, a culpa primeiromundista alcançou níveis estratosféricos. Mas sim a natureza do paradoxo, de implicância político-perigosas. Os professores doutores não queriam amarrotar suas relações com o governo brasileiro, pois todos os anos ganhavam do Ministério da Educação uma verba para visitar as praias do nosso litoral. Wolf já tinha usufruído bastante dos trópicos, por que haveria de estragar o esquema deles?</p>
<p>Foi assim que While caiu temporariamente no anonimato e só recentemente foi resgatado por uma reportagem do jornal O Parcial, de Sururucu da Serra. O repórter Benício Vagalume descobriu a tese reescrita por Wolf num site sobre cães, e colocou no Google Tradutor, ganhando de presente um belo calhau para preencher lacuna deixada por malho na prefeitura local. Não tinham o que colocar lá, mas a página era em cores e fechava um caderno especial. O paradoxo de While então abrilhantou os serões deste inverno e virou um must não só na região, como nas catacumbas das universidades marginalizadas do País.<br />
While/Wolf viraram símbolos do saber que jamais é considerado. Já tem candidato prometendo elevar os dois ao nível de consultores regiamente pagos, para que distribuam suas luzes em cursos de auto-ajuda, superfaturados, pelo país afora.</p>
<p>Nem tudo está perdido. O círculo jamais se fecha, portanto a verba nunca acaba. E esse negócio de perfil pessoal incomensurável, já sabemos: faz parte da política brasileira atual. Ninguém tem uma só cara, isso não dá mais lucro.</p>
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		<title>INGLESES ROUBARAM A JULES RIMET</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Jun 2010 21:19:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Custou a cair a ficha: os ingleses jamais perdoaram o fato de o Brasil ter ficado com a taça Jules Rimet para sempre. Por isso, subornaram cartolas para deixar o texsouro bem à mostra sem segurança na sede da CBD e contrataram um argentino para fazer o roubo. Depois, foi só contra-informação: bastou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>Custou a cair a ficha: os ingleses jamais perdoaram o fato de o Brasil ter ficado com a taça Jules Rimet para sempre. Por isso, subornaram cartolas para deixar o texsouro bem à mostra sem segurança na sede da CBD e contrataram um argentino para fazer o roubo. Depois, foi só contra-informação: bastou dizer que a taça foi derretida para todo mundo acreditar. Ninguém desconhecia o imenso valor da taça. Um bandido que a possuísse pediria milhões por ela. Derreter pelo ouro é asneira, não cola. Mas colou. Ninguém contestou nada.</p>
<p>Mas eu soube que o argentino ladrão, que fingia ser músico amador, contrabandeou a taça num bandoneón. Hoje a Jules Rimet está no porão de um clube fechado inglês, guardada num cofre indevassável, feita do mais duro aço do mundo. É retirado de lá todos os anos para uma seleta platéia de nobres devassos, que acariciam o mimo vestindo saiotes, não porque sejam da Escócia (alguns são), mas para expressar seu domínio sobre os escoceses, como faz o Príncipe Charles.</p>
<p>Acredito que a taça Jules Rimet seja um dos segredos mais bem guardados do império britânico. Era uma questão de honra, prestígio e justiça, lá na visão deles, pois foram os ingleses que inventaram o futebol e nada mais lógico que eles ficassem com o galardão. Ainda mais que tinham conseguido já roubá-la em 1966, quando ganharam a final com a Alemanha com um gol suspeito. Sem falar que os brasileiros foram caçados em campo de maneira torpe e violenta, como mostrou o melhor documentário sobre futebol, Gol, dos próprios britânicos, que ninguém nunca mais fala e nem nunca mais foi exibido. Claro, denuncia claramente a sacanagem contra Pelé e o Brasil.</p>
<p>Os portugueses fizeram o jogo sujo, quebrando o Rei em campo, principalmente aquele Eusébio, ídolo lá deles, e natural da Angola, lugar onde a colonização do açúcar com mão de obra escrava africana foi formatada e depois exportada para o Brasil, como revelam os historiadores. A conexão Portugal-Inglaterra é antiga, vem do tempo das guerras napoleônicas Já havia tradição de conluios e conchavos entre eles. Foi um pulo bolar a estratégia para tirar o Brasil da reta. Já éramos bicampeões naquela altura. Já imaginaram se o Brasil fosse tri na Inglaterra? Seria um escândalo e uma humilhação. Acabou sendo no México, na cucaracholândia. Aí podia. O Brasil está proibido de ser campeão na Europa de novo, por isso ficou imobilizado na final de 1998. Ameaçaram, compraram, mas que teve treta ali, teve, está na cara.</p>
<p>Roubar em Copa é algo recorrente. Os argentinos nos acusam de nos conluiar com a Fifa para ganhar sucessivos campeonatos (jamais admitirão a superioridade verde-amarela no futebol), como aconteceu em 1994, quando eles foram eliminados porque o Maradona já gostava do riscado na época e rodou no anti-doping. Mas os argentinos pagaram, comprovadamente, 50 milhões de dólares para os peruanos afrouxarem o jogo, perderem de seis a zero e assim eliminarem o Brasil na Copa de 1978, realizada exatamente na Argentina. De novo a humilhação nacional: não poderíamos ser campeões em Buenos Aires. Isso, jamais. Só o Brasil teve a grandeza de perder em casa. Perdeu por excesso de confiança e não fez nenhum esquema paralelo para se garantir. Eis a prova definitiva da nossa honestidade: o fato de termos perdido em 1950, em casa, com um timaço que conseguiu golear ao longo da competição.</p>
<p>Nesta Copa africana, o roubo mais notório foi a eliminação da Irlanda pela França com um gol de mão de Henry. Um escândalo que só se compara ao gol de mão de Maradona, quando a Argentina foi de novo campeã em 1986. No caso das eliminatórias recentes, houve óbvia conivência da arbitragem e também da Fifa. A França deveria ser eliminada em favor da Irlanda. Não se devolvem medalhas olímpicas quando se descobre uma falcatrua? A França, que levou goleada de nós em 1958, está precisando de um corretivo para que aquele sorriso sacana do Platini se desmanche no seu rosto pateta. Tua hora vai chegar, palhaço.</p>
<p>Xenofobia minha? Picas. Gosto de futebol e admiro um monte de craques e times do estrangeiro. Não gosto é que fiquem babando ovo para o Messi ou o Zizou, que isso pega muito mal. Como se o modelo estrangeiro sempre fosse o melhor. Acho os uruguaios fantásticos, em qualquer época e com qualquer time. Os caras que nos venceram nas fuças de 200 mil pessoas merecem respeito. Acho que os africanos levam jeito, só implico com o fato de eles se acharem todos Pelés, só pela cor da pele. Pelé é brasileiro, não africano, ponto.</p>
