Contos

AINDA TEMOS A TERRA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

É fim de verão e o outono, velho tio encapotado que visita a família sempre que pode, já envia telegramas pelos pássaros ariscos, desses modernos, que não confiam mais em quintais. Perdemos o principal neste longo tempo duro, que é o de ficar confinado em paredes de um domicílio mutante, mas sempre o mesmo, que nos afasta do que temos de melhor. Sorte de quem vive cercado pela abóbada que faz um estádio de luz azul sobre seu teto e pode pisar a grama ainda molhada de orvalho, o sangue tardio da noite que se foi.



O SENTIMENTO SEM NOME

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

A vida é um eterno assassinato dos sentimentos sem nome. Como não podem ser identificados, não há batismo. Chamamos de paixão, amor, empatia, todas as palavras, mas não se trata disso. É algo completamente desconhecido. É território inexplorado, que fazem a riqueza da psiquiatria. Não se trata de batizar, mas de identificar como algo próprio, que faz parte de um conjunto maior. É mais do que a arqueologia do coração e da mente, é trabalhar com um universo desconhecido, que está dentro de nós, mas estamos ocupados com outras coisas.



É DE TREM QUE EU PRECISO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Estou no meio do meu ofício, que é tentar entender a passagem obscura pela terra envolta em mistério. Estou só, como a criança que adormece no crepúsculo e acordo na boca da escuridão com um solavanco. Ela vê o homem fardado passar com seu boné de autoridade máxima da viagem. O homem recolhia passagens quando todos se aboletaram pelos bancos. Agora ele vigia o sono de quem escolheu esse momento para percorrer a trilha insana de uma vida. A criança fecha novamente os olhos e o embalo da serpente emplumada o leva para longe



FORA DA ESTRADA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

O carro parou novamente, desta vez numa curva acentuada. O animal de lava continuava no meu cangote, impaciente, mas eu estava prestando atenção mesmo era na dissipação da névoa, que mostrava um céu azul pontilhado de nuvens branquíssimas. Quando cheguei ao fim da curva, o dia estava translúcido e eu me deparava com enorme placa na minha frente. Sou um péssimo leitor de placas ou avisos. Já cheguei a confundir “temos tempero para lingüiça” para “tempos de desespero para a lingüiça”. Tudo é possível numa época de mau jornalismo. Mas aquela placa dizia outra coisa. Estava escrito: Ciudad Del Mexico, 30 km.



DEVE SER OS NERVOS

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

O elevador abriu para um seriado de portas com pequenas placas onde se lia indecifráveis enigmas. Eram letras e números separados por hífens que talvez indicassem a especialidade do que se fazia atrás de cada uma das placas. Onde se lia XPTO-3, entrei. Era a comunicação, segundo tinham me informado. Lá dentro, na penumbra, estava o cara sentado atrás de uma mesa, meio que debruçado sobre ela, com as mãos enlaçadas nos dedos, com os ombros para frente, um mais para frente do que o outro. Me olhava com seus olhos castanhos vivos e me falou para sentar. Combinamos rapidamente o trabalho e ele me pediu os documentos para registro. Estava satisfeito só com a indicação e o currículo.



OS BLOCOS DE MESTRE BAZINHO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Era chegar a bandalheira para que os músicos lembrassem aos cidadãos travestidos de mulher, às senhorinhas mergulhadas no lança perfume, de que existia uma civilização antes e depois do vendaval. Os músicos participavam de bandas sérias, envergavam fardas, tocavam nas comemorações da pátria, insuflavam vento à bandeira nacional que protegia o solo e acenava para o céu. Os músicos não poderiam faltar com suas notas, talento, força muscular e presença de príncipes num reino decaído. Eles herdavam a seriedade que antes pertenciam apenas às autoridades, aos professores, às mestras, às visitas ilustres, como o presidente da República que um dia deu um tiro no coração e que envergava roupa branca para refletir o sonho do povo em procissão pela História.



A FAZENDA AZUL

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Visitei o Pampa num sonho. O horizonte como a linha estaqueada entre dois moirões invisíveis; o pasto coberto de flores azuis de um abril imaginado; alguns tufos de árvores de escassa presença em relação à majestade da paisagem, mas generosas na sombra sobre dois viventes. Eles aparentavam aquela idade em que tudo foi posto de lado, menos a dignidade de continuar entre o que resiste.



NAVE DE OUTONO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Sempre espero que uma nave prateada surja por trás do morro e raspe o azul do céu. Depois me dou conta que a nuvem branca é a nave que aguardo. Há o mistério de ser vista assim, majestosa como escultura a se desdobrar lentamente, sendo acompanhada por fiapos de algodão, que dão o tom deste outono claro e frio. O mistério está sobre nossas cabeças e olhamos maio como um Deus em plena criação.



ÍRIO E OS ANIMAIS

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Ela deu um passo para frente e abordou Írio, que já estava há uns vinte minutos esperando a condução para levá-lo a uma unidade do Juizado dos Menores. Era seu dia de plantão. Não costumava chamar a atenção de ninguém, pois tinha o um tipo comum daquelas bandas:alto, curvado, magro, com um loiro de trigo bem clarinho no cabelo cortado, sempre despenteado. Exibia um topete que era mais efeito do vento do que do espelho. Estranhou, por ser invisível, a aproximação da mulher, que o cumprimentou com cerimônia e batendo duro com o salto alto do sapato preto.
– O senhor é o Írio, que trabalha com os menores, não é?



PASSO MIÚDO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Febrônio mantinha-se bem vestido dentro de casa e aguardava a chaleira chiar para fazer seu café. Depois, sentava no banco favorito a esperar as aves. O barulhão dos motores na avenida próxima, os gritos dos adolescentes armados, a serra elétrica em alguma construção próxima, tudo o rodeava nesse final de tarde, quando suspirava por uma boa conversa. Sim, ele estava velho. Sim, queria conversar sobre a morte. Não, não queria se iludir com a melhor idade.