Contos

LUZ DE INVERNO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Seria uma injustiça ao Inverno depositar nele toda nossa dor. Por isso lembro as manhãs de nevoeiro e geada, quando, à espera do sol, resgatamos o amor que salva, o sonho que jamais nos abandona e a força que carregamos não como um fardo, mas como sopro sobre a vela desta viagem que é pura convocação da divindade. Talvez, calados, aguardemos um milagre. Mas não será a palavra, habitada e livre, que irá nos redimir antes que seja tarde? (Crônica publicada no caderno Donna DC, do Diário Catarinense, em 13/agosto/2006).



REALIDADE ENCANTADA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Crônicas

Uma das minhas alegrias no longo período em que vivi em São Paulo era visitar os sebos perto das Arcadas, a Faculdade de Direito, no centro da cidade. Livrarias antigas com vários andares de obras perdidas faziam a festa da minha curiosidade. Aos poucos, fui perseguindo aqueles livros de uma só edição que deixaram de ter importância e que estavam à mercê das traças. As preciosidades forneciam a cola onde grudava acontecimentos conhecidos, que na superfície não faziam muito sentido, mas lá no fundo da estante ou da gaveta guardavam a chave de muitos enigmas. (Este texto foi publicado dia 31/agosto/2006 no caderno Variedades, do Diário Catarinense).



SOPA DE INVERNO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Memórias

Por algum motivo, nasci sem resistência para o Inverno, o que contrariava a linhagem familiar devotada à caça e à pesca em paisagens geladas. Houve até algum esforço do meu pai em me colocar de frente com os rigores de julho, para me fazer ver que eu poderia resistir a qualquer catástrofe do clima. Ensinava que o acampamento precisava estar bem fornido de lãs e que os sapatos deveriam ficar embaixo de tudo, para que o sereno tenebroso não os encharcasse. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, em 8 de Setembro de 2006).



VIAGEM NO BARRO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos, Memórias

A paciência do capitão da jornada se esgotava cada vez que vislumbrava minha falta de atenção a coisas básicas como amarrar um pneu com argolas de ferro para que o barro cedesse ao acelerador. Mas finalmente o sol levantou-se quando cruzamos a fronteira com Santa Catarina, na única vez em que passei pelo oeste do Estado, que me apareceu encantador, principalmente depois de toda aquela chuva. Mas o clima se vingou ao chegarmos no Paraná. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, em 9 de Setembro de 2006).



CASTELO DE VIDRO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos

Bastou entrar para não enxergar mais a portaria que me franqueara a invasão. O labirinto tinha sido feito de propósito. Uma vez aceito no ambiente climatizado, pontuado por seguranças, voltar para a rua vira uma idéia absurda. A não ser que houvesse uma insurreição, a quebra de alguns vidros ou todo mundo se atirasse do quinto andar, que é o segundo do estacionamento, ou do quarto andar, que é o primeiro. (Crônica publicada no caderno Variedades, do Diário Catarinense, em 12 de setembro de 2006).



O BARCO SOBRE A MONTANHA

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos

Se a base iluminada imitava o barco, que não se decidia se lambia as ondas ou não, o resto da esfera se mostrava impassível, satisfeita talvez com seu aspecto de breu contornado por leve fio de seda brilhante, que fazia uma perfeita bainha curva em forma de coroa. Era, essa parte escura, como a vela do barco a desprezar o vento, já que se mantinha pela majestade do que imaginava ser.



UM ESTRANHO BATIZADO

dez 17th, 2009 | Por | Categoria: Contos

O que fazer quando o padrinho está proibido de levar o garoto para a pia batismal? Lá na fronteira, o impasse foi prontamente solucionado. A pessoa convidada para ser meu padrinho, ao receber o convite bem na frente do galpão que existe até hoje atrás da casa da esquina que era nossa, concordou com tudo. E jamais foi me batizar, apesar de, a partir dali, se tornar um dos compadres do meu pai. Ele nunca iria desobedecer o amigo, nem recusar o convite. Assim é a têmpera dos homens da fronteira: palavra dada, palavra cumprida.



O DICIONÁRIO DE EPÍGONOS

dez 14th, 2009 | Por | Categoria: Contos

A arte de Herr Grutes era tão excêntrica que talvez nunca mais surja alguém como ele. Levou para baixo da terra o que sabia fazer e que o tornou célebre entre uma casta de escritores sem escrúpulos. Não que o alemão que salvou minha vida tenha alguma vez escrito alguma coisa, a não ser a carta que deixou para mim como despedida. Ele fazia algo maior.



A TRAPAÇA DO TEMPO

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Contos

Continuava à cata daquele primeiro vôo que me revelara o sopro das mudanças. Aguardava a insurreição do pampa, que se transformaria nas águas em fúria que experimentei no primeiro dia da praia. A paisagem, entretanto, continuava ao meu lado como um cão absorto. O tempo aprontara sua armadilha. Nela me enredei, sem possibilidade de trégua.



O VENDEDOR DE CERCAS

dez 13th, 2009 | Por | Categoria: Contos

Ele me falava de grandes alambrados, cercas gigantescas que precisavam ser levantadas para cercar latifúndios ou então pequenas propriedades prósperas assustadas com o avanço da miséria e da violência. Isso começou a acontecer, acredito, nos anos 80, há muito tempo, portanto. Era o início da avalanche que tomou conta do país e Lê era o cara certo no momento certo. Costumava ser convocado em todos os cantos. Paulista da Mooca, adquiriu vários sotaques para se adaptar às exigências dos compradores e poder assim repassar alguma credibilidade.