<p>Ainda está no começo. A Copa é um up-grade, uma atualização no mundo do futebol. Fico conhecendo gente que nunca vi jogar . O que não pode é ficar falando mal da Copa como se fosse loteria ou um torneio tosco em que só dá jogo pífio. É porque está no início, calma. Essa mania de esculachar a Copa é para preparar o terreno: se a seleção de Dunga ganhar, será uma vitória de espirro, como diria aquele grande estadista de estádio.</p>
<p>Ah, como é bom ser implicante. Se me pedirem provas sobre o roubo da Jules Rimet pelos ingleses direi que foi dedução lógica, a la Sherlock Holmes. Se ele pode, por que não eu?</p>
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		<title>PARAÍSO TROPICAL</title>
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		<pubDate>Tue, 18 May 2010 01:09:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós Em filme americano, o céu é uma corporação com executivos que recebem os espíritos e os encaminham para as tarefas eternas. Só que sempre há um equívoco e a alma que chegou antes do tempo volta para continuar sua missão na terra. Vamos imaginar como seria o céu brasileiro. O traficante receberia o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós<br />
</strong><br />
Em filme americano, o céu é uma corporação com executivos que recebem os espíritos e os encaminham para as tarefas eternas. Só que sempre há um equívoco e a alma que chegou antes do tempo volta para continuar sua missão na terra. Vamos imaginar como seria o céu brasileiro. O traficante receberia o recém falecido. Que esperneia:</p>
<p>- Onde estou, quem é você? pergunta a vítima<br />
- Você apagou, meu chapa e agora está na nossa mão.<br />
- Mas não tinha chegado ainda a minha hora. O que estou fazendo aqui? Há um erro, verifica aí nos seus apontamentos.<br />
- Negativo, malandro. Aqui a gente trabalha no apalavrado, morou? Se os caras de asinhas brancas disseram que você já era, é porque já era, sacou?<br />
- Mas eu nem pude fazer o Enem, não comprei casa própria, não conquistei aquela guria bonita do colégio, não ganhei meu milhão de dólares antes dos 30 anos.<br />
- Mas não precisa morrer pra não fazer isso, bozó. No Brasil ninguém consegue merda nenhuma mesmo.<br />
- Além do mais, sou careta, não jogo, não fumo e não bebo.<br />
- Tarde demais, branquelo. Agora você vai para a cela do Carandiru e pronto.<br />
- Mas o Carandiru foi desativado.<br />
- É, mais continua existindo aqui no astral e o que é melhor, sem gambé, sem sirene, sem otoridade, nem juiz nem porra nenhuma. É só nóis na fita.</p>
<p>O coitado vê que não há argumento e espreme os miolos para se lembrar como os heróis de filmes americanos em que o cara morre e volta para a terra se comportariam numa situação dessas.<br />
- É o seguinte: eu volto e trabalho o dia inteiro pra vocês.<br />
- Já temos mão-de-obra de sobra, mané. Estamos até selecionando. Agora para entrar para o crime tem que ter curriculo e carta de recomendação de político importante. Vereador não serve mais, agora é de senador para cima.<br />
- Então eu te apresento para um banqueiro amigo meu das Ilhas Cayman.<br />
- Fala aí, meu chapa, as Ilhas Cayman são nossa propriedade faz tempo.<br />
- Então te apresento pro meu primo, o sheik de Agadir.<br />
- To sabeno que tu não é de nada, é funcionariozinho da prefeitura em Caiapó, que qui há, pensa que não vimos tua ficha antes de recolher o presunto? Vai dizer que tu é avião de heroína grossa pros grandões?<br />
- Vocês pegaram meu corpo?<br />
- É força do hábito. A gente agora só recolhe alma, mas quando era vivo só pegava presunto memo.<br />
- O sr. já foi vivo? pergunta o bocó, querendo conquistar a confiança do chefão.</p>
<p>O traficante perde a paciência e vai empurrando o falecido para um corredor comprido, cheio de almas em fila.<br />
- Chega de papo que tu não paga nem resgate, vai te mandando até ser atendido pelo nosso assecla veremelhão lá adiante.<br />
- Quem disse que eu não pago resgate? Tenho um bom preço procê&#8230;</p>
<p>O cara fica em dúvida. Puxa o presunto para um canto:<br />
- Vai me dizer o quê, que tem resgate o quê, desembucha logo.<br />
- Tenho sim, uma maneira de tu sair desse emprego e voltar com tudo na terra. Não é o que você quer? Ou prefere ficar de porteiro do Dito-Cujo?<br />
- Falei pra desembuchar, então fala logo, senão&#8230;<br />
-&#8230;me mata?<br />
- É, te jogo no caldeirão fervendo&#8230;Porque aqui é paraíso brasileiro, tem caldeirão e tudo. Mas me diga, que lance é esse, branquinha de neve?<br />
- É simples. Meus amigos banqueiros consumidores de heroína subornam até o teu chefe e te colocam full time num bordel de luxo. Você vai ter só que cheirar, comer, peidar e foder. Topa?<br />
- E como tu vai fazer isso, si eu sei que tu não é de nada?<br />
- Eu não apostaria nisso. Mas é muito simples. Você me coloca lá de volta e eu arrumo tudo.</p>
<p>O cara pensa, pensa, acaba concordando. Mas com uma condição:<br />
- Você tem duas horas. Se não conseguir, panelão pra ti.<br />
- E portaria pra ti, não é mesmo?<br />
- Vai, vai.<br />
O recém falecido se safa, volta para casa e telefona:<br />
- Dandan, meu banqueiro favorito? Faz um favor pra mim? Diz pro teu gerente sair de cima que eu preciso retirar aquela grana sem pegar fila. Ele está aprontando lá na porta do banco. Desse jeito o negócio não sai!</p>
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		<title>O QUE É MICROCONTO?</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Mar 2010 23:35:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós O microconto é a literatura da era da nanotecnologia. A palavra microconto já é a metade de um microconto. Acordou cedo e deu de comer aos microcontos. Toda vez que ouço falar em microcontos eu puxo a minha garrucha. Cuidou de queimar os rascunhos pois desconfiava que seriam confundidos futuramente como ninho de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p>O microconto é a literatura da era da nanotecnologia.</p>
<p>A palavra microconto já é a metade de um microconto.</p>
<p>Acordou cedo e deu de comer aos microcontos.</p>
<p>Toda vez que ouço falar em microcontos eu puxo a minha garrucha.</p>
<p>Cuidou de queimar os rascunhos pois desconfiava que seriam confundidos futuramente como ninho de microcontos.</p>
<p>Os autógrafos dos livros de microcontos ganham dimensões de verbetes de enciclopédias.</p>
<p>Microconto mentiroso tem perna muito curta.</p>
<p>MicrocontoSoft cobra royalties pelo uso de suas ferramentas.</p>
<p>Tinha potencial, mas não fez carreira literária. Tropeçou num microconto.</p>
<p>O prefácio do microconto só suporta uma vírgula.</p>
<p>O microconto não parou no ponto. Estava lotado.</p>
<p>No microconto de fadas a Sininho só dá meia badalada.</p>
<p>No microconto infantil os monstros são os percevejos.</p>
<p>O microconto pode ser feito dormindo. Mas é tão enxuto que não provoca sono.</p>
<p>Quem conta um microconto aumenta um microponto.</p>
<p>O pequeno vigarista aplicou um microconto do vigário.</p>
<p>No microconto policial o BO tem uma linha e meia.</p>
<p>Levou pela coleira os microcontos para passear. Esbarrou num crítico, que tossiu uma microresenha alérgica.</p>
<p>Não sou microcontista. Não tenho estatura para isso.</p>
<p>Uma caixa de fósforos é a única estante de uma biblioteca de microcontos.</p>
<p>Com a inflação, um cafezinho vai custar um micrconto de réis.</p>
<p>Por comparação, Guerra e Paz deve ser um macroconto.</p>
<p>Antigamente, microconto chamava-se título.</p>
<p>A vantagem de uma antologia de microcontos é que entram todos.</p>
<p>Colocou o microconto no microondas. Em um minuto estava pronto.</p>
<p>Os microcontos são escritos à sombra das árvores anãs.</p>
<p>Microconto é literatura de bolso de colete.</p>
<p>Os microcontos gostam de se reproduzir em microchips.</p>
<p>Os microcontos aleijados usam alfinetes como muletas.</p>
<p>Oficina literária de microconto tem fole curto.</p>
<p>Nos microcontos épicos, os heróis carregam flâmulas.</p>
<p>O grande microconto oculto ainda não veio à tona É que o Shakespeare do microconto não consegue crescer.</p>
<p>Só cabem versículos nos livros em papel Bíblia de microcontos.</p>
<p>Na China, cada família só pode ter um microconto.</p>
<p>Comadres corocas tricotam microcontos nas grotas.</p>
<p>Há orgasmos de formiga em microcontos eróticos.</p>
<p>O que trazes aí nessa cesta? perguntou o Lobo para a Chapeuzinho. Microcontos, respondeu a menina. Hummm, parecem apetitosos.</p>
<p>Foi deitar tarde e esqueceu os microcontos lá fora. Quando amanheceu, tinham se misturado ao sereno</p>
<p>O microconto é a edição dominical do Playmobil</p>
<p>Os microcontos evaporam quando narrados ao redor do fogo</p>
<p>Escondi uma pedra transparente lisa, um pião e um pedaço de madeira num vão do muro do quintal. Fui reaver, só encontrei a poesia</p>
<p>bra a porta! gritou o Lobo. Nunca! respondeu o leitão Prático. Esta casa feita com microcontos você não derruba!</p>
<p>Pôs a mão no bolso, contou os microcontos. Dava para comprar a ração dos alevinos.</p>
<p>Respirar fundo já é um microconto.</p>
<p>No meio da viagem,recontou os microcontos. Faltava um. Mandou o trem voltar.</p>
<p>O microconto argentino ainda não nasceu nem vai nascer.</p>
<p>No Pantanal, os microcontos servem de alimento para os jacarés.</p>
<p>Microconto baiano destoa do ambiente devido às microsestas.</p>
<p>Microconto nordestino vende miniaturas de jangadas fabricadas pelos chineses.</p>
<p>Microconto mineiro jamais se candidata quando se candidata.</p>
<p>O microconto carioca tem guerlas e sabe extrair petróleo ao som de tamborins.</p>
<p>O microconto gaúcho pesquisa a criação de micropôneis em laboratório para participar das cavalgadas nativistas.</p>
<p>O microconto da Amazônia constrói megalóples num folha de Vitória Régia.</p>
<p>O microconto de Itu faz sombra nos congressos da categoria.</p>
<p>As ferramentas de busca são imãs de microcontos.</p>
<p>Quando o microconto deita na rede, todo mundo reclama. Não sabem o duro que deu.</p>
<p>Microconto japonês faz parte da indústria de miniaturas.</p>
<p>Não esqueça de alimentar os microcontos. Eles ficam agitados quando a ração custa a chegar.</p>
<p>Depois de fazer uma palestra de cinco segundos, o microconto puxou a cadeira de lado e foi dormir.</p>
<p>Coffe Break de microconto é meio expresso com farelo de bolacha.</p>
<p>Quem faz workshop de microconto pela manhã dispõe do dia todo para se dedicar aos esportes.</p>
<p>É obrigatório ter diploma de Hotelaria e Turismo para hospedar microcontos.</p>
<p>Reduzido a menos do que 140 toques, para permitir RT, o microconto viu-se despossuído de seu microônibus.</p>
<p>Siga aquele twitter, disse o microconto. Mas teve de parar 140 toques adiante.</p>
<p>O microconto apaixonou-se. Mas reclamava da falta de espaço.</p>
<p>Microconto é troco na loja das letras.</p>
<p>Guardou os microcontos numa caixa de bombons. De vez em quado abria e comia um.</p>
<p>Escamas de tainha são pranchas de surf para os microcontos da ilha.</p>
<p>Microcontos gaudérios mateiam em dedais.</p>
<p>Microconto contigo.</p>
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		<title>MUITO ABAIXO DO PETRÓLEO</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Mar 2010 01:45:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Nei Duclós O ministro Linóleo Bólio foi recebido em caráter de urgência pelo presidente Prospectus Erectus. O assunto era explosivo: tinham descoberto, muitos quilômetros abaixo da sueperfície totalmente tomada pelo petróleo, algo parecido com o Mar, entidade mítica que existia nos relatos muito antigos. A alta tecnologia desenvolvida para procurar água no planeta oleoso era [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós<br />
</strong><br />
O ministro Linóleo Bólio foi recebido em caráter de urgência pelo presidente Prospectus Erectus. O assunto era explosivo: tinham descoberto, muitos quilômetros abaixo da sueperfície totalmente tomada pelo petróleo, algo parecido com o Mar, entidade mítica que existia nos relatos muito antigos. A alta tecnologia desenvolvida para procurar água no planeta oleoso era considerada caríssima pela oposição, totalmente fundamentalista, que não admitia a mudança de paradigma da civilização petrolífera. O mundo era petróleo e nada iria mudar. Nem mesmo uma grande descoberta:</p>
<p>- Mas me diga, Linóleo, o que descobriram de fato?<br />
- Uma gigantesca reserva de água salgada, totalmente azul, com ondas brancas, que banha lugares de areia fofa e fina, tudo com um cheiro agradável, cheio de peixes, cheio de vida!<br />
- Como pode ter certeza disso? Não existem peixes, apenas nos arquivos.<br />
- Foi tudo fotografado, excelência. Os peixes saltam para fora da superfície. Há de tudo: golfinhos, baleias, algas marinhas, uma maravilha.<br />
- Mas isso tudo está soterrado embaixo da rocha?<br />
- Sim, será preciso desenvolver mecanismos seguros para explorarmos esse tesouro oculto nas entranhas da Terróleo. Poderemos vender Mar para quem quiser e puder comprar.<br />
- Mas o que há de proveito no Mar que nós, da civilização do petróleo, não tenha? Temos tudo: carros, caminhões, máquinas de todos os tipos, tudo movido a diesel, gasolina. Para que Mar? Não vejo utilidade nenhuma.</p>
<p>O ministro suspirou. Era difícil convencer o estadista que aquela descoberta iria revolucionar tudo, que as pessoas descobririam como é chato viver com a pele suja de petróleo. Todos iriam querem Mar, Mar, Mar. E praia, meu Deus, como dizem os livros antigos. Mas a dúvida tinha fundamento: como transformar isso em ouro? Há muito que existia uma grande crise, pois o petróleo dominava e era praticamente de graça. Tinham conseguido extrair todo o petróleo da terra e ela tinha virado uma coisa só, pegajosa, imunda, que acabou endurecendo e soterrando fontes, planícies, lagos, e desconfiava-se até o antigo Mar. E que agora se revelava de maneira bizarra, oculta, mas intacto, a sete quilômetros da superfície.</p>
<p>- Podemos inaugurar uma colônia de férias no subsolo. Venderíamos caríssimo o privilégio de navegar no Mar e tomar banho na praia. As pessoas iriam adorar se livrar dessa merdalhada toda que nos envolve.<br />
- Você acha ruim Linóleo? O petróleo está no seu sangue, você é o petróleo! Não, não iria dar certo. Vamos esquecer isso.<br />
- Mas excelência, poderíamos repartir os royalties advindos dessa riqueza.<br />
- E quem iria pagar os royalties?<br />
- Ora, os marcianos, eles sonham com o Mar. Odeiam nos visitar e só ver petróleo. Um mergulho lá e eles pagariam os tubos para nós, que acha?<br />
- Metade para mim, metade para vocês?<br />
- Fechado!</p>
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		<title>O COTOVELO DE VIDRO</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Dec 2009 23:22:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[A casa era pequena, mas bem planejada por um oficial da Marinha. Os ventos podiam fazer escândalo na vizinhança, mas nossas portas não batiam. Copa e cozinha eram a mesma peça, e a sala um cotovelo todo ajanelado que dava para a praia de São José, cidade grudada a Florianópolis. Lá mergulhei mais uma vez na literatura.A revelação maior foi deixar que cada personagem mostrasse a integridade específica de vidas diferentes da minha.
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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong></p>
<p><em>I &#8211; O telegrama</em></p>
<p>Ainda existem telegramas. Recebi um o­ntem, que dizia: &#8220;cheguei procure hotel centro quarto 93&#8243;. Sem assinatura. Ou melhor, com um &#8220;pseudônimo&#8221;: Argeu Teodomiro Santiago, que é o verdadeiro nome do Cabo Adão. Gelei. O misterioso militar enfim tinha dado as caras. Ia ter de me explicar. Logo agora, perto do lançamento do meu romance.</p>
<p>SAFANÃO NO ELEVADOR &#8211; Arranjei duas horas para sair de o­nde estava. Como o trânsito ficou pior depois do Carnaval, decidi pegar um ônibus, senão iria gastar uma fortuna em taxi. Cruzei a ponte nova e desovei na rua Butantã, o­nde fiquei à mercê do barulho do motor (que ocupa lugar dentro do veículo, junto com os passageiros, uma solução da engenharia marota escravagista), e do calor infernal. Em 20 minutos cruzei a Faria Lima. Subi penosamente a Teodoro Sampaio e depois de uma légua de tempo, aportei na Consolação. Também estava tudo engarrafado. Só depois de uma hora e meia cheguei na rua Aurora, o­nde se hospedava aquele sujeito que eu citava tanto e que mal conhecia. Meu tempo já estava praticamente esgotado. Mas aquele encontro não podia ser adiado (não sei porquê, lembrei facão faiscando ao sol, barulho de rifle, canhoneio). Pisei na sujeira da calçada &#8211; a mesma de milhares de anos atrás &#8211; e me arrisquei na portaria do hotel barato, que despencava em tudo, inclusive no vetusto elevador movido a manivela e que ringia à menor aproximação. Subi até o novo andar, não sem antes levar um susto no sétimo, quando a pouca luz se foi e o elevador, movido a vapor, estacionou para sempre. Como estava munido de toda paciência do mundo, aguardei. Só depois notei que o bicho subiu dois andares quando tudo ainda estava escuro. Alguém puxava o dito pelo cangote. Desconfiei quem poderia ser.</p>
<p>LENÇO BRANCO &#8211; Mas a porta abriu e eu não enxergava ninguém. Acendi um fósforo depois de algumas tentativas frustradas, pois costumo guardar os palitos usados dentro da caixa. Fui queimando os dedos por um dos corredores, mas tive de voltar. Era no outro lado, o que dava para uma janela minúscula, gradeada, que lançava uma luz fosca do dia lá fora, abafado e com nuvens pesadas. Finalmente consegui que um dos últimos fósforos iluminasse o número 93, que estava torto, carcomido em seu metal de nenhuma categoria. Fui bater, mas uma chama atrás de mim chamou a atenção:</p>
<p>- 1893, disse uma aparição, que se confundia numa dobra do corredor. A guerra da degola!</p>
<p>- Sr. Argeu! exclamei, no susto.</p>
<p>O outro empertigou-se. Não gostava de ser tratado como civil. Usava ainda farda da Brigada Militar, no tempo em que essa tropa era um exército bem municiado e em ação constante.</p>
<p>- Cabo Adão, às suas ordens, se não for incômodo me chamar assim, disse.</p>
<p>Vi então o reflexo da luz que entrava filtrada pela janela do corredor nos botões outrora dourados da sua farda amarela. Notei também que a vestimenta estava limpa, quase passada e que para completar o quadro faltava apenas um capacete. Mas o que se destacava era o imenso lenço branco pendurado no pescoço.</p>
<p>- Sempre fui chimango, disse. O senhor não tem nada contra os blancos, tem, senhor escritor? Ou prefere os maragatos como aquele&#8230;</p>
<p>(deu uma cuspidinha de lado)&#8230;</p>
<p>-&#8230;teu &#8220;general&#8221; (sua entonação pedia aspas) Honório de Lemos.</p>
<p>- Sou isento, cabo Adão, disse, me aproximando. Para mim tanto faz.</p>
<p>- O senhor é quem sabe. Mas é bom lembrar que teu tio Waldemar era do nosso lado. Usava também lenço branco naquelas guerras todas.</p>
<p>Talvez por isso cabo Adão me tratasse com um pouco mais de consideração do que Honório. Mas uma dúvida me ocorreu:</p>
<p>- Ué, Honório me falou que o tio tinha lhe curado de um balaço na paleta.</p>
<p>BALAÇO &#8211; Cabo Adão sorriu-se todo. Mostrava com isso que sabia mais, apesar de eu ter tido encontro cara a cara com Honório, como está descrito no meu novo romance.</p>
<p>- Ele foi nosso prisioneiro e a bala era minha. Te assustaste?</p>
<p>O branco de susto da minha cara contrastava com o ambiente. Já estava cansado daquelas aparições.</p>
<p>- O que o traz a São Paulo, cabo Adão?</p>
<p>O militar fechou a cara em sua posição de sentido (coisa que fazia sempre, jamais relaxava).</p>
<p>- O senhor me convocou. Vim cuidar dos que querem faltar ao lançamento do seu romance.</p>
<p>Meti a mão na cabeça. Por que eu invento essas coisas?</p>
<p>- Era brincadeira, rapaz&#8230;Ninguém pode ser obrigado a ir!</p>
<p>Cabo Adão fechou mais ainda a cara. Não acreditava em e-mail, não admitia defecção, não gostava de ser convocado em vão. Estava, ainda, em guerra.</p>
<p>- Quer dizer que o senhor me convocou à toa?</p>
<p>- Foi meu jeito de dizer que gostaria de ver todo mundo lá. Usei uma metáfora da fronteira.</p>
<p>Cabo Adão intensificou sua cara de estranhamento. Vi que tinha enorme ruga vertical em cima do olho, que atravessava até o topo da testa preta-mulata, olhos amarelos-terra, sombrancelhas finas, rosto meio ovalado e puxado, como se um índio tivesse laçado uma escrava fugida. Me olhava desconfiado, mas não perdia o respeito:</p>
<p>- Estarei de plantão. Pode deixar que, para os mais renitentes, eu entrego pessoalmente o convite.</p>
<p>Que enrascada! Imaginei algum pobre convidado, recebendo tarde da noite o papel timbrado da editora pela mão do guerreiro que fatalmente colocaria o pé no vão da porta que se abririria, só para garantir a presença. Falei:</p>
<p>- Estamos ainda confirmando data, hora e local. E ainda não imprimimos o convite.</p>
<p>- Não faz mal. Eu espero.</p>
<p>E desembrulhou um pacote amassado, marrom, o­nde tinha uma boa quantidade de fumo de corda e com sua faca que tirou da cintura, de trás,começou a fazer um palheiro.</p>
<p>Quando acendeu, lembrei de outro parente meu, o tio Antenor. O pescador de beira de rio. O cara-massada. O sem-dentes contador de causos. O pai de dezenas de filhos e marido de várias esposas. O rei do desalinho. Tio Antenor agora era apenas lembrança, palavra que o rio Uruguai sopra, prometendo novas aparições.</p>
<p>- Escuta aqui, disse Cabo Adão, meio sem cerimônia ( o que não era do seu feitio). De que trata afinal o teu livro?</p>
<p>E me olhou com aquele rosto impenetrável, parede de sombra em meio à escuridão do corredor do hotel, ereto como um marechal, concentrando naquele perfil toda a majestade perdida de um povo. Fiquei, por alguns instantes, completamente mudo antes de responder.</p>
<p><em>II &#8211; O lenço branco</em></p>
<p>A casa era pequena, mas bem planejada por um oficial da Marinha. Os ventos podiam fazer escândalo na vizinhança, mas nossas portas não batiam. Copa e cozinha eram a mesma peça, e a sala um cotovelo todo ajanelado que dava para a praia de São José, cidade grudada a Florianópolis. Lá mergulhei mais uma vez na literatura, enquanto a família compartilhava esse trabalho e um espaço privilegiado de areia, mar e árvores que davam limões, ameixas e bananas.</p>
<p>LUA DE PRATA &#8211; Sentei em frente à Olivetti rodeado pela paisagem: pescador que embocava seu fino e comprido barco no rastro do sol recém nascido, lua grande de prata que subia, fazendo ruído silencioso de lua cheia. Resgatei o tempo em que estive perto dali dez anos antes, saído de Porto Alegre, quando me reuni com alguns amigos para dividir a mesma casa. O que não esperava era o papel que coube a cada um no texto, que saiu assim, de primeira, como dizem em Uruguaiana. As memórias tornaram-se apenas insumo e ponto de partida.Os personagens ganharam vida própria e me conduziram para inúmeras revelações. Descobri nossa extrema precariedade, fruto de dupla exclusão. Primeiro, estávamos fora do mercado (isso em 1972, época em que acontecia a história, e também em 1981, quando escrevi aquele relato ficcional, o que diz tudo sobre a crise permanente que se abate sobre nossa profissão). Segundo, estávamos fora das decisões do centro do país. Praticamente fugimos para a ilha, nossa descoberta daquele tempo, mal imaginando que um dia aquilo iria virar moda, não só entre gaúchos, mas também entre paulistas, e agora, mais do que nunca, um imã para povos do mundo inteiro. A revelação maior foi deixar que cada personagem mostrasse a integridade específica de vidas diferentes da minha. Mesmo o personagem que é baseado em mim ganhou uma forma totalmente diversa do que eu imaginava. Isso significou um alívio para a carga que caía nas minhas costas. Por meio daquelas pessoas irreais descobri um pouco mais do que somos. Podem chamar de psicanálise, mas prefiro literatura mesmo. Naquele cotovelo de vidro, escrevi inteira a primeira parte do romance Universo Baldio.</p>
<p>SENTIDO &#8211; Cabo Adão ouviu meu relato acima na sua postura habitual, a de sentido. Fiquei curioso com a maneira cerimoniosa com que me tratava, como se me devesse algo.</p>
<p>- Por que o senhor é tão sério, Cabo Adão? E o que me intriga é que certamente é muito mais velho do que eu mas aparenta ter trinta anos no máximo.</p>
<p>O militar tinha colocado parte do seu rosto fora da sombra enquanto acendia outro palheiro, já na posição de descansar.</p>
<p>- Nós, da Brigada, somos preparados para tudo, disse. E tratamos todos com o maior respeito. Somos legalistas, por isso usamos o lenço branco. Defendemos o governo, seja quem for. Prefiro o tacão do Estado do que a degola das revoluções&#8230;</p>
<p>E me olhou, quase de maneira desafiadora. Seu rosto mulato quase escuro de índio de cabeça ovalada tinha no alto um curtíssimo pixaim bem cuidado. Sobrancelhas muito finas, boca firme, falava como quem emitia ordens, mas, paradoxo total, num tom de quem só obedecia.</p>
<p>- O senhor se sente em dívida comigo, cabo Adão?</p>
<p>- Devo favores ao seu tio que me salvou na guerra de um monte de ferimentos. E fui amigo do teu pai. Mas o que devo mesmo são as palavras que ouvi do teu tio no dia em que fui humilhado por um tenentinho lá no Rio de Janeiro.</p>
<p>Lembrei então da história que Waldemar Ortiz contava quando eu era pequeno. De que um anspeçada (aquele militar que fica entre o soldado e o cabo), por ser analfabeto, recebeu uma reprimenda no Rio, em plena revolução de 30, diante da tropa. Waldemar perfilhou-se e respondeu ao oficial. Disse o velho tio:</p>
<p>- Esse homem lutou comigo em quatro revoluções. Merece mais respeito. Na hora de matar, ninguém perguntou se sabia ler.</p>
<p>Isso foi dito, claro, depois que a tropa tinha dispersado, um frente ao outro. Mas Cabo Adão tinha escutado tudo.</p>
<p>- Quem é da sua família manda e não pede, disse cabo Adão.</p>
<p>Fez um longo silêncio, recolheu-se novamente para o canto. Eu estava cansado de ficar de pé naquele corredor, cercado por ruídos de elevador e teto velho.</p>
<p>- Não tem um lugar para a gente sentar e conversar? perguntei.</p>
<p>Cabo Adão apagou o palheiro num velho cinzeiro abandonado no canto. Acocou-se para fazer isso. Depois levantou-se, de cabeça erguida, como sempre:</p>
<p>- Vamos ficar de pé. Não é hora de descansar. Me conte agora sobre a segunda parte do romance, aquela em que aparece o caudilho.</p>
<p>Dito isso, olhou mais uma vez ao redor, como se estivesse escutando o barulho da espada do general Honório raspando algum andar acima, o­nde certamente se aquartelava a tocaia dos maragatos.</p>
<p><em>III &#8211; Rumo ao rio Pinheiros</em></p>
<p>Cansados do sufoco no corredor do hotel da rua Aurora, saímos, o militar Argeu e eu, do centro de São Paulo a bordo de um caidíssimo Jardim Maria Luiza, que poderia nos deixar no Largo da Batata. De lá, rumaríamos para o rio Pinheiros, o­nde o ínclito personagem queria ver as margens daquilo que um dia foi um rio e hoje é alguma coisa perto do esgoto. Ele aproveitou a viagem para falar o que achava do &#8220;Doutor&#8221; Getúlio Vargas.</p>
<p>SALA E COZINHA &#8211; &#8220;O senhor sabia&#8221;, falei ao cabo Adão, que sentava ao meu lado, no fundo do despencado coletivo, sem que ninguém se desse conta da sua presença&#8230;&#8221;que pouco se sabe sobre essas guerras que ensangüentaram o país de 1893 a 1930? Por que será que acontece isso?&#8221; O brigadiano tocou a ponta do lenço branco num gesto típico e olhou para fora (o caos do barulho, calçadas pôdres, gente demolida, cansada de ter pressa).</p>
<p>- Lembro que eu voltava para casa e enfrentava o ponto de interrogação da família, que não entendia minha ausência por tantos meses. Precisava contar tudo em detalhes para tentar convencer mulher e filhos. Mas não adiantava. Já corria a versão de que não havia guerra, apenas escaramuças, coisas sem importância, invenção dos homens para ficar longe de casa e churrasquear de graça. Naquele tempo, a informação vinha a cavalo ou no máximo telegrama. O que pegava mesmo era o boca-a-boca. O pior é que eu vinha às vezes de uma batalha como a do Ibirapuitã, no Alegrete, em 1923, quando morreram pelo menos 200. O pasto ficou vermelho. Nem sei como escapei daquilo. A metralha do Lulu Aranha era imparcial: ceifava todo mundo. Aquilo foi a guerra. Vi atos de coragem que nunca mais se repetiram. O general Flores da Cunha dando uma carga de cavalaria em cima da ponte foi uma coisa tremenda. Se acham quie isso tudo foi um passeio, pior para os historiadores.</p>
<p>- Acho que estes são espécies de patrões dos fatos: só cuidam das grandes linahs e tendências, do atacado da história, da parte teórica, e deixam o varejão à mercê dos contadores de histórias das províncias. Ou se têm acesso às fontes, não lêem direito. Ao contrário dos ingleses, que cuidam de tudo. Para alguém falar de fábrica por lá, tem de sujar a mão de graxa. Aqui, não. Expulsam os fatos para a cozinha e ficam na sala falando asneira.</p>
<p>- O senhor tenha calma, disse o Cabo Adão. O senhor tem falado coisas sobre Getulio Vargas que nem sempre é verdade. O velho caudilho tinha seus méritos e um deles foi pacificar o Rio Grande. Juro que se não fosse ele eu tinha passado o Honório na faca.</p>
<p>MORTANDADE &#8211; Uma gargalhada ouviu-se lá na frente do ônibus.Lembrei meu encontro do Honório na Mooca, como está descrito no romance que lanço dia primeiro de abril. Seria ele?</p>
<p>- Mas o velho pagou pelos seus erros, que foram muitos. Confesso que fiquei impressionado quando ele driblou americanos, nazistas e fascistas, na época em que eles se dedicavam à mortandandade mútua. Mas ao mesmo tempo inventou um monte de novos coronéis, deu sopa para o azar. Acabou dando um tiro no coração, pois um guerreiro jamais deixa seu destino nas mãos alheias. Foi um ato de guerra o 24 de agosto de 1954. Meteu uma bala no peito para não deixar colocarem a mão nele. Homem de valor. Mas sua herança é pífia. Esse tal de Brizola é um trapalhão. Abraçou-se com tudo que é inimigo. É por isso que o teu trabalhismo é uma causa perdida.</p>
<p>Silenciei. Costumava ser um ouvido atento e uma língua afiada. Diante de uma fonte como aquela, nada tinha a dizer. Estava cansado demais.</p>
<p>- E aí, insistiu o cabo Adão (já estávamos perto do fim da linha). Do que trata a segunda parte do teu romance?</p>
<p>Falei a história do cara que estava aborrecido na metrópole e encontrou o fantasma de Honório. Cabo Adão não se impressionou muito. Contei mais detalhes. Ele ficou escutando. Tínhamos descido do ônibus e chegamos na ponte da Eusébio Matoso. Descemos até a beira do rio. Cabo Adão acocou-se e olhou para a água imunda.O cheiro era insuportável. De repente ameaçou levantar-se diante do ruflar de asas de uma garça. Ao mesmo tempo, seu ouvido captou, longe (vi pelo gesto brusco da cabeça) o tchibum de uma capivara.</p>
<p>- Tem ainda capincho e garça nesta joça, disse ele. Nem tudo está perdido.</p>
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		<title>O VENDEDOR DE MORANGOS</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Dec 2009 21:56:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Nossa colega estava surtada porque não conseguira explicar direito o objetivo do seu projeto. Sabíamos só que o troço agregava valor. Ou tinha algo a ver com qualidade de vida e meio ambiente. Parece que o importante era a transparência e não sei mais o quê. Concordávamos com ela, apesar de não entendermos patavina, só pelo alívio que poderia gerar nosso assentimento diante do seu nervosismo. (Crônica pubicada dia 6/11/2005 no caderno Donna, do Diário Catarinense)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nei Duclós</strong>-</p>
<p>Vou matar o vendedor de morangos &#8211; disse ela, já pegando a bolsa e saindo em direção à esquina em frente ao prédio. Tentei evitar aquele gesto, mas era tarde demais. Ela sumira escada abaixo. Tínhamos tentado conversar a tarde toda sobre um projeto, mas o cara lá embaixo não parava um segundo. Era pior do que o vendedor de mega-sena acumulada, que triplicava o preço e o tom de voz durante horas.</p>
<p>É que o vendedor de morangos tinha um diferencial: ele estava há dias com sua arenga, ao contrário do seu colega de profissão, que nos atormentou só por algum tempo. Na nossa conversa, eu procurava argumentos positivos para justificar o bordão repetido sem parar naquela melodia vocal criada para nos enlouquecer. Disse que deveríamos entender a falta de emprego, e que é um direito repassar papeizinhos nas ruas, abordar com alguma demanda. Falei do capitalismo de farol das grandes cidades, que existe há tanto tempo que muita gente está requerendo aposentadoria. Nesses casos, tudo volta ao normal quando chegamos em casa. Basta ligar a televisão para nos expor a duras noites de comerciais com alguns minutos de programa no meio. Mas mesmo a tevê dispõe de zap e podemos então relaxar. O que não conseguimos dominar é esse craquejar incontornável do vendedor de morangos.</p>
<p>Nossa colega estava surtada porque não conseguira explicar direito o objetivo do seu projeto. Sabíamos só que o troço agregava valor. Ou tinha algo a ver com qualidade de vida e meio ambiente. Parece que o importante era a transparência e não sei mais o quê. Concordávamos com ela, apesar de não entendermos patavina, só pelo alívio que poderia gerar nosso assentimento diante do seu nervosismo. A assessora (este era seu cargo) começara a falar de maneira pausada, sacudindo a cabeça afirmativamente depois do fim de cada frase. Conheço o expediente: as pessoas fazem isso porque aguardam a velocidade do ouvinte chegar às alturas da autoria da locução.</p>
<p>Mas o vendedor de morangos não dava trégua. Ela então começou a ficar fanha. A estridência alcançou decibéis insuportáveis e, de repente, quem estava em volta, decidiu atender o celular. O celular trouxe o escritório e o lar para qualquer canto do miserável planeta. Todos resolvem seus pepinos por meio da conversa sem fio. Não conseguimos captar o fio da meada, mas sabemos sempre que se trata de algo intransponível, uma entrega que foi parar em Jacarta e não em São Francisco do Sul, que talvez a repetição de palavras como &#8220;tá, estou chegando&#8221; poderá resolver. Mas nada resolve.</p>
<p>Certamente os usuários de celular chegarão em casa e o cachorrinho Bob já deve ter mastigado mesmo o sofá, o­nde o marido tenta ver o jogo, mas parece que vai ser repetido, pois foi roubado. O problema é que temos todas as soluções à mão, mas tudo fica num impasse. Vemos pelo noticiário que basta você acoplar um chip amigável wireless na banda super larga da infonet viabilizada pela Nasa que poderá então trabalhar remotamente, vivendo numa ilha do Pacífico. Se não houver tsunami, nem furacão, você poderá desfrutar a vida colhendo lagostin com sua rede de nylon com qualidade ISO um milhão. Não há perigo de aparecer um vendedor de morangos.</p>
<p>Foi só falar nisso para lembrar da minha colega de trabalho, que voltou suada, toda vermelha, da cabeça aos pés. &#8211; O que aconteceu? &#8211; perguntei, assombrado, já cavocando com o polegar o número da Emergência. &#8211; Falei para ir vender em outro lugar &#8211; disse ela, decidida. &#8211; E&#8230;? &#8211; perguntaram todos. &#8211; O cara falou que já tinha vendido tudo. Só estava ali para segurar o ponto. Se um concorrente aparecesse, ele daria uma rasteira competitiva. Perguntei como funcionava. Ele fez uma demonstração prática.</p>
<p>Fiquei vermelha, de raiva, e não pelo tombo em cima dos restos de morango que estragaram com o mormaço de hoje. Rasteira competitiva foi a mesma coisa que aprendi no curso da consultoria, especializada em informações privilegiadas para assessores da diretoria. Só não me disseram que a gente ia encontrar esse tipo de encrenca na rua.</p>
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		<title>QUANDO FALTA LUZ</title>
		<link>http://www.consciencia.org/neiduclos/quando-falta-luz</link>
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		<pubDate>Fri, 18 Dec 2009 20:10:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[A cidade fica toda escura e a casa é invadida por mãos cegas em busca de fósforos. onde coloquei a vela? é a pergunta mais comum. Custa um pouco colocar ordem no mundo desconhecido que se instala com a escuridão completa que chega até o horizonte. Longe, atrás do monte, um clarão se vislumbra; mas para lá não fica o mar, o pampa? De onde vem a luminosidade? Será a esperança que se recolhe numa distância prudente, esperando que nós, os eternos pessimistas, possamos recuperar o que perdemos subitamente?]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nei Duclós</p>
<p>A cidade fica toda escura e a casa é invadida por mãos cegas em busca de fósforos. onde coloquei a vela? é a pergunta mais comum. Custa um pouco colocar ordem no mundo desconhecido que se instala com a escuridão completa que chega até o horizonte. Longe, atrás do monte, um clarão se vislumbra; mas para lá não fica o mar, o pampa? De onde vem a luminosidade? Será a esperança que se recolhe numa distância prudente, esperando que nós, os eternos pessimistas, possamos recuperar o que perdemos subitamente? Depois de xingarmos todas as estações de energia, todas as empresas que deveriam providenciar o que nos falta, depois de nos acostumar ao fato de que deveremos cruzar a madrugada sem poder ler um livro, ver o jogo, nos reunimos em silêncio na varanda para acumular nosso desconforto.</p>
<p>SURPRESA &#8211; As nuvens estão pesadas, prenunciando uma noite sem estrelas e uma lua oculta. Não perderemos muito, pois a fase é um passo além da minguante, quando a lua torta parece um pedaço de algo que foi arrancada com os dentes e jogada no cosmo sem dó. No abafo da nossa preocupação, eis que um risco de luz nos surpreende. Um vagalume! exclama alguém que estava de frente para a eternidade da noite. Há quanto tempo não vejo um? Eles estão sempre aí, nós é que não vemos devido às luz elétrica, observa outro. Vamos chegar perto do terreno baldio em frente, eles devem estar lá.</p>
<p>CORPO &#8211; É verdade. Coalhados como pequenos diamantes lapidados no fundo de uma cesta gigante, os vagalumes fazem sua assembléia perto do ninho dos quero-quero, os pássaros que expulsaram as corujas depois que a prefeitura multou o proprietário por não ter limpado o terreno. Raparam tudo e o resultado foi a ave sentinela se instalar, pois quero-quero é como o gaúcho: gosta de ver à distância, em território limpo, e anunciar quando chega alguém. Tu por aqui? Quando chegaste? E quando vais? Não te prenderam ainda? Mas engordaste, hem. O corpo humano é um acontecimento a ser punido nessa abertura sem fim permitida pelo descampado. Ninguém escapa do olho clínico num lugar feito para enxergar o inimigo. É por isso que a noite súbita, adensada pela falta de luz, ajuda a criar aquele ninho oculto, necessário para sobreviver. O que deslumbra é o rebanho de vagalumes voando em espiral diante de nosso rosto que fica imóvel para não assustar essas lanterninhas químicas, misteriosas por gerarem o que mais nos falta.</p>
<p>DESPERTAR &#8211; Levam um toco de vela para a varanda e a criança quer tocar na chama. Ela está feliz, sacudindo seu chocalho para fazer o ritmo necessário às canções que começam a brotar das gargantas. Cercada pelo escuro, seu rosto assustado aos poucos relaxa e já está sorrindo novamente, alimentando a algazarra. Mas a chama é um evento poderoso demais para ser deixado de lado. Ela pára de tocar seu instrumento e levanta um braço em direção ao fogo. Isso queima, não pode, avisam os adultos. Mas quem convence uma criança? Ela desperta o choro e só acalma quando fica bem em frente à vela acesa. As lágrimas ainda correm banhando seu novo sorriso diante de mais um acontecimento. Ela comenta tudo, com sua véspera de linguagem. Não tentem esconder a luz de quem desperta para a vida.</p>
<p>SOM &#8211; Não importa o black-out, há vagalumes. Não importa o horizonte incendiado, a chama está bem diante dos olhos. Não importa se a luz não voltará jamais. Temos nosso ritmo, que se manifesta junto com as canções eternas. A música está dentro de nós e em nenhum outro lugar. Basta puxar pela memória e tudo vem, aos jorros. Como podemos viver sem isso todos os dias? Como perdemos a pista da nossa sonoridade? A resposta vem quando a luz volta. Queremos ver quanto está o jogo. Perdemos o primeiro tempo, é o intervalo publicitário. Toca algo sofrível. Morre-se pelo ouvido. Tiramos o som da TV, ligamos o rádio. É pior.</p>
<p>SONHO &#8211; Sentimos então saudade da varanda escura, quando pudemos ver os vagalumes. A falta de energia é a nossa volta ao planeta Terra. Visita temporária, que acaba quando os carros novamente ousam ressuscitar, espantando os vagalumes reunidos em assembléia. O que há com os quero-quero? Por que não se insurgem contra essa traição? As aves do pampa estão recolhidas, atentas aos gaviões que espreitam em cima dos morros. Quando houver lua cheia novamente, será a guerra. É hora de fechar todas as janelas. E reinventar a penumbra, para que nossa alma aflore outra vez, ao som daquela canção que fala: a quietude é quase um sonho&#8230;</p>
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		<title>AINDA TEMOS A TERRA</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Dec 2009 19:24:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nei Duclós</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[É fim de verão e o outono, velho tio encapotado que visita a família sempre que pode, já envia telegramas pelos pássaros ariscos, desses modernos, que não confiam mais em quintais. Perdemos o principal neste longo tempo duro, que é o de ficar confinado em paredes de um domicílio mutante, mas sempre o mesmo, que nos afasta do que temos de melhor. Sorte de quem vive cercado pela abóbada que faz um estádio de luz azul sobre seu teto e pode pisar a grama ainda molhada de orvalho, o sangue tardio da noite que se foi.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-size: x-small;"><strong>Nei Duclós<br />
</strong><br />
O amanhecer está indeciso entre as pinceladas de aurora e a hegemonia do cinza, que as nuvens modelam meio a contragosto. Vaidosas, elas preferem sempre o tempo bom, que a lua nova, no zênite, anuncia mais uma vez, usando aquele colar invisível que traz como pingente a derradeira estrela. Daqui a pouco tudo poderá voltar ao normal, mas por enquanto é essa flor que brota de um ar fino quase frio. É fim de verão e o outono, velho tio encapotado que visita a família sempre que pode, já envia telegramas pelos pássaros ariscos, desses modernos, que não confiam mais em quintais. Perdemos o principal neste longo tempo duro, que é o de ficar confinado em paredes de um domicílio mutante, mas sempre o mesmo, que nos afasta do que temos de melhor. Sorte de quem vive cercado pela abóbada que faz um estádio de luz azul sobre seu teto e pode pisar a grama ainda molhada de orvalho, o sangue tardio da noite que se foi.</p>
<p>TRILHA &#8211; Herdamos o paraíso, meu pai, e deles fizemos proveito até arrasarmos com tudo. Hoje vivemos sob a ameaça do eucalipto e da soja, do pasto o­nde deveria haver mato. Quando visitei as cataratas de Iguaçu, junto com alguns engenheiros, avisei: não vão destruir isto aqui, como fizeram com as Sete Quedas. Vemos o solo fértil e dele queremos tirar óleo, álcool, enquanto o sol, inútil, despeja sua força motora sobre os novos desertos. Os ventos sopram em vão para que possamos sonhar alternativas que vão trazer o saara para cá. São os últimos dias do planeta Terra, meu pai, ou sou apenas um pássaro que descobriu ter chegado sua hora de partir? Para o­nde, se já migrei tanto? Para que lugar devo ir, se aqui ainda existe o que devíamos jamais esquecer, o horizonte pontuado de morros ainda com árvores? Para cá todos se dirigem, como náufragos de um pesadelo. Chegam e se deparam com o Brasil, esse fabricante do caos, e acabam sentindo saudades do que perderam. Mas é cedo para partir. Venha, que te levarei pela trilha.</p>
<p>CHEIRO &#8211; Basta dobrar à esquerda daquela estrada que virou rua e está rendilhada de casas que tapam a vista da praia. Entre pelas servidões e becos, para se chegar às dunas, o­nde alguns carros encostam desabitados. Ali paramos e vamos enfrentar os morros de areia. Cruzamos então a barreira e no outro lado, junto à grande pedra, a praia do Santinho, agora deserta, acaba. Ali fica o pintor da ilha, com seus barcos e naturezas vivas. Saltamos pela subida e vamos até o lugar o­nde existem mistérios. Lá somos rodeados pelas atentas gaivotas. O mar prometia baleia, daqui a pouco tainha. Ou talvez apenas uma tarde de sol, com banho fora de cogitação, pois a água começa a temperar seus sais de inverno. Assim mesmo muitos se arriscam, mergulhados no sonho de viver à parte do país construído com ruínas e metais, enquanto aqui sobra espaço para a vista larga, o corpo agradecido e o cheiro de uma paixão ardida.</p>
<p>SOL &#8211; O Brasil está voltado para o que perdemos, enquanto a Terra continua no seu esplendor de sempre. Falta-nos a poesia quando o assunto é amanhecer. Queremos luta, mas estamos cansados. Quem sabe os primeiros raios de sol que agora batem como setas nos muros deste subúrbio me avisem que é hora de parar, de dizer adeus a tanto sofrimento e abraçar definitivamente o poema que salva? Pode ser.</p>
<p>CORAÇÃO &#8211; Levanto da cadeira e prometo colocar as coisas em ordem: o coração em primeiro lugar, o abraço sobre todas as coisas e estas palavras, que servem não para o consolo, mas para a verdade que assoma como uma ventania prestes a depositar as folhas deste outono que chega luminoso e claro como o país que sonhamos.</p>
<p></span></p>
